quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Os tempos do homem-massa

No anos trinta do século passado Ortega y Gasset alertou para os perigos da sociedade de massas e para o homem-massa e começou por chamar a atenção para o paradoxo do homem-massa rejeitar a oportunidade única de viver plenamente em tempos livres da tirania, marcados pelas promessas da tecnologia e pela democratização da política, com realidades até então pouco consolidadas como a liberdade.
O filósofo espanhol caracteriza o homem-massa da altura como sendo alguém que rejeita os valores intelectuais e espirituais, recusa a verdade, abraçando o egocentrismo e o materialismo; o homem-massa rejeita a opinião do outro e tem aversão a qualquer coisa remotamente semelhante ao espírito crítico; conforma-se; o homem-massa não tem particular predilecção pelo belo ou até pela cultura; rejeita a diferença e ele próprio não aceita ser diferente das massas; subjuga-se, no tempo de Ortega y Gasset à comunicação social, hoje também e sobretudo às redes sociais; o homem-massa não pensa nem tem referências e deixa-se ir com as massas e quando são estas a governar, quando se transforma a democracia numa democracia de massas, segundo o filósofo, a própria democracia deixa de existir.
Talvez os tempos tenham sido, desde o tempo de Gasset, os tempos do homem-massa. No entanto, depois de uma crise económica da qual nunca ninguém verdadeiramente se recompôs, num contexto de admirável mundo novo das tecnologias e das promessas que as mesmas fazem e com o declínio dos partidos tradicionais, vistos como incapazes de resolverem os problemas das pessoas, o homem-massa pode novamente brilhar sem complexos e sem vergonha, mesmo que seja o maior imbecil à face da terra - os tempos são dele e como são promissores.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

O que mais assusta

O que mais assusta não é o novo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, desde logo porque o mundo está pejado de imbecis de má índole. O que mais assusta é a quantidade de cidadãos dispostos a deitar para o lixo a democracia e os direitos humanos em nome de segurança, estabilidade, moralidade, regresso ao passado (qual passado? Não interessa), ou coisa semelhante. Banha da cobra comprada por demasiada gente.
O que mais assusta é a quantidade incomensurável de pessoas dispostas a deitar para o lixo a democracia como forma de protestar contra o PT e contra Lula, indiferentes à intoxicação primeiro levada a cabo pela comunicação social, depois desencadeada por forças sinistras e poderosas que instrumentalizaram as redes sociais
O que mais assusta é a quantidade surpreendente de eleitores capazes de deitarem para o ralo a democracia e a defesa do ser humano em troca de falsas promessas, levemente abençoadas por um Deus que, a assistir a tanta triste figura, não quereria ter nada a ver com Bolsonaro.
O que mais assusta é a quantidade de gente capaz de desprezar as mulheres, os homens que não se renderam à misoginia, os indígenas, os negros, os homossexuais.  O que mais assusta são as mulheres, os homens que não se renderam à misoginia, os indígenas, os negros, os homossexuais e os seres humanos em toda a sua diversidade que se renderam ao misto de ditador e charlatão de seu nome Jair Bolsonaro, um mentiroso que agora promete respeitar a constituição e lutar pela liberdade. E isso é o que mais assusta.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Eleições no Brasil: um especial agradecimento à comunicação social

Refém dos grandes interesses económicos se que estão nas tintas para o regime político, desde que seja lucrativo, a comunicação social brasileira foi peça essencial para o desfecho das eleições do passado domingo.
Apostada em eliminar o PT e indiferente ao perigoso vazio que estava a criar, assistiu já mais enfraquecida ao ressurgimento de um déspota boçal que ganhava terreno a cada dia que passava. O déspota não precisou de muita inteligência, apenas deixou que o vazio criado por essa comunicação social acabasse ocupado pelas redes sociais entretanto tomadas pela peste das notícias falsas, pelo sectarismo e pelo.
O que não quer dizer que o PT não errou e de forma clamorosa; o que não quer dizer que o PT não sucumbiu à corrupção endémica; o que não quer dizer, sobretudo, que o PT se encontre sozinho a calcorrear caminhos onde impera a total ausência de ética.
O PT, contrariamente ao que foi propalado pela comunicação social, está bem acompanhado no que diz respeito à corrupção que não nunca foi exclusiva do PT.
No entanto, não é possível retirar da equação o peso de desiludir todos aqueles que acreditaram que o partido combateria os fortes poderes instalados e a pobreza que arrasta o povo para o abismo. E isso terá sido imperdoável.
De qualquer modo, o que sai destas eleições não é o pior de dois mundos, é o pior de todos os mundos. O ditador que descaradamente promete violar os Direitos Humanos é a nova realidade brasileira.
A comunicação social não só cavou a sua própria sepultura, mas fez o favor de cavar um buraco suficientemente grande para cabermos lá todos.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Quando se semeia ódio

