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Mensagens

E depois do amor?

Marcelo Rebelo de Sousa tem brindado o país com afectos e com uma presença mais do que constante na comunicação social. Pelo caminho não esquece a importância dos afectos. Mas não é difícil se questionar sobre o que se seguirá a esta onda de afectos e consensos. Em rigor, será tarefa árdua não abrandar o ritmo da afectuosidade, até para a mais carinhosa das pessoas. E depois do amor? Um novo amor, mais à direita? Com efeito e depois de tudo isto, o que se segue? Um Marcelo menos emotivo e mais racional? Será esse o Marcelo que surgirá de uma eventual alteração na liderança do PSD? E se essa mudança de facto ocorrer? Continuaremos a ter um Marcelo tão carinhoso, ou será que o seu desejo de um bloco central não falará mais alto?  Por falar em consensos, parece consensual que tudo correrá bem enquanto Passos Coelho continuar a definhar na liderança do partido, apagado no Parlamento, agarrado ao telemóvel como um miúdo malcriado. Contudo o caso pode mudar de figura, inclusivamente a enxurra…

Um discurso para esquecer

Só escrevo hoje sobre o discurso de Paula Teixeira da Cruz porque há coisas que de tão obtusas levam tempo a digerir. Paula Teixeira da Cruz sentiu-se embriagada pelo espírito de Abril e de cravo na lapela acusou a esquerda de "atitudes persecutórias" e de "revanche pessoal", aproveitando para acusar ainda a esquerda de ter rasgos de "salazarismo bafiento". Nada mais apropriado. E como se isto não bastasse a ex-ministra da Justiça associou a esquerda aos "deslumbrados com o poder", quando queria dizer os novos "deslumbrados com o poder", na melhor das hipóteses, e culminou o discurso com promessas de um PSD empenhado em fazer oposição "forte mas responsável". É possível que Paula Teixeira da Cruz tenha tido um dia menos feliz, talvez tenha dormido pouco, ou talvez tenha deixado queimar as torradas para logo descobrir que se tinha esquecido de comprar pasta de dentes. Acontece a todos e não é razão para ser criticada. Fico com …

25 de Abril

Há muito tempo que não se via uma comemoração do 25 de Abril com protagonistas à altura. De resto, foi bom ver um 25 de Abril sem Cavaco Silva e sem Passos Coelho. Os protagonistas de agora, Presidente da República e primeiro-ministro mostraram estar à altura da comemoração. Assim como é bom ver o regresso daqueles directamente responsáveis pelo 25 de Abril de 1974, os capitães de Abril, regressarem à Assembleia da República. Este 25 de Abril de 2016 foi uma verdadeira lufada de ar fresco, em contraste com os últimos anos marcados por protagonistas cinzentos e pouco adeptos da data, como era o caso de Cavaco Silva e de Passos Coelho. É bom ver a mais alta figura da nação homenagear Salgueiro Maia que será condecorado no dia 1 de Julho – acontecimentos impossíveis de existir no tempo em que as duas figuras inefáveis acima referidas estavam à frente dos destinos do país.
O 25 de Abril já merecia protagonistas à altura e sobretudo as comemorações já mereciam livrar-se de Cavaco Silva e de Pa…

Sócrates

Por aqui muito se escreveu sobre José Sócrates. Havia matéria para preencher páginas e páginas. Aliás, o assunto aparentemente nunca se esgotava. Depois da sua prisão, escolhi abster-me de escrever sobre o ex-primeiro ministro, por razões que se prendem com a velha premissa de deixar à Justiça aquilo que é da Justiça. E quando por aqui tanto se escreveu sobre os anos de Sócrates, terá sido apenas do ponto de vista político Mas José Sócrates é incapaz de estar longe dos holofotes. Critica aqueles que não respeitam (amiúde com razão) a sua vida, mas sucumbe à possibilidade de mais uma entrevista. Vem isto a propósito da última entrevista do antigo primeiro-ministro à Antena 1. Nessa entrevista Sócrates revela que nunca teria sido primeiro-ministro sem ganhar eleições. E embora procure fazer a defesa da actual solução política, a crítica está lá, mais ou menos velada, conforme as interpretações. Ora, importa acrescentar que Sócrates nunca deveria ter concorrido em eleições legislativas. Ne…

Legitimidade e democracia

O que seria da democracia sem a legitimidade conferida pelo voto? Talvez possamos encontrar uma resposta no futuro próximo do Brasil. Tudo indica que Michel Temer, actual vice-Presidente, pertencente ao PMDB, será o substituto de Dilma. Isto apesar de Temer contar com uma elevada taxa de rejeição nas urnas e, segundo todas as sondagens, estar muito longe de estar a conseguir mudar a opinião dos brasileiros.
Dito isto, a solução parece-nos óbvia: eleições. Para tanto seria necessário que o Congresso aprovasse uma emenda constitucional que não está no horizonte, antecipando deste modo a tão necessária clarificação. Só devolvendo a palavra ao povo se pode dignificar o próprio sistema democrático brasileiro, de outra forma, recorrendo a expedientes, muitos deles próximos do surreal, apenas se subverte a essência do regime democrático. E já que estamos numa de desejos, será muito pedir que Michel Temer, Eduardo Cunha, o deputado adepto de Torquemada, restantes parlamentares e até Dilma Rou…

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa

Uma tragédia na Europa ou na América do Norte, envolvendo ocidentais, é uma coisa, outra, totalmente distinta, pelo menos para as nossas consciências, é a morte de não ocidentais, sobretudo oriundos de países africanos. Na passada segunda-feira foi notícia o desaparecimento de 400 migrantes oriundos da Somália e da Etiópia no Mediterrâneo. As questões que envolvem estas tragédias são invariavelmente colaterais: tratava-se de um conjunto de migrantes em busca de trabalho ou se se tratava de refugiados? É a pergunta que muitos colocam. Pouco importa, mas são estas as questões que invadem páginas de jornais, sites na internet e tempo de antena - o parco que é dispensado a uma tragédia desta natureza. De resto, todos sabemos que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa (perdoem-me a deselegância da expressão). Hoje, volvidos dois dias, já poucos se lembrarão da notícia; uma notícia que tem o triste condão de se repetir, perdendo também dessa forma o interesse.
Dir-se-á que as tragéd…

Destituição de Dilma: uma vergonha sem precedentes

O mundo assistiu incrédulo a um espectáculo circense com o objectivo de destituir a Presidente eleita Dilma Rousseff. Curiosamente Dilma Rousseff é das poucas pessoas envolvidas neste processo que não está a ser alvo de investigações por corrupção, contrariamente ao Presidente da Câmara, Eduardo Cunha, por exemplo. Alguns momentos altos do espectáculo circense: o deputado Jair Bolsonaro lembrou orgulhosamente um coronel, ex-chefe da DOI-CODI na ditadura militar, um dos homens que torturou Dilma Rousseff; o número elevado de parlamentares evangélicos que afirmam fazer tudo em nome de Deus; ou os inúmeros episódios de histerismo que não têm lugar numa democracia, tudo entre uma ou outra "selfie". Dilma é acusada de utilizar dinheiros públicos para financiar programas de Governo e é acusada de violar a lei da responsabilidade fiscal - nada que justifique a sua destituição, muito menos quando os mentores e apoiantes desse afastamento estão envolvidos em inúmeros casos de corrupção…