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Mensagens

PSD: casa onde não há pão

Casa onde não há pão - leia-se poder - todos ralham e ninguém tem razão. Cinjo-me estritamente ao domínio da política partidária e refiro-me, naturalmente, ao PSD.
A falta de pão e a subsequente fome é a causadora de todas as zangas. Rui Rio nunca prometeu abastança, mas talvez poucos acreditassem que o partido ficasse arredado do poder e sem perspectivas de vir a recuperá-lo. Muitos ainda acalentam a esperança num regresso de Pedro Passos Coelho, até porque, esse sim, matou a fome a muita gente no partido, enquanto, paradoxalmente, criava as condições para que a fome regressasse um pouco por todo o país.
Com efeito, a falta de poder e sobretudo a angústia de saber que esse poder está longe do partido, põe toda aquela gente à beira de um ataque de nervos. Senão vejamos os acontecimentos dos últimos dias: "Assessor do PSD insulta Presidente e Teresa Leal Coelho repreende-o", prometendo medidas draconianas para regular a utilizar das redes sociais. Neste caso, o as…

Eles que andaram tão ocupados

Eles, os líderes europeus, passaram anos ocupados com processos de humilhação de Estados-membros acusados de não cumprirem as regras draconianas impostas por países como a Alemanha. Eles, líderes alemães, franceses, holandeses e quejandos passaram anos a apontar o dedo a alguns Estados-membros, salvando bancos e deixando os cidadãos em perfeita agonia, ignorando olimpicamente as causas da crise que deixara de ser do sistema financeiro para passar a ser dos dívidas soberanas. Alheio ao facto acima descrito, Macron insiste nas mesmas receitas neoliberais que estiveram subjacentes às humilhações que deixaram alguns políticos tão entretidos. Alheio às necessidades do povo que governa, Macron pavoneia-se como se não havendo pão, restassem os famigerados brioches. Agora, perante as maiores revoltas desde o Maio de 68 Macron mete o rabinho entre as pernas e recua nas medidas que deram origem aos protestos. No entanto, e como é evidente, quem se manifestou tem outras reivindicações…

Onde queremos a Europa?

A questão já não se prende tanto com que Europa queremos, mas passou a ser sobretudo onde queremos a Europa.
Num contexto caracterizado pelo enfraquecimento dos EUA, com evidente perda de hegemonia, e agora nas mãos de um tiranete, marcado também por uma Rússia à procura de recuperar tempo e espaço perdidos e ainda com a China que alcançou a hegemonia económica e que consegue conquistar o mundo se disparar um único tiro, onde fica a Europa? Onde se posiciona o velho continente? E, designadamente, onde fica a União Europeia?
Depois de ter feito tanto para minar o projecto europeu e o anódino sentimento de pertença dos cidadãos à Europa (das humilhações), a Alemanha aparece agora como uma potência europeia politicamente enfraquecida, com e sem Angela Merkel, sob a ameaça constante de um ressurgimento da extrema-direita. O Reino Unido passou a ser carta inexoravelmente fora do baralho europeu, e a França, com uma economia demasiado dependente da UE, embora finja o contrário, c…

França: entre o purgatório e o inferno

Os franceses encontram-se presos entre o purgatório e o inferno, ou seja entre Macron e as suas políticas neoliberais, mesmo que pintadas com a cor verde, e a extrema-direita que deixou de espreitar pela esquina para se mostrar orgulhosamente disposta a tomar conta do país. Ora, as manifestações levadas a cabo pelos “coletes amarelos”, primeiro devido ao preço dos combustíveis, depois por causa de outras razões – na sua maioria resultantes do já referido neoliberalismo – põem a nu as escolhas com que os franceses se deparam. Este dilema, a que o desaparecimento da esquerda em França não é alheio, poderá servir os interesses de Macron que sabe que dificilmente os franceses querem, de facto, ser governados pela extrema-direita xenófoba e sem qualquer espécie de soluções para os problemas económicos, mas entalada num estranho e anódino misto entre neoliberalismo e proteccionismo – numa espécie do pior dos dois mundos. De resto, num cenário de segunda volta para as eleições presidenciais, …

Largo José Saramago

Diz-se que a voz do povo é a voz de Deus, mas quem anda pelas caixas de comentários dos jornais online ou pelas famigeradas redes sociais, rapidamente se apercebe que não podia existir maior engano. Deus, a existir, não daria voz a tanta idiotia.22 Vem isto a propósito da mudança de nome de parte do Campo das Cebolas para "Largo José Saramago". O facto causou forte indignação, com provas de que a memória conspurcada pelos nossos preconceitos é uma receita pouco digna de se ver.  Assim, a indignação alicerça-se na posição ideológica de Saramago, no facto de ter escolhido Espanha para viver (sabe-se lá por que razão) ou simplesmente porque escrevia fora das convenções. Enfim, tudo serve para que a vox populi manifeste a sua indignação com o facto do Campo das Cebolas (em parte) passar a ter a designação "Largo José Saramago", duas décadas depois de ter sido galardoado com o prémio Nobel da Literatura. Em suma, muito barulho por nada, como diria o grande dramaturgo ingl…

Prioridades: tourada

PS, PSD, CDS-PP e PCP, num exercício raro na Assembleia da República, uniram-se para aprovar a descida do IVA nas touradas para os 6%, a mesma taxa aplicada a livros e ao cinema, mas com mais sofrimento, mais sangue e mais psicopatia. Esta estranha união, rara como se disse, não deixa de ser inquietante, sobretudo se analisarmos a relutância destes partidos em se porem de acordo no que diz respeito a temas incomensuravelmente mais relevantes, com a virtude desses mesmos temas serem também incomparavelmente menos bárbaros.  Enfim, é em torno do sofrimento de um animal para mero gáudio de alguns que assistimos à dita união de esforços entre marialvas, comunistas e gente simplesmente rendida ao lobby da tauromaquia. Em suma, a tourada, ou a barbárie se preferirem, é, aos olhos destes partidos, não só uma prioridade, mas também uma oportunidade falhada de se prestarem a uma figura um pouco mais civilizada. Sim, a ministra da Cultura está pejada de razão: esta é uma questão de c…

É preciso mais de um Governo de esquerda

A forma como o Governo tem lidado com a greve dos estivadores deixa muito a desejar, pese embora o recente comunicado do ministério do Mar pedindo as empresas que "iniciem de imediato o processo de eliminação da precariedade". Na verdade, o comunicado aparece demasiado tempo depois do início da greve, há três semanas.
Recorde-se que a precariedade fomentada pelas empresas sem rosto a operar em Setúbal perpetua-se durante décadas, o que torna a luta destes trabalhadores mais do que justa.
O Governo podia ter tido neste particular uma postura mais próxima da equidade que se lhe exige, sobretudo sendo este um Governo posicionado à esquerda do espectro político. Ao invés, o Executivo preferiu enviar trabalhadores para o porto de forma a que o carregamento de veículos da Auto-Europa fosse feito, facto que resultou numa escalada da tensão, dificultando, naturalmente, as negociações.
Agora chega o comunicado, talvez por força das exigências, também elas naturais, dos par…