O sectarismo e a bipolarização envoltas num ódio deliberadamente espalhados por responsáveis políticos não pode ter quaisquer outras consequências que não as mais nefastas.
As bombas enviadas por correio para figuras próximas do Partido Democrata, incluindo Barack Obama e Hillary Clinton dificilmente escaparão a uma análise assente exactamente nessa premissa de que o sectarismo e o ódios espalhados por responsáveis políticos redundam na pior das acções.
Donald Trump chegou à presidência americana promovendo esse sectarismo. Curiosamente Trump acusou a CNN de divulgar notícias falsas, chegando ao ponto de colocar um vídeo online onde socava alguém cujo rosto era o símbolo da CNN. Curiosamente o inefável Presidente americano fez campanha afirmando que Obama não era americano e que Clinton era uma criminosa que devia estar presa.
Trump, quebrando décadas de convivência saudável entre candidato à presidência e depois Presidente e o partido da oposição, exultou. à semelhança de qualquer fascista, os ânimos, espalhando mentiras e ódio. Agora, depois do envio de bombas para membros do partido Democrata, lê um comunicado sem metade da energia que manifestou ter em campanha precisamente quando apontava armas à CNN, a Obama ou à adversária política, Hillary Clinton.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

As quintas-feiras de Cavaco Silva

As quintas-feiras e restantes dias dos anos de presidência de Cavaco Silva foram marcadas, como se percebe até pelos livros de sua autoria, pela mais inexorável inexistência de autocrítica. Todos erraram, uns aparentemente de forma mais artística do que outros, excepto, obviamente, ele próprio.
Paralelamente a essa ausência de espírito de auto-crítica, Cavaco presta-se à triste figura de revelar conversas com terceiros, tidas como conversas de Estado e, por inerência, privadas. Ao invés, o ex-Presidente preferiu revelá-las sem qualquer espécie de pudor, acrescentando as suas considerações sobre as conversas e sobre os interlocutores.
O segundo volume das "Quintas-feiras e Outros Dias" de Cavaco Silva mais não são do que mais um exercício próprio de um ressabiado que não quer ou não está preparado para ser esquecido; um exercício próprio de quem se tornou absolutamente irrelevante, apenas reconhecido pelo seu espírito tomado pela ignomínia.
Na verdade, as quintas-feiras de Cavaco, as actuais, obrigam o antigo Presidente, até pelo vazio incomensurável que arrastam consigo, a lembrar e a revelar ao mundo as outras quintas-feiras (e restantes dias) em que sentia o peso do poder, da influência e da relevância, em que se sentia determinante, até ao dia do nascimento de uma geringonça que o contrariou e arrancou de si próprio a concretização de uma solução governativa. Nesse dia e nos seguintes, Cavaco Silva percebeu que afinal as circunstâncias sorriem, jocosamente, nas fuças do poder.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Sectarismo

O sectarismo está a tomar conta da política em vários países, alguns dos quais constituem uma verdadeira surpresa, como o caso dos EUA. E é graças também a esse sectarismo que Donald Trump chegou à presidência.
O sectarismo traduz-se no espírito de intolerância com partidos divididos por "raças", religião e situação sócio-económica. Paralelamente cresce a ideia, junto daqueles mais próximos do partido Republicano, que os brancos, cristãos, estão a perder força no tabuleiro político, forçando-os a uma reacção de apoio àqueles que propõe medidas, por muito obtusas que sejam, para mitigar ou reverter o actual estado de coisas. Um pouco na senda da famigerada frase "make America great again". Em contrapartida, o partido democrata é visto como agregador de minorias, cada vez menos minoritárias.
De resto, a presidência de Obama veio agravar esse sentimento de perda de importância e transferência de poder para as chamadas "minorias" não brancas e não cristãs. Afinal de contas, alguém pertencente a esse contexto chegou mesmo à presidência dos EUA.
Terá sido precisamente durante a presidência de Obama que o espírito de tolerância, que sempre ou quase sempre marcou as relações entre os dois partidos e até entre Presidente e Congresso, mais se degradou, sobretudo com o partido republicano, arrastado por meios de comunicação social verdadeiramente extremistas, a bloquear o Presidente Obama. A pouca tolerância que restava esgotou-se.
Donald Trump aproveitou a oportunidade, mentindo descaradamente e espalhando boatos referentes às origens não americanas de Obama e ao suposto passado criminoso de Hillary Clinton. Trump agregou os que se sentiram ameaçados, sobretudo com as questões raciais subjacentes, durante os anos Obama, ao passo que Clinton não foi capaz de galvanizar o eleitorado do partido democrata.
Neste contexto, a que acresce o desinteresse de muitos que olham para a democracia como um dado adquirido, Trump chegou à Presidência dos EUA.
O sectarismo não é, contudo, um exclusivo americano, como também se vê no Brasil, embora com menor preponderância dos partidos, designadamente do partido de Bolsonaro. O resultado, ao que tudo indica, será semelhante e provavelmente até pior. Um ditador, boçal e ordinário, que apresenta um projecto de enfraquecimento e até liquidação da democracia e que vê esse projecto aprovado ironicamente através do voto.

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segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Um aliado de peso: as notícias falsas

Jair Messias Bolsonaro, bem colocado para vencer as eleições brasileiras, contou com um aliado de peso: as notícias falsas veiculadas pelas redes sociais, onde a vitimização e as teorias da conspiração fazem escola.
Mais: segundo uma investigação do jornal Folha de São Paulo, várias empresas privadas, naturalmente apoiantes de Bolsonaro, pagaram a empresas de marketing para despejarem centenas de milhões de mensagens com propaganda anti-PT. O Whatsapp terá sido o veículo escolhido. Recorde-se que as empresas privadas não podem, à luz da lei brasileira, financiar candidatos políticos.
Outro dado importante diz-nos que são os apoiantes de Bolsonaro são os que mais se informam via Whatsapp e 91 por cento dos brasileiros, em 2016 – ano do impeachment de Dilma – declarava informar-se pela internet, com 72 por cento a escolherem o Whatsapp ou o Facebook. E ainda recentemente um conjunto de investigadores brasileiros juntamente com uma agência de verificação de factos, chegou à conclusão de que em 347 grupos no Whatsapp apenas 8 por cento das imagens (com muita informação a passar através de fotografias e vídeos) podem ser consideradas verdadeiras. (notícia Sol).
Fernando Haddad já fez o pedido de impugnação da candidatura de Jair Messias Bolsonaro.
Em rigor, o enfraquecimento da comunicação social não pode ser dissociado do aumento exponencial de notícias falsas. Um meio de comunicação social até podia ter uma inclinação política, mais ou menos evidente, mais ou menos declarada, mas não veiculava notícias falsas, nem procurava polarizar o debate político ao ponto do ódio ser de morte. Em rigor, essa comunicação social que hoje está claramente enfraquecida mostrava-se determinante para as próprias democracias.
Neste contexto, assistimos, hoje mais do que nunca, até mais do que nas eleições americanas, a uma mudança de paradigma: são as redes sociais, conspurcadas pelas notícias falsas e dominadas por empresas de “marketing”, a determinar o resultado de eleições. E tanto mais é assim que Bolsonaro, a prova de que a idiotia pode mesmo ser premiada, nem se deu ao trabalho de participar em debates políticos que seriam perfeitamente reveladores de toda essa idiotia e boçalidade.
Paralelamente, a tecnologia, designadamente os seus rápidos avanços, foram determinantes para criar uma ilusão: com mais informação ao dispor dos cidadãos, as escolhas seriam mais fundamentadas e mais assertivas. Com mais tecnologia voltaríamos a viver uma época de luzes e não de trevas. Com mais tecnologia maior seria a consciência. Nada mais errado.
O enfraquecimento da comunicação social (amiúde por culpa própria) abriu espaço para as ditas redes sociais que, como Umberto Eco dizia, promoveram o “idiota da aldeia” do tempo da televisão ao “portador da verdade” no tempo da internet.
O resultado está à vista: eleições decididas em verdadeiras latrinas de desinformação, onde grassam discursos simplistas que exultam as massas apelando a um ódio que se alimenta precisamente da ignorância, da frustração, da confusão instalada naqueles que já não compreendem o mundo onde vivem, da ausência da esperança de tantos que se tornaram vítimas do capitalismo selvagem, dos níveis cada vez mais baixos de auto-estima tantas vezes disfarçada pelo recurso a uma multiplicidade de fármacos.
Assim, quando toda essa gente encontra alguém que mostre ser diferente, alimenta a esperança de que esse alguém lance finalmente luz sobre a confusão deste mundo, caindo rapidamente na ilusão de que terão encontrado o Messias.