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Mensagens

E o senhor, ainda se ri?

Corria o ano de 2015 e, em plena Assembleia da República, Passos Coelho não conseguiu disfarçar os risos e sorrisos trocistas, chegando a limpar as lágrimas de tanto rir. A razão? Tratava-se da estreia de Mário Centeno no Parlamento. E porquê recuperar os risos trocistas de Passos Coelho? Porque é pertinente questionar se o ex-primeiro-ministro-eternamente-inconformado-a-sua-actual-situação ainda se sente tão divertido como se sentia em 2015. Não tenhamos dúvidas, vale mesmo a pena recordar a efeméride, sobretudo agora que Centeno é um dos mais fortes candidatos a presidir ao Eurogrupo, depois de reconhecidamente ter feito um excelente trabalho nas Finanças, sem recorrer a adulações baratas do passado, bem ao estilo de Maria Luís Albuquerque e, claro, Passos Coelho.  Mas voltemos a 2015. Mário Centeno alertava para a situação da banca portuguesa - facto que terá provocado a boa disposição de Passos Coelho, Marco António Costa e Luís Montenegro. Desconhece-se se, depois de terem sido con…

A boa herança

Depois da Comissão Europeia ter recomendado a saída de Portugal do Procedimento por Défice Excessivo, Luís Montenegro, no Parlamento, apontou o dedo ao agora primeiro-ministro e acusou o seu Governo de viver "à custa da herança deixada pelo anterior Executivo". Assunção Cristas, líder do CDS, e mulher que sabe o quão difícil é trabalhar de saia travada, ainda chamou a si a responsabilidade por uma descida do défice de mais de 11% para pouco menos de 3%.  O que Montenegro não diz é que durante a vidência do governo PSD/CDS o objectivo sempre foi muito mais abrangente do que a redução do défice. O que sobretudo o PSD fez foi provocar a entrada da Troika com o chumbo do famigerado PEC IV e o aproveitamento dessa entrada para aplicar as políticas que fazem parte do seu ideário: com o aprofundamento da desregulação do mercado laboral, com os cortes nas remunerações, com um aumento da carga fiscal para a esmagadora maioria dos portugueses, existindo naturalmente excepções, com o en…

Um Presidente sem credibilidade

A credibilidade é um bem inestimável para um político, embora esta verdade já tivesse mais força no passado do que tem nos dias de hoje. Ainda assim, um político que não seja credível terá poucas possibilidades de vingar. E um Presidente? Em rigor, Trump apresentou-se como sendo um homem fora do sistema - uma espécie de não-político, seja lá isso o que for.  Nessa precisa medida poder-se-á inferir que não sendo um político, não necessita de ser credível, bastando-lhe parecer bem sucedido, o que, por si só, já confere alguma credibilidade. Confuso? Qualquer exercício que pretenda explicar a eleição de Trump, por muito bem fundamentado, acabará sempre por gerar perplexidade e até confusão. Seja como for, vêm estas linhas a propósito da visita de Trump à Arábia Saudita e a Israel. Trump afirmou estar empenhado em relançar o processo de paz no Médio Oriente. Ora, a frase poderá provocar ataques de riso, desde logo porque Trump que, enquanto candidato, já não era propriamente credível, agor…

Business as usual 

Na sua primeira deslocação oficial ao estrangeiro Donald Trump escolheu a Arábia Saudita como destino e, para além de umas palavras sobre o terrorismo, proferidas num dos berços ideológicos do fundamentalismo, Trump fez negócios. Perto de 100 milhões de euros na venda armamento - a maior venda da história americana. E com isso o Presidente americano que tem sido alvo de críticas no seu país, sai da Arábia Saudita com um sorriso nos lábios. Sobre o constante desrespeito pelos direitos humanos nem uma palavra, afinal de contas tratou-se de "business as usual". Não haverá na história recente dos EUA um Presidente que tenha mostrado tanta falta de preparação para conduzir os destinos do país como Donald Trump, um homem que verdadeiramente não escondeu que olhava para a presidência como olha para os negócios. E assim entrará para a história por mais uma razão no mínimo discutível: a venda em larga escala de armamento a um país do Médio Oriente. A viagem à Arábia Saudita, permitiu-l…

Temer

O Presidente brasileiro que subiu ao poder depois da destituição de Dilma Rousseff é agora apanhado numa gravação de 40 minutos a autorizar um empresário a comprar o silêncio de um dos muitos envolvidos na investigação "Lava Jato". O famigerado Eduardo Cunha tinha de ser um dos envolvidos nesta sórdida história. Apesar das evidências, Temer recusa a saída da Presidência. Em alternativa oferece uma explicação para o sucedido: trata-se afinal de uma conspiração. De facto, uma das marcas da política hoje é a mais inexorável ausência de pudor. Simplesmente não há vergonha e mesmo perante as evidências, insiste-se na mentira. Naturalmente esta falta de vergonha não é um exclusivo de Temer ou sequer da política no Brasil. Passa-se um pouco por todo o mundo, variando apenas em dimensão. Assim, Temer alega, conseguindo a proeza de manter uma pose séria, que nunca pediu a ninguém que pagasse o silêncio de Eduardo Cunha que, recorde-se, foi, a par de Temer, um dos grandes impulsionadore…

Quando o sol deixa definitivamente de brilhar

O sol deixou de brilhar lá para os lados da Rua de S. Caetano. O líder do PSD parece-nos hoje ainda mais cinzento e apagado do que no tempo em que desempenhava as funções de primeiro-ministro. As boas notícias do país são o princípio do fim de uma liderança que fez da austeridade o seu leitmotiv. Troika, culpabilização e austeridade foram a santíssima trindade, tudo muito bem regado com doses incomensuráveis de intransigência e mediocridade. O resultado está à vista: uma liderança que só existe por falta de interessados. Agora é o forte crescimento da economia portuguesa no primeiro trimestre a tirar novamente o tapete a Passos Coelho. Ainda assim os seus apaniguados reclamam créditos, ignorando, convenientemente, que o aumento da confiança que passa pela devolução de rendimentos e que a mudança para um discurso positivo são centrais à fundamentação dos bons resultados. Paralelamente, o crescimento do emprego e, importa não esquecer, o fim do processo de culpabilização e da incerteza d…

Macron e a esperança da Europa

Esta UE prostrada precisa de um foco de esperança que pode vir, acreditam alguns, da jovialidade de Emmanuel Macron - europeísta convicto e adorado pela comunicação social. Os que acreditam que Macron pode de facto trazer algum vigor a uma Europa definhada crêem também que o agora Presidente francês recuperará o eixo franco-alemão, fortalecendo naturalmente as relações com Angela Merkel. Uma visão que não agradará a muitos franceses, mas que poderá vir a ser uma realidade. E más notícias para o Sul da Europa.  É indubitável que a Europa precisa de novo vigor, mas esse vigor não virá de Macron. Às anódinas lideranças europeias apresentam-se desafios para os quais não estão preparadas: Brexit, Trump, Erdogan, Putin e por aí fora.  Macron, por sua vez, não traz nada de novo relativamente a essas lideranças: perfilha a mesma paixão pelo liberalismo anglo-saxónico e insistirá nas mesmas receitas que levaram a UE a um beco sem saída com respiração artificial fornecida por medidas extraordinár…