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Mensagens

O infortúnio dos outros

Alguns de nós dão-se bem com o infortúnio dos outros e ainda se dão melhor com exercícios de pretensa superioridade e frequente menosprezo por quem se bate pelos princípios mais elementares de justiça. Assim se passa com a questão grega. A fúria que se instalou em Portugal, e não só dirigida, ao governo grego e aos próprios gregos é desproporcionada e amiúde irracional, quando eles apenas tiveram a coragem de fazer aquilo que nós somos incapazes de fazer.  Aconteça o que acontecer, o povo Grego ofereceu-nos lições que não se coadunam com a cegueira das lideranças europeias e com a exiguidade de pensamento de alguns cidadãos. Pouco interessa conhecer a origem da dívida grega e os negócios subjacentes; não interessa discutir o domínio da banca que contrasta com a miséria do povo; pouco relevância terá discutir a forma como a Grécia foi coadjuvada no processo da criação da dívida pela finança e por Estados-membros interessados em fazer negócios ruinosos; esqueçamos que o dinheiro oriundo do…

OXI

O medo e a chantagem até podem vencer o referendo de domingo na Grécia, mas este país fez mais pela democracia do que todos os restantes Estados-membros juntos. E será este mesmo país a preencher as páginas da História que não tem o hábito de perder tempo com exercícios de pusilanimidade. Não falo grego e até ontem desconhecia o significado da palavra “oxi” (nao), porém se fosse grega participaria no referendo do próximo domingo e sem hesitações escolheria “oxi”.
Oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; Oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; Oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; Oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; Oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; Oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi; oxi…

Chantagem, ainda e sempre a chantagem

O referendo marcado para o próximo dia 5 de Julho que decidirá o rumo que os gregos querem dar às negociações com as instituições outrora conhecidas por troika apanhou essas mesmas instituições de surpresa. Os tecnocratas e aqueles que chafurdam num neoliberalismo bacoco foram apanhados desprevenidos, ainda para mais quando um instrumento democrático foi introduzido na equação. A resposta, essa, não se fez esperar: o BCE não cede mais liquidez, obrigando as autoridades gregas a encerrarem os bancos durante a semana e a imporem limitações aos levantamentos por multibanco. Deste modo, os credores esperam que o pânico e o medo que se instalem e condicionem a votação do próximo domingo. Talvez assim vença o "sim" a mais austeridade, mesmo que as instituições procurem retirar importância ao referendo. A vitória do "sim" pode ser interpretada como uma derrota do Syrisa que faz campanha pelo "não" - uma derrota da ideia de que se pode contrariar a austeridade até…

A irresponsabilidade que não conhece limites

A forma encontrada pelas instituições europeias, lideranças de Estados-membros e credores como o FMI para lidar com a questão grega caracteriza-se por uma irresponsabilidade que não conhece limites. Depois de avanços (tímidos, demasiado tímidos) e recuos (profusos, excessivamente profusos) a intransigência europeia e do FMI ultrapassaram todos os limites. Alexis Tsipras, depois de trucidado pelas ditas partes – ex-troika – pediu aos gregos que se pronunciassem, através de referendo, sobre se o país deveria ou não aceitar as imposições externas. A resposta da UE não se fez esperar: um redondo “não”, através da recusa em prolongar por mais uns dias o programa, permitindo que o referendo fosse realizado no espaço de uma semana. A Grécia está encurralada e tudo está a ser feito para castigar o povo grego que ousou, democraticamente, fazer uma escolha que não coaduna com a ditadura do pensamento único. Agora são punidos – uma punição que deve servir de aviso para outros povos que acalentem …

A dívida

A dívida é um anátema; a dívida é uma maldição, fortemente ligada a um peso moral que implica invariavelmente vários processos de culpabilização. A dívida é aquilo que separa credores e devedores, mas são os devedores aqueles que são sujeitos a processos de culpabilização, reféns de sociedades moralizadoras, neste particular, e paradoxalmente, despidas de valores em tantos outros aspectos consideravelmente mais importantes. A Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida (IAC) há anos que tem disponibilizado um documento que contém 10 perguntas frequentes sobre a dívida. A nona pergunta é a seguinte: A dívida deve ser "paga a todo o custo"? A resposta é indissociável da ética e deste modo se faz a separação entre dívida como relação social básica e abrangente, que implica uma responsabilidade do devedor porque "por regra, este empréstimo não envolve lucro" e dívida no sentido financeiro sendo esta dívida definida como "um negócio: o credor empresta na expectati…

Um objectivo

O acordo entre Grécia, instituições europeias e FMI ainda não se conhece na totalidade. Nem tão-pouco se haverá acordo. Mas o objectivo das lideranças europeias é conhecido: derrubar o governo do Syrisa. Espera-se que os gregos não caiam na esparrela e que o Syrisa não acabe dividido, inexoravelmente dividido e inviabilizado. É esse o objectivo de boa parte das lideranças europeias. Dir-se-á que sem renegociação da dívida não há verdadeiramente qualquer ganho para os gregos e que a austeridade não está verdadeiramente a ser travada. Talvez. Porém, o facto é que o Syrisa empreendeu uma luta sem quaisquer apoios, defronte a uma Europa decidida a trucidar tudo o que o Syrisa representa. E se o povo grego se dividir e sucumbir às divergências inconciliáveis, e se o mesmo acontecer com o próprio Syrisa, as ditas lideranças europeias ganharão; vencerá a tese de austeridade até à morte; morrerá o sonho de fazer diferente, de lutar contra as injustiças, de ter um futuro que não passe pelo defi…

Relatório da Comissão para a Verdade Sobre a Dívida

O Relatório da Comissão para a Verdade Sobre a Dívida apresentado no Parlamento grego lança nova luz sobre a origem da dívida grega e aponta caminhos para sair desta ratoeira. A Comissão foi elaborada por especialistas de várias nacionalidades. Segundo o relatório, a dívida antes da troika conheceu um aumento, não devido a despesa pública, mas graças a despesas milionárias na área da defesa, devido à fuga de capitais, à recapitalização da banca privada e aos juros exorbitantes. Ficou-se também a saber que o primeiro resgate foi feito em nome da banca privada e não do povo grego. Outro aspecto abordado pelo relatório e que não constitui novidade prende-se com o facto da dívida ter gerado mais dívida em benefício da banca privada e estimulando um vasto plano de privatizações. O relatório concluiu que o "ciclo da dívida resultou na violação de direitos humanos fundamentais, degenerando na urgência humanitária que o país vive. Assim justificam-se "mecanismos de repúdio e suspensão …