quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Barbárie

O atroz ataque ao jornal satírico francês Charlie Hebdo toca-nos a todos – a todos os que defendem a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão. A ofensiva que resultou na morte de 12 pessoas é um ataque claro às várias formas de liberdade que fazem parte das democracias. Agora é precisamente tempo de não abdicar de nenhuma dessas formas de liberdade, agora é tempo de reforçá-las.
Todavia, este ataque atroz resultará também num fortalecimento dos discursos xenófobos que caracterizam algumas forças políticas europeias, designadamente em França com a Frente Nacional encabeçada por Marine Le Pen.
É precisamente nestas alturas difíceis que medram as ideias mais simplistas e generalistas. O grau de receptividade será incomensuravelmente maior depois do que aconteceu ontem no Charlie Hebdo.
Espera-se ainda assim que o bom senso seja mantido e que a luta contra esta forma de extremismo se faça com inteligência, imaginação, mantendo aquilo de tão positivo que nos caracteriza: o amor pela liberdade, mas também a igualdade e a fraternidade. É também desta forma que se honrará os nomes daqueles que em nome da liberdade perderam as vidas num ataque abjecto que nos toca a todos.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Tudo é política

Por muito que nos desagrade, por muito que tentemos ignorar, a verdade é que a política tem um impacto incontornável nas nossas vidas. Infelizmente muitos de nós preferem manter uma visão exígua da política e do seu impacto - um conceito que, amiúde, se esgota no pagamento de impostos e nos eventuais cortes de salários e pensões.
Todavia, a política é muito mais do que a carga fiscal que temos de suportar ou os cortes nos salários e pensões. A política também é a escassez de médicos; a ausência de apoios para crianças com deficiência; o acesso ao ensino; a investigação; a ciência; a sustentabilidade da segurança social; as desigualdades; o presente e o futuro; o bem comum e o bem-estar dos cidadãos.
Em rigor, tudo é política ou tudo é o resultado de escolhas políticas. Ainda assim, muitos escolhem um total afastamento da política e das decisões políticas; um afastamento que apenas beneficia quem já está confortavelmente instalado no poder e que apregoa dia após dia a inevitabilidade do fim do bem-estar social. A mudança assusta-nos e o envolvimento na salvaguarda do bem-comum - finalidade da política - não é prioridade para a esmagadora maioria de nós. Tudo nos parece bem num contexto de estranha normalidade e com a privatização do Estado assistimos ao enfraquecimento da política, sem inquietações.


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Vale tudo

Até pelo menos dia 25 deste mês a Grécia estará sujeita à chantagem que apenas vem envergonhar uma Europa sem rumo.
Alemanha; países como Portugal, incapazes de se livrar da canga da dívida, cujos responsáveis políticos chegam a ser mais papistas do que o papa; povos amedrontados e lançados para o obscurantismo e para a ignorância; comunicação social servil e manietada – todos estão presentes no que toca ao exercício triste da chantagem.
Vale tudo, ou quase tudo; vale tudo, menos uma vitória do Syrisa, da esquerda “radical”, enfim, dos que ousam apresentar alternativas à morte lenta a que a Europa se sujeitou. Vale tudo, menos uma vitória dos que não se calam perante as injustiças gritantes dos poderes instalados: da banca, da banca, sempre da banca.

Vale tudo menos uma vitória da democracia, isto porque o conceito minimalista de democracia que agrada aos mercados e aos seus lacaios não inclui naturalmente quem põe em causa o funcionamento terrorista desses mesmos mercados. Democracia? Só aquela que lhes interessa. Até 25 de Janeiro valerá tudo e, porém, quem sabe, a democracia dos povos pode ainda assim dar um arzinho da sua graça.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A apatia intrínseca ao “está tudo bem”

É consensual que estamos muito longe de estar bem; sabemos que está tudo, mas agimos como se estivesse tudo bem; agimos como se tudo fosse suportável; sucumbimos à apatia do está tudo bem.
De um modo geral, vivemos bem com os atropelos à democracia e a todo o género de injustiça.
As dificuldades financeiras, o sufoco causado pelos créditos só vieram agravar um estado generalizado de apatia, de sofrimento escamoteado.
De resto, essa apatia apenas encontrou o contexto ideal: uma educação que promove a passividade, desprezando a diversidade própria da democracia; uma educação e uma sociedade que promovem o individualismo, ignorando em absoluto o motor da evolução da espécie humana: a cooperação. Por outro lado, e ainda enquadrado no já referido contexto, verifica-se um desânimo que assola sobretudo aqueles que não têm ocupação e que sentem que não têm um lugar na sociedade – a vergonha de não trabalhar, de não estudar, vergonha essa que redunda amiúde na mais inexorável ausência de participação na vida colectiva. “Colectivo”: palavra conspurcada por ideologias nefastas, esquecida, ignorada, desprezada.
A televisão – peça central no mencionado contexto – nas mãos de quem pugna pela passividade, pela apatia; televisão nas mãos de quem teme que a falsa normalidade seja colocada em causa; nas mãos dos defensores indefetíveis do status quo. Com a televisão não há lugar ao pensamento crítico; tem sido como alguns já referiram um “agente pacificador” que alimenta o medo, sobretudo o medo do outro.
E finalmente, o contexto não seria bem um contexto sem o consumismo excessivo. A publicidade nefasta, defensora da uniformização e da manipulação – mentiras para alimentar a apatia reinante, arauta do individualismo que invalida o colectivo e sentimentos associados ao colectivo como o caso da solidariedade e do bem comum.
No actual estado de apatia generalizada que tomou conta das sociedades ocidentais verifica-se que a mudança tarda de facto a chegar. Ainda assim e apesar do contexto acima descrito, acredito que a mudança chegará. Um dia. No dia em que a apatia do está tudo bem for obnubilada pelo peso da realidade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Quem tem medo do Syrisa?

A situação política na Grécia está ainda longe de se definir, mas há uma certeza: o partido Syrisa será seguramente um dos mais fortes candidatos à vitória nas legislativas.
O Syrisa é classificado como partido radical e tem como propostas uma renegociação da dívida que possa incluir um pagamento da dívida acompanhada de um crescimento económico, deixando cair por terra os cortes orçamentais.
Este partido rotulado como sendo de esquerda radical propõe ainda uma espécie de New Deal Europeu apoiado por um banco de investimento; um programa de emergência para combater o desemprego; o aumento do salário mínimo; uma luta sem tréguas contra a evasão fiscal; a restauração dos acordos colectivos; alianças com outros partidos europeus que lutem contra a austeridade. Como se vê, o radicalismo é assustador.
Quem tem medo do Syrisa? Os mesmos que chantagearam os gregos nas últimas eleições: uma UE refém dos interesses financeiros; forças internas ainda agarradas a preconceitos contra a esquerda que raiam amiúde formas de fascismo, como são evidentes nas forças militares e policiais; forças internas que fazem parte da casta dominante e que, naturalmente receiam, uma inversão de posições. Estas forças recorrem à chantagem – “se o Syrisa vencer não haverá mais dinheiro comunitário” é um bom exemplo dessa chantagem – e actuarão como forças de bloqueio. Deste modo, veremos também a pujança da democracia grega.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A última grande privatização

A venda da TAP corresponde à última grande privatização do actual Governo. Depois de discussões sobre o que está ou não estipulado pelo memorando de entendimento assinado com a Troika, depois de potