segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Fora da reestruturação da dívida

Passos Coelho, em resposta a Catarina Martins do Bloco de Esquerda, afirmou categoricamente a sua recusa numa participação na conferência, que faz parte das intenções do Syrisa, para a discussão sobre reestruturação da dívida. O primeiro-ministro, aliás, não podia ter sido mais claro.
Ora, em bom rigor, não era necessária qualquer clarificação. Passos Coelho já manifestou, em inúmeras ocasiões, não estar interessado em sequer discutir uma hipotética reestruturação da dívida. Esse desinteresse prende-se naturalmente com a posição ideológica do primeiro-ministro, um pouco na linha do "doa a quem doer, custe o que custar", embora em bom rigor, exista quem escape a esses custos e a essas dores - os mesmos que são salvaguardados pelas políticas do Executivo de Passos Coelho. O primeiro-ministro apenas veio reforçar uma posição bem conhecida.
Assim, Portugal continuará oficialmente a adoptar uma posição que já não conta com os consenso do passado; uma posição, aliás, que corre o risco de se tornar minoritária entre os próprios líderes europeus.

Este é o ano de escolhas: vamos escolher a austeridade em todo o seu esplendor preconizada e aplicada por quem teimosamente insiste numa receita falhada e desastrosa para o país; ou escolheremos a austeridade em doses menores, disfarçada por princípios associados à esquerda, mas que não deixa de facto de se tratar de austeridade, mais uma vez fazendo parte da receita falhada; ou, ainda, escolheremos quem defende uma ruptura relativamente à dita receita falhada e desastrosa para o país. De qualquer modo, sabemos perfeitamente onde se posiciona cada partido político.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Que pena: nós não somos a Grécia

Os membros do ainda Governo, designadamente Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, têm afirmado e reafirmado que Portugal não é a Grécia. E eu respondo: que pena!
Dir-se-á que que os referidos membros do Governo fundamentam a afirmação em epígrafe com o "bom desempenho" da economia portuguesa e com o "sucesso" das políticas de austeridade (impossível não utilizar aspas). O "bom desempenho" não existe e o "sucesso" traduz-se em empobrecimento do país. Outros dirão que não somos a Grécia porque aquele país apresenta ainda maiores dificuldades do que nós, por essa ordem de ideias, espera-se que a Holanda, a Finlândia, a Bélgica, a França ou a esmagadora maioria de países que se encontram em melhor situação económica (crescimento da economia, taxas de desemprego, investimento, défice, dívida, etc) venham a proferir as mesmas afirmações. E se queremos falar de dívida, em particular, de devedores e credores, porque nãocolocar a Alemanha na qualidade de devedor e a Grécia na qualidadede credor?

É pena Portugal não ser a Grécia, sobretudo no que diz respeito ao dinamismo da sua democracia. Por cá mantemo-nos resignados, com uma aversão histórica à mudança, permissivos e desinteressados. Na Grécia, num contexto de consolidação da democracia daquele país, os cidadãos escolheram a mudança - é um facto. E fizeram essa escolha, apesar de todas as chantagens e pressões, com transparência, demonstrando que estão vivos e dispostos a recuperar a dignidade. Não é possível dizer o mesmo de Portugal, agarrado a elites políticas e empresariais promiscuas, refém da resignação e da indiferença. Em suma, um país que tem medo de se erguer. E ainda há quem diga, com acentuada satisfação, que Portugal não é a Grécia.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Plano do BCE

