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A ameaça iraniana

O relatório recentemente divulgado dos serviços secretos americanos vem relançar uma nova luz sobre a ameaça nuclear iraniana. Segundo esse relatório, o Irão suspendeu o seu programa nuclear com fins militares em 2003. O mesmo relatório adianta que, na eventualidade de um relançamento do programa nuclear de natureza militar, dificilmente o Irão terá a capacidade de desenvolver uma bomba nuclear antes de 2015.
Ora, as conclusões do relatório dos serviços secretos americanos vêm pôr em causa a própria estratégia da Administração Bush para o Irão. O presidente americano tem-se mostrado incansável na tarefa de mostrar os perigos de um Irão nuclear, e mais, não esconde que a sua Administração não põe de parte uma solução militar. Efectivamente, o presidente Bush parece por vezes adoptar uma retórica de algum empolamento da questão do nuclear no Irão. E, de facto, o relatório dos serviços secretos vem precisamente demonstrar algum empolamento no discurso do presidente americano.
Escusado será dizer que a intervenção militar americana no Iraque veio a revelar-se uma das maiores mentiras das últimas décadas. E agora surge um relatório a contradizer, ou pelo menos a atenuar o discurso alarmista do presidente americano. Relembre-se, pois, que o presidente Bush, num dos seus discursos mais recentes, referiu a hipótese de uma terceira guerra mundial.
Antes de mais, o líder de uma potência, ou da super potência mundial, não pode engendrar a sua estratégica com base em especulações de origem ideológica, nem tão-pouco pode exagerar deliberadamente uma situação com vista a fazer valer a sua posição. Se por um lado, sabe-se que o Irão é um país que merece todas as cautelas, por outro, não é menos verdade que os empolamentos podem ter consequências trágicas, como a intervenção americana no Iraque tem demonstrado.
O regime iraniano incita ao ódio contra Israel, há fortes indicações que patrocina grupos terroristas, dos quais o Hezbolah é apenas um exemplo, e pretende alcançar uma situação hegemónica numa região maioritariamente dominada pelos sunitas. Estas são razões que, só por si, justificam uma particular atenção com o Irão. E a isto acrescente-se as intenções de desenvolver tecnologia nuclear – com fins energéticos, segundo as autoridades iranianas – e percebe-se que o Irão é um problema no contexto geopolítico. Todavia, o empolamento patente nos discursos do presidente americano – não tem sido o único a fazê-lo, mas, em todo o caso, trata-se do presidente dos Estados Unidos – fazem desconfiar que existem intenções belicistas relativamente ao Irão, e que o nível de ameaça iraniana pode ser apenas um pormenor sem particular significado.
É neste contexto que surge o relatório dos serviços secretos, mas ainda assim, e não obstante a análise feita pelos serviços secretos americanos da situação iraniana, o presidente Bush continua a enfatizar a enorme ameaça que o Irão constitui para a região e para o mundo. Reitere-se que o Irão é, de facto, um problema para a região conturbada do Médio Oriente e para o mundo; mas a avaliação do problema deve ponderar o peso das informações disponíveis, e o presidente americano não pode ignorar esse facto. Como é evidente, este relatório também não pode originar complacências e irreflexões no que diz respeito ao Irão, porque este é um país cujo regime representa um problema que não é exclusivamente regional.

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