terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A propósito da crise

A propósito e com o pretexto da crise procedeu-se a um desinvestimento assinalável no Sistema Nacional de Saúde. Não é por acaso que se assiste às dificuldades crescentes do SNS, em particular no que diz respeito, à capacidade de dar resposta aos utentes, ao mesmo tempo que, a capacidade de resposta do sistema privado aumenta. O enfraquecimento de um não pode ser dissociado do fortalecimento do outro. 
Com efeito, assiste-se a uma tentativa de empurrar os utentes para os sistemas privados e assim será desde o momento em que o sistema público não tiver respostas para oferecer. Quanto àqueles que não podem socorrer-se do sistema privado pela simples razão de possuírem capacidade económica, sujeitam-se a ficar sem resposta.
A crise, a vinda da troika, o que seja serve de pretexto para o enfraquecimento dos serviços públicos, a Saúde não escapa a esse enfraquecimento até por ser um sector fortemente apetecível e rentável.

Dir-se-á que não há dinheiro para fazer mais, quando na verdade é objectivo deste Governo enfraquecer os serviços públicos, abrindo portas ao sector privado. A crise, a troika, o que seja são meras desculpas para se retroceder incomensuravelmente. É um objectivo, é ideológico e é uma atrocidade para a qual ainda muitos portugueses ainda não acordaram.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O que fazer?

Depois das mais de 50 horas de terror vividas sobretudo na cidade de Paris, fica a questão sobre como proceder doravante. Em suma, o que fazer?
Percebe-se que os acontecimentos dos últimos dias resultarão inevitavelmente num aumento de sentimentos contra a comunidade muçulmana, no aumento de popularidade da Frente Nacional de Marine Le Pen e no desaparecimento inexorável de François Hollande.
Por outro lado, os acontecimentos dos últimos dias contribuem para o aumento da ostracização de muçulmanos que serão mais permissíveis ao recrutamento para as fileiras radicais.
Não há receitas fáceis e imediatas para combater o terrorismo desta natureza. Pode-se combater a doutrinação em mesquitas, escolas e por aí fora; deve-se evitar generalizações; pode-se aumentar a vigilância com custos para as nossas liberdades; deve-se apostar no melhoramento dos serviços de informação; a cooperação entre países e policiais será essencial e essa cooperação terá de se estender a país predominantemente muçulmanos.
Aprender com os erros, designadamente aqueles relacionados aos apoios a grupos de natureza fundamentalista e a venda de armamento a esses grupos – o Estado Islâmico contou até há pouco tempo com apoio das potências ocidentais, sobretudo com vista a derrubar o regime de Bashar al-Assad na Síria, a Al-Qaeda idem. Uma utopia em tempos em que o dinheiro é o valor supremo.
Enfim, existem naturalmente caminhos que podem e nalguns casos devem ser percorridos, no entanto é impossível conseguir-se impedir todos os atentados, em particular aqueles que não necessitam de um grande planeamento e podem ser executados por pequenas células numa qualquer cidade europeia.
De qualquer modo, devemos ter uma certeza: façam o que fizerem, digam o que disserem, as sociedades europeias manter-se-ão fiéis a si próprias, orgulhosas de si próprias e livres. Nada poderá mudar isso.

Entretanto e segundo a Amnistia Internacional mais de duas mil pessoas terão morrido na Nigéria pelas mãos do grupo fundamentalista Boko Haram – uma geografia que faz toda a diferença na forma como o mundo ocidental olha ou nem por isso para esta hecatombe humana.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Filhos e enteados

Depois de anos de congelamento de salários dos funcionários públicos, de cortes salariais e até de despedimentos, o Governo prepara-se para aumentar alguns funcionários públicos, designadamente funcionários da ministério das finanças, criando para o efeito uma carreira especial. Para os outros mantêm-se os cortes, os congelamentos e afins. Na Função Pública, uns são filhos e outros enteados.
Com efeito, esta é mais uma medida que espelha a governação do Executivo de Passos Coelho: tributação e amiúde perseguição ao cidadão comum, deixando de fora a verdadeira fuga aos impostos através de off-shores e expedientes similares. Para tal, são necessários funcionários de finanças que executem essa perseguição tantas vezes atroz e nada consonante com a própria democracia.
Os filhos - executantes - terão direito a aumentos; para os outros restam promessas de reposição gradual de salários, depois de anos de sacrifícios.

Ficamos assim com mais uma ideia de qual o conceito de Estado para este Governo: não serão os médicos, professores e outros funcionários públicos a merecer consideração, mas aqueles que executam uma perseguição vergonhosa aos cidadãos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Barbárie

O atroz ataque ao jornal satírico francês Charlie Hebdo toca-nos a todos – a todos os que defendem a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão. A ofensiva que resultou na morte de 12 pessoas é um ataque claro às várias formas de liberdade que fazem parte das democracias. Agora é precisamente tempo de não abdicar de nenhuma dessas formas de liberdade, agora é tempo de reforçá-las.
Todavia, este ataque atroz resultará também num fortalecimento dos discursos xenófobos que caracterizam algumas forças políticas europeias, designadamente em França com a Frente Nacional encabeçada por Marine Le Pen.
É precisamente nestas alturas difíceis que medram as ideias mais simplistas e generalistas. O grau de receptividade será incomensuravelmente maior depois do que aconteceu ontem no Charlie Hebdo.
Espera-se ainda assim que o bom senso seja mantido e que a luta contra esta forma de extremismo se faça com inteligência, imaginação, mantendo aquilo de tão positivo que nos caracteriza: o amor pela liberdade, mas também a igualdade e a fraternidade. É também desta forma que se honrará os nomes daqueles que em nome da liberdade perderam as vidas num ataque abjecto que nos toca a todos.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Tudo é política

