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Mensagens

Bloco Central

O primeiro-ministro, em entrevista ao Expresso, revelou estar disponível para uma coligação com o PS – um bloco central. Quase de imediato, António Costa, ainda a recuperar de uma gaffe incomensurável, refutou essa possibilidade, alegando que o PS simplesmente não e adepto dessa possibilidade. Com efeito, esta posição do PS – que merece ser mais inequívoca do que aquilo que realmente é – é a única que o Partido Socialista pode adoptar. Se, porventura, existe alguma possibilidade de um bloco central, os cidadãos merecem ter esse conhecimento antes do período eleitoral e antes de fazerem a sua escolha. O afastamento dos cidadãos relativamente à classe política é já acentuada, dispensando-se, porquanto, novos argumentos que agravam a sensação de desconfiança e consequente afastamento.
Por outro lado, uma hipotética coligação PS/PSD seria prejudicial para o PS. Toda a argumentação e fundamentação do PS esvair-se-á num eventual entendimento com o PS. E, claro está, um efeito PASOK – difícil d…

A eterna vigilância

Bruxelas identifica a existência de desequilíbrios económicos excessivos e coloca o país sob vigilância, ou "monitorização específica". Há escassos meses a Comissão Europeia já se tinha mostrado incomodada com a perda de ímpeto reformista do Governo português. Discute-se agora se Portugal ainda é ou não o bom aluno. Todavia, e do meu ponto de vista, a questão é mais ampla e mais inquietante. Se Portugal continua a ser, ou se alguma vez foi um bom aluno, é uma questão de menor importância. Aliás, em bom rigor, Portugal - através do seu Governo - nunca conseguiu ser mais do que o aluno "graxista" que sempre procurou ir para além do que os professores lhe indicaram com o intuito de os agradar. Uma posição embaraçosa e pouco mais.
A questão é mais preocupante: vigilância será para largas décadas, na precisa medida em que a dívida do país é impagável e corresponde, se nada for feito, a décadas de escravatura. Pelo caminho teremos a vigilância das instituições europeias ce…

Voltando à Grécia

A lista que contém reformas estruturais propostas pelo Governo grego ao Presidente do Eurogrupo acabou por ser bem recebida, faltando ainda a aprovação, em sede parlamentar, de alguns Estados-membros. E assim se conseguiu mais quatro meses. O documento contém algumas medidas que vão ao encontro do Programa de Salónica - programa eleitoral do Syrisa. O combate à corrupção e evasão fiscal são centrais, assim como a reforma do sector público de modo a torná-lo mais eficiente e menos burocrático. A Alemanha pretendia apenas uma extensão do memorando de entendimento, o que não se verificou. E embora exista um compromisso de não reverter medidas incluídas no programa de ajustamento, o Governo grego prepara-se para aumentar, faseadamente, o salário mínimo, abortar os compromissos de Samaras, anterior primeiro-ministro, sobretudo no que diz respeito a cortes nas pensões e aumento do IVA, e a reintegração de 2010 funcionários públicos. Simultaneamente existe o compromisso de taxar as grandes for…

Simplesmente não estamos habituados

O novo governo grego já marcou indelevelmente a política europeia. Simplesmente não estamos habituados a políticos empenhados em defender os interesses dos cidadãos, em oposição à habitual defesa de interesses que chocam com o bem comum - a própria definição de política. E tanto mais é assim que as negociações entre Eurogrupo e Grécia para a extensão do programa por quatro meses terá sido das mais acesas de que há memória. A lista de reformas estruturais foi entregue ao Presidente do Eurogrupo e terá sido bem recebida. Recorde-se que a Grécia conseguiu a extensão do programa por mais quatro meses, centrando-se no combate à corrupção e à evasão fiscal. Algumas medidas do Syrisa foram incluídas no documento, designadamente medidas de natureza social para combater a calamidade social que se abateu sobre a Grécia, resultado directo das políticas de austeridade tão queridas a políticos como Passos Coelho.
Este é o resultado de uma abordagem inédita por parte dos dirigentes políticos gregos qu…

Lições a retirar da afronta grega

Diz-se por aí que a Grécia nada conseguiu com o acordo da passada sexta-feira. Este pretenso falhanço grego é motivo de regozijo de muitos que torcerem para que a Grécia, que ousou fazer uma escolha considerada radical, fracasse clamorosamente. Ainda assim, parece-me justo enumerar um conjunto de lições a retirar da afronta grega: 1 - A prevalência de uma incapacidade generalizada no reconhecimento do falhanço da austeridade. Mesmo em relação à dívida pública grega importa lembrar que em 2010 esta era de 133% e em 2014 ultrapassou os 175% (a previsão da troika apontava inicialmente para 144%). 2 - A hegemonia da Alemanha nunca foi tão clara e quem desafia o poder alemão é esmagado. Esse referido poder consolida-se à custa da pusilanimidade do resto das lideranças políticas europeias. 3 - As lideranças políticas mais pífias das últimas décadas são acompanhadas pela ilusão de uma Europa de instituições que na prática são esvaziadas de qualquer poder - o que se tornou evidente com as declara…

Mais alemães do que os próprios alemães

A frase em epigrafe terá sido proferida por Yanis Varoufakis, ministro das Finanças grego, referindo-se aos ministros das Finanças espanhol e portuguesa, depois das difíceis negociações da passada sexta-feira no Eurogrupo. Uma ideia corroborada pela comunicação social alemã. Compreende-se melhor, ainda assim, a posição do ministro das Finanças espanhol, graças à ascensão do Podemos que deixa PP e PSOE em pânico. Deste modo, o fenómeno Syrisa torna-se ainda mais perigoso se tiver sucesso. Neste contexto o ministro das Finanças espanhol tudo fez para dificultar a vida a Varoufakis, procurando enfraquecer o fenómeno Syrisa. A posição portuguesa é mais difícil de explicar. Por aqui não se vislumbra um solução governativa semelhante ao Syrisa. Por aqui manteremos os partidos do sistema na governação. Provavelmente depois de PSD/CDS teremos o PS, eventualmente coligado, no poder. Todavia, e apesar de não haver o perigo de termos um Syrisa, o Governo português, caracterizado pela cegueira, mi…

A dignidade não tem preço

A mudança política a que a Europa tem assistido - o Syrisa e o Podemos no horizonte - é também o resultado de um regresso a uma dignidade entretanto roubada. Os movimentos ditos populistas, como é sobretudo o caso do Podemos, invariavelmente associados a ideias vagas, a alguma inanidade e apoiados na retórica ao invés da ideologia, representam a resposta a esse roubo da dignidade dos povos do sul da Europa. O já referido populismo, dito de forma depreciativa, é uma nova forma de ver e fazer política - nova e diferente em oposição ao convencionalismo que se instalou na Europa; tudo o que fugir a esse convencionalismo acinzentado será considerado de forma depreciativa pelos poderes instalados. Quando se leva os povos ao limite das suas capacidades, quando se humilha e se anula o conceito de futuro, os povos respondem. Felizmente para a Europa, essa resposta tem sido dada num contexto de democracia, fortalecendo-a. A resposta poderia ter chegado através de vias menos democráticas ou até m…