Encostado à parede pelas circunstâncias, pela demora em reagir e pela teimosia da Alemanha, Mário Draghi, Presidente do Banco Central Europeu (BCE) apresentou um plano de compra de títulos de dívida, que não sendo totalmente novo, seria impensável há uns meses atrás, pelo menos na sua envergadura e amplitude. Trocado por miúdos, a banca recebeu torrentes de dinheiro da troika com o objectivo que o mesmo fosse canalizado sobretudo nas empresas, ao invés, a banca investiu o dinheiro na compra de títulos de dívida de outros países com taxas de juro mais apelativos. Resultado: o dinheiro não chegou naturalmente à economia real. Agora, o BCE propõe comprar esses títulos de dívida de volta a banca para que a mesma banca se sinta aliviada e possa assim injectar dinheiro, sob a forma de crédito, nas economias da zona euro. Mais um plano que beneficia a banca.
Assim, o BCE volta a injectar dinheiro na banca sem garantias de que esse mesmo dinheiro chegue aos cidadãos e empresas.
Por outro lado, o plano implica a troca de dinheiro por austeridade.
Apesar do optimismo que por aí grassa, receio que neste cenário de deflação, sem investimento, de que pouco adiantará a compra de obrigações. A questão do investimento é central. Com austeridade, sem investimento e sem consumo não haverá recuperação económica.

A compra de activos públicos e privados no valor de 60 mil milhões de euros por mês com o objectivo de combater a deflação que ameaça a Europa é sintomática do estado a que a zona euro chegou. Esta é o último trunfo de Draghi e se não resultar? Peça-se contas sobretudo à Alemanha e aos leais seguidores da senhora Merkel, a começar pelo nosso ilustre primeiro-ministro.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Uma lição de democracia

Democracia – uma palavra que anda nas bocas de tantos, porém quando o povo grego dá uma verdadeira lição de democracia, o conceito perde força e dá lugar a uma azia indisfarçável.
Uns relembram as responsabilidades; outros apostam nas generalizações invariavelmente abusivas em torno de todo um povo; e há ainda aqueles que associam as políticas do partido vencedor, o Syrisa, a um “conto de crianças”, isto dito pelo responsável pelo empobrecimento atroz a que o país foi sujeito – não um conto, mas a realidade que está a destruir o país.
Seja como for, e minudências dos habituais protagonistas insignificantes à parte, o povo grego brindou a Europa com uma incomensurável lição de democracia: a mudança que tantos almejavam foi conseguida através do voto, com transparência, consciência e, por muito que custe a alguns, responsabilidade. Um sinal que o país que tantos acusam de irresponsabilidade, mostra ser precisamente o contrário.

A mudança chegou através da democracia. Uma lição para a Europa, sobretudo para as lideranças políticas que através das políticas falhadas de austeridade não têm feito outra coisa que não seja enfraquecer as democracias. Esta não será, infelizmente, uma lição ao alcance de todos. Por cá, alguns precisam primeiro de aprender a pronunciar o nome “do partido que venceu as eleições na Grécia”, isto se a arrogância do costume o permitir.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

David e Golias

A luta que o Syrisa tem pela frente encontra paralelo com a História bíblica. Por outras palavras, talvez mais dentro do contexto em questão, a luta de Alexis Tsipras, novo primeiro-ministro grego, será hercúlea.
As lideranças europeias encontram-se presas à ditadura da austeridade, mesmo com algumas tímidas excepções. De um modo geral, nem socialistas, nem sociais-democratas encetam qualquer esforço para combater a receita imposta pela Alemanha - uma receita que todos reconhecem ter falhado.
É neste contexto que Tsipras encontrará dificuldades assinaláveis e é também neste contexto que o novo primeiro-ministro grego deve contar com o apoio de todos aqueles que não se revêm numa Europa que prende os povos à austeridade sem limites - a tal receita falhada. De resto, o Syrisa já recebeu apoios claros que partidos como o Podemos espanhol e outros apoios mais tímidos de partidos um pouco por toda a Europa. Os poderes instalados estão preparados para exercer pressão e tudo fazer para que o Syrisa falhe. Em bom rigor, um hipotético falhanço do Syrisa abre as portas a outros falhanços de partidos que ameaçam o status quo como é precisamente o Podemos espanhol.
Todavia e tal como na história referida em epígrafe, no fim da história é David a vencer, contra todas as expectativas e com uma pontaria excepcional e talvez com a ajuda de alguém inesperado. Assim esperamos. Talvez assim possamos... voltar a ter esperança no futuro.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Vitória do Syrisa

