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Mensagens

O papel dos cidadãos

As relações laborais mudam a uma velocidade vertiginosa, sobretudo com a “uberização” do trabalho, com empresas disfarçadas de empresas exclusivamente tecnológicas a operarem noutras áreas e a passarem todos os encargos legais para o trabalhador, visto como “micro-empresário” e não existindo o reconhecimento de vínculo laboral. A proliferação destas empresas que acarretam mudanças incomensuravelmente lesivas para os trabalhadores parece difícil de parar. Embora outras formas de precariedade, particularmente embutidas nas nossas sociedades, tenham vindo a conhecer algumas mudanças positivas. Por um lado, toda o caminho legislativo com o objectivo de travar essa proliferação esbarra num contexto económico desfavorável, de capitalismo selvagem, que se dá perfeitamente com empresas desta natureza e que beneficia do enfraquecimento das relações laborais que se verifica há pelo três décadas. Por conseguinte esperar que seja pela via legislativa é optimismo, o que não invalida, porém, o reforç…

Os avisos do Presidente

No habitual discurso de celebração do 25 de Abril, Marcelo Rebelo de Sousa chamou à atenção para os perigos do providencialismo e do messianismo, designadamente para a democracia.  É bem verdade que a Europa e o mundo estão a ser alvo do ataque de homens e mulheres que se apresentam como salvadores de países em decadência que é o resultado - afirmam esses Messias em potência - do estrangeiro (imigrante, refugiado, pouco interessa). Nesse sentido, as críticas do Presidente da República fazem todo o sentido, assim como é assertivo sublinhar o facto dos vazios e dos falhanços degenerarem amiúde no surgimento desses ditos Messias. Todavia, no contexto português não se vislumbra esse perigo, embora seja cauteloso não ignorar a possibilidade de um dia esse perigo se tornar real. Com efeito, muitos não compreenderam a quem se dirigiram as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa, a começar pelo próprio primeiro-ministro. Marcelo é populista e talvez por essa razão conheça bem de perto as derivas mes…

Um sonho

A aproximação de António Costa a Rui Rio tem vindo a provocar excitação naqueles que sonham acordados com uma reedição do bloco central, com Francisco Assis à cabeça. As singelas imagens de Costa a sorrir ao lado do sempre sorridente Rio traz de novo esperança nessa reedição. Com efeito, existem razões para alimentar esse sonho, não apenas pelas singelas imagens, mas sobretudo pelos pactos firmados entre o Governo e o maior partido da oposição. A confiança de Rui Rio é tal que fala abertamente de um acordo para a lei de bases da Saúde. Fica o desconforto visível nos partidos que apoiam esta solução de governo e o reacender da esperança de Francisco Assis e afins. No entanto, e fazendo fé na sensatez de António Costa, a reedição de um bloco central pode muito bem não passar de um sonho. De resto, a actual solução política, apesar das dificuldades inerentes a um mundo de diferenças entre os partidos, não só tem funcionado, como chega mesmo a fazer escola para desgosto daqueles que utiliza…

PS, BE, PCP e Verdes: o difícil equilíbrio

Mariana Mortágua, em entrevista ao DN, tece considerações sobre aquilo que foi designado, com intenções pejorativas, por geringonça. O futuro à esquerda não se avizinha risonho e parece ter ficado o aviso. Agora ficam também os avisos dos partidos à esquerda do PS sobre uma hipotética Lei de Bases para a Saúde – um hipotético entendimento entre PS e PSD, também neste particular. António Costa estica alegremente a corda e está mais do que visto que a mesma corre o sério risco de partir. E Rui Rio goza o prato de ver a esquerda titubear com o pais a falar nele e com a oposição interna mais refreada. Rio acaba por ser o grande vencedor, com um sorriso nos lábios, deixa a possibilidade de um novo entendimento sobre segurança social. Costa sairá mais derrotado do que parece pensar: esta aproximação ao PS põe em causa o entendimento à esquerda, mas põe sobretudo em causa o resultado nas próximas legislativas. Costa talvez considere que a ideia de um bloco central é apelativa. Tenho dúvidas …

Incêndios e a reportagem da TVI

A TVI, num exemplo perfeito do que deve ser o jornalismo de investigação, mostrou ao país os responsáveis pelo incomensurável incêndio que devorou o Pinhal de Leiria e como esse incêndio foi premeditado. A reportagem da TVI mostra uma multiplicidade de madeireiros reunidos numa cave de um restaurante a congeminarem o incêndio que devastou o Pinhal de Leiria, num registo próprio de uma qualquer máfia. Por um lado, o Ministério Público parece mais interessado em despejar na comunicação social vídeos dos interrogatórios de José Sócrates do que em investigar e levar à justiça os verdadeiros responsáveis pelos incêndios que assolaram o país no ano de 2017. Por outro lado, não se encontra justificação para que esta reportagem tenha feito tão pouco eco nos restantes órgãos de comunicação social. Fica a ideia de que é mais agradável apontar o Governo como grande responsável pelos incêndios do que trazer à luz do dia os verdadeiros criminosos. Vale mais explorar a tese que postula a ideia de q…

Quanto mais se foge...

Marcelo Rebelo de Sousa, em visita oficial a Espanha, procurou fugir da polémica em torno da questão catalã, chegando a referir que não se deve falar "do que se passa em casa do irmão". O Presidente julgava ser possível fugir de uma das questões mais prementes na Europa. Saiu-lhe o tiro pela culatra: nas Cortes Generales, os deputados independentistas cantaram "Grândola", deixando Marcelo sem reacção. O Presidente português falou, os parlamentares ouviram e no fim do discurso cantaram "Grândola, Vila Morena". Marcelo ouviu. Este episódio é paradigmático da impossibilidade de se fugir a determinados assuntos. Com efeito, a causa independentista pode ter sofrido duros golpes, mas nem por isso se extinguiu. Muito pelo contrário. O Presidente da República agiu em conformidade com a acção das instituições europeias: assobiam para o lado, procuram fugir à questão ou agem como se a questão nem sequer existisse. O tiro sai sempre pela culatra, como Marcelo, o homem …

Estar bem com Deus e com o Diabo

António Costa tem jogado bem as suas cartas, mais à esquerda, bem entendido. Nova carta se apresentou depois do congresso do PSD e depois da saída de Passos Coelho. Essa nova carta é, claro está, Rui Rio - uma carta sorridente e aparentemente aprazível, mais do que o seu antecessor Passos Coelho. Costa que até agora tem sido um brilhante estratega parece estar a perder qualidades, designadamente quando considera ser possível estar bem com Deus e com o Diabo, pegando nas palavras de Jerónimo de Sousa. Deste modo, o primeiro-ministro deixa Mário Centeno mostrar toda a sua inflexibilidade em relação ao défice - talvez para fazer boa figura no Eurogrupo - e senta-se com a tal carta sorridente - Rui Rio - para a aprovação de medidas. Os partidos à esquerda do PS vão suportando estoicamente os devaneios do PS. Mas até quando? Costa engana-se quando pensa que pode estar bem com Deus e com o Diabo; Costa engana-se redondamente se está a fazer fé num resultado brilhante nas próximas legislativas, …