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Mensagens

Largo José Saramago

Diz-se que a voz do povo é a voz de Deus, mas quem anda pelas caixas de comentários dos jornais online ou pelas famigeradas redes sociais, rapidamente se apercebe que não podia existir maior engano. Deus, a existir, não daria voz a tanta idiotia.22 Vem isto a propósito da mudança de nome de parte do Campo das Cebolas para "Largo José Saramago". O facto causou forte indignação, com provas de que a memória conspurcada pelos nossos preconceitos é uma receita pouco digna de se ver.  Assim, a indignação alicerça-se na posição ideológica de Saramago, no facto de ter escolhido Espanha para viver (sabe-se lá por que razão) ou simplesmente porque escrevia fora das convenções. Enfim, tudo serve para que a vox populi manifeste a sua indignação com o facto do Campo das Cebolas (em parte) passar a ter a designação "Largo José Saramago", duas décadas depois de ter sido galardoado com o prémio Nobel da Literatura. Em suma, muito barulho por nada, como diria o grande dramaturgo ingl…

Prioridades: tourada

PS, PSD, CDS-PP e PCP, num exercício raro na Assembleia da República, uniram-se para aprovar a descida do IVA nas touradas para os 6%, a mesma taxa aplicada a livros e ao cinema, mas com mais sofrimento, mais sangue e mais psicopatia. Esta estranha união, rara como se disse, não deixa de ser inquietante, sobretudo se analisarmos a relutância destes partidos em se porem de acordo no que diz respeito a temas incomensuravelmente mais relevantes, com a virtude desses mesmos temas serem também incomparavelmente menos bárbaros.  Enfim, é em torno do sofrimento de um animal para mero gáudio de alguns que assistimos à dita união de esforços entre marialvas, comunistas e gente simplesmente rendida ao lobby da tauromaquia. Em suma, a tourada, ou a barbárie se preferirem, é, aos olhos destes partidos, não só uma prioridade, mas também uma oportunidade falhada de se prestarem a uma figura um pouco mais civilizada. Sim, a ministra da Cultura está pejada de razão: esta é uma questão de c…

É preciso mais de um Governo de esquerda

A forma como o Governo tem lidado com a greve dos estivadores deixa muito a desejar, pese embora o recente comunicado do ministério do Mar pedindo as empresas que "iniciem de imediato o processo de eliminação da precariedade". Na verdade, o comunicado aparece demasiado tempo depois do início da greve, há três semanas.
Recorde-se que a precariedade fomentada pelas empresas sem rosto a operar em Setúbal perpetua-se durante décadas, o que torna a luta destes trabalhadores mais do que justa.
O Governo podia ter tido neste particular uma postura mais próxima da equidade que se lhe exige, sobretudo sendo este um Governo posicionado à esquerda do espectro político. Ao invés, o Executivo preferiu enviar trabalhadores para o porto de forma a que o carregamento de veículos da Auto-Europa fosse feito, facto que resultou numa escalada da tensão, dificultando, naturalmente, as negociações.
Agora chega o comunicado, talvez por força das exigências, também elas naturais, dos par…

Uma oposição que desapareceu

Em democracia tanto tem importância quem governa como quem faz oposição. É elementar. E em Portugal existe claramente um problema: a oposição desapareceu. Governo, apoiado pelos partidos à sua esquerda, vai fazendo o seu caminho sem grandes sobressaltos, apesar de nem sempre se posicionar à esquerda, em consonância com quem o apoia, como se viu com a gestão da greve dos estivadores. Ainda assim, vai fazendo o seu caminho. Os partidos mais à esquerda, vão garantindo esse suporte, apesar de alguns pecados cometidos pelo Executivo de Costa, o último dos quais a referida greve de trabalhadores precários no Porto de Setúbal, alguns arrastando consigo perto de 20 anos de precariedade - os grilhões do século XXI. Quanto aos partidos de direita - a oposição - assiste-se ao espectáculo deplorável apresentado pela líder do CDS, ora mostrando uma realidade inexistente, ora esquecendo convenientemente os anos de ministra no Governo de Passos Coelho. E o PSD vai fingindo saber o que faz, enquanto boa…

Mário Centeno: um ministro que joga em dois tabuleiros

Ou responder a dois chefes que amiúde têm visões completamente diferentes um do outro. É assim que Mário Centeno, e outros antes dele, procede na qualidade de ministro das Finanças do governos do seu país e na qualidade de presidente do Eurogrupo. Ora, no caso em apreço a tal jogada em dois tabuleiros mostra-se ainda mais difícil tendo em consideração a tendência de governação, teoricamente mais à esquerda, coisa que pouco ou nada agrada a instituições altamente burocráticas e sentimentalmente próximas do neoliberalismo vigente. Ora, Centeno é, deste modo, o verdadeiro mago deste Governo. E se Costa, primeiro-ministro, é mestre na venda de ilusões, o que dizer de Centeno? Talvez o à-vontade não seja exactamente o mesmo, mas os efeitos, ainda no domínio da ilusão, conseguem ir um pouco mais longe. Centeno, no sentido de agradar às instituições, cativa o que pode e o que não pode, como se vê no caso gritante da Saúde que depois de anos de desinvestimento, sofre um tratament…

Os dias dificeis de Macron

Milhares de pessoas, envergando o famigerado colete amarelo, saem às ruas, bloqueiam estradas e não dão sinais de cedência, ameaçando paralisar o país. Mais grave: os manifestantes aparentam não terem líderes e o sindicatos mantêm-se afastados do protesto, não há portanto representantes com quem negociar.
Tudo terá começado com a subida do preço da gasolina e do gasóleo para financiar a transição energética para formas de energia menos poluentes, embora segundo contas feitas pelo Le Monde, apenas uma ínfima parte do dinheiro que se espera arrecadar seja efectivamente para ser utilizado na tal transição.
Seja como for, Macron tem pela frente dias dificieis, com promessas de bloqueio da própria cidade de Paris e com a presença da extrema-direita nas manifestações.
Já por aqui se escreveu que o falhanço de Macron que amiúde governa como se ainda de um banqueiro se tratasse, abrirá as portas a movimentos políticos que podem ameaçar a democracia francesa, com especial destaque p…

Em Portugal ainda se discute tourada. A sério.

Pior, a discussão – pelo menos aquela que terá efeitos práticos – nem sequer toca na tourada propriamente dita, mas sim como deve a carga fiscal incidir sobre esse bárbaro espetáculo. A sério. Por aqui, em pleno século XXI, discute-se se a tourada é ou não cultura; se o acto de espetar farpas num animal (amiúde com as suas defesas enfraquecidas, designadamente com pontas cortadas e afins) é civilização ou nem por isso. A sério. Veio tudo isto a propósito de declarações da ministra da Cultura, de uma troca de cartas entre Manuel Alegre e António Costa e agora o próprio Partido Socialista, ou parte dele, que se movimenta em sentido diametralmente oposto ao do Governo, no preciso sentido de facilitar a promoção da sofrimento e do sangue de um animal para gáudio sádico dos humanos. A sério. Quem esfregue os olhos com o intuito de acordar deste espetáculo surreal rapidamente se apercebe de que não se trata de um sonho: Portugal é um país fundamentalmente atrasado nesse particular e mais atras…