A vitória do Syrisa significa a possibilidade, pela primeira vez real, de assistirmos a uma mudança. Apesar das dificuldades e apesar das pressões, o povo grego deu uma grande lição de democracia.
Mas o que significa uma vitória deste partido de esquerda radical?
Significa desde logo a mudança, uma mudança que se começou a sentir ainda antes das eleições gregas do passado domingo, com um ligeiro abrandamento da chantagem a que a Grécia tem sido sujeita, em particular nas últimas semanas. Uma mudança que se consubstancia na introdução – mais uma vez que ultrapassa a mera retórica – da reestruturação da dívida grega e das dívidas de outros países da zona euro e é aqui reside a mudança que interessa verdadeiramente a boa parte da Europa: com Tsipras, o novo primeiro-ministro grego, poderá assistir-se, finalmente, à união de várias lideranças europeias cujos países foram devastados pela austeridade e pela dívida – essa aliança é fundamental para se alterar o rumo desastroso da zona euro e da União Europeia. Finalmente, um desses países devastados pela austeridade e pela dívida tem uma liderança que propõe uma mudança tão necessária que outros poderão seguir. Existe uma visão da Europa que é partilhada por vários partidos e movimentos políticos, finalmente assistimos à chegada ao poder de um partido que tem essa mesma visão. Esta é uma excelente notícia.
É evidente que as dificuldades são incomensuráveis para Tsipras e para o Syrisa: a Grécia está numa situação de grande fragilidade e depara-se com a intransigência da Alemanha. Neste contexto em particular, a referida união de países que partilham as mesmas dificuldades poderá ser a chave do sucesso, garantindo a viabilidade de alternativas que seguramente não são vistas com bons olhos por aqueles que querem manter o actual estado de coisas.
Finalmente, a vitória do Syrisa, não deixando margens para dúvidas, é também mais um sinal do falhanço retumbante das políticas de austeridade impulsionadas por uma UE vergada aos ditames alemães, por muito que as ameaças subsistam e até subam de tom - assim se espera nos próximos tempos. Entre a esperança e as ameaças, venceu a esperança, pelo menos na Grécia.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Se é a esquerda radical...

O partido de esquerda radical Syrisa pode sair vencedor das próximas eleições legislativas na Grécia, embora se anteveja uma panóplia de dificuldades se o partido não vencer as eleições com maioria absoluta - cenário provável - e, em consequência, ser obrigado a coligar-se.
A esquerda dita radical é particularmente enfatizada pela comunicação social na Europa, uma esquerda radical invariavelmente associada à hipotética saída da moeda única. Trata-se da utilização de uma retórica que não é nova e que visa inquietar os cidadãos, sobretudo aqueles que vão a votos neste domingo e outros que mais tarde, nos seus países, poderão sentir-se tentados a votar em partidos similares, em partidos que rejeitam a austeridade, defendem a renegociação da dívida, etc.
O Syrisa é um partido europeísta que defende políticas para a Europa que não fiquem reféns da austeridade, defendendo também uma renegociação da dívida para os países da periferia, sem essa renegociação não haverá relançamento das economias e subsequente criação de emprego.

De qualquer modo, se é a esquerda radical a fazer a defesa genuína dos direitos dos trabalhadores; se é a esquerda radical a lutar contra a precariedade das relações laborais; se é a esquerda radical a recusa da austeridade até à morte; se é a esquerda radical a defender o Estado Social, considerando-o indissociável das próprias democracias, contra aqueles que se arrogam democratas, mas que apenas estão ao serviço de interesses que não se coadunam com os interesses dos cidadãos, então eu estou com a esquerda radical.