Por muito que nos desagrade, por muito que tentemos ignorar, a verdade é que a política tem um impacto incontornável nas nossas vidas. Infelizmente muitos de nós preferem manter uma visão exígua da política e do seu impacto - um conceito que, amiúde, se esgota no pagamento de impostos e nos eventuais cortes de salários e pensões.
Todavia, a política é muito mais do que a carga fiscal que temos de suportar ou os cortes nos salários e pensões. A política também é a escassez de médicos; a ausência de apoios para crianças com deficiência; o acesso ao ensino; a investigação; a ciência; a sustentabilidade da segurança social; as desigualdades; o presente e o futuro; o bem comum e o bem-estar dos cidadãos.
Em rigor, tudo é política ou tudo é o resultado de escolhas políticas. Ainda assim, muitos escolhem um total afastamento da política e das decisões políticas; um afastamento que apenas beneficia quem já está confortavelmente instalado no poder e que apregoa dia após dia a inevitabilidade do fim do bem-estar social. A mudança assusta-nos e o envolvimento na salvaguarda do bem-comum - finalidade da política - não é prioridade para a esmagadora maioria de nós. Tudo nos parece bem num contexto de estranha normalidade e com a privatização do Estado assistimos ao enfraquecimento da política, sem inquietações.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Vale tudo

Até pelo menos dia 25 deste mês a Grécia estará sujeita à chantagem que apenas vem envergonhar uma Europa sem rumo.
Alemanha; países como Portugal, incapazes de se livrar da canga da dívida, cujos responsáveis políticos chegam a ser mais papistas do que o papa; povos amedrontados e lançados para o obscurantismo e para a ignorância; comunicação social servil e manietada – todos estão presentes no que toca ao exercício triste da chantagem.
Vale tudo, ou quase tudo; vale tudo, menos uma vitória do Syrisa, da esquerda “radical”, enfim, dos que ousam apresentar alternativas à morte lenta a que a Europa se sujeitou. Vale tudo, menos uma vitória dos que não se calam perante as injustiças gritantes dos poderes instalados: da banca, da banca, sempre da banca.

Vale tudo menos uma vitória da democracia, isto porque o conceito minimalista de democracia que agrada aos mercados e aos seus lacaios não inclui naturalmente quem põe em causa o funcionamento terrorista desses mesmos mercados. Democracia? Só aquela que lhes interessa. Até 25 de Janeiro valerá tudo e, porém, quem sabe, a democracia dos povos pode ainda assim dar um arzinho da sua graça.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A apatia intrínseca ao “está tudo bem”

É consensual que estamos muito longe de estar bem; sabemos que está tudo, mas agimos como se estivesse tudo bem; agimos como se tudo fosse suportável; sucumbimos à apatia do está tudo bem.
De um modo geral, vivemos bem com os atropelos à democracia e a todo o género de injustiça.
As dificuldades financeiras, o sufoco causado pelos créditos só vieram agravar um estado generalizado de apatia, de sofrimento escamoteado.
De resto, essa apatia apenas encontrou o contexto ideal: uma educação que promove a passividade, desprezando a diversidade própria da democracia; uma educação e uma sociedade que promovem o individualismo, ignorando em absoluto o motor da evolução da espécie humana: a cooperação. Por outro lado, e ainda enquadrado no já referido contexto, verifica-se um desânimo que assola sobretudo aqueles que não têm ocupação e que sentem que não têm um lugar na sociedade – a vergonha de não trabalhar, de não estudar, vergonha essa que redunda amiúde na mais inexorável ausência de participação na vida colectiva. “Colectivo”: palavra conspurcada por ideologias nefastas, esquecida, ignorada, desprezada.
A televisão – peça central no mencionado contexto – nas mãos de quem pugna pela passividade, pela apatia; televisão nas mãos de quem teme que a falsa normalidade seja colocada em causa; nas mãos dos defensores indefetíveis do status quo. Com a televisão não há lugar ao pensamento crítico; tem sido como alguns já referiram um “agente pacificador” que alimenta o medo, sobretudo o medo do outro.
E finalmente, o contexto não seria bem um contexto sem o consumismo excessivo. A publicidade nefasta, defensora da uniformização e da manipulação – mentiras para alimentar a apatia reinante, arauta do individualismo que invalida o colectivo e sentimentos associados ao colectivo como o caso da solidariedade e do bem comum.
No actual estado de apatia generalizada que tomou conta das sociedades ocidentais verifica-se que a mudança tarda de facto a chegar. Ainda assim e apesar do contexto acima descrito, acredito que a mudança chegará. Um dia. No dia em que a apatia do está tudo bem for obnubilada pelo peso da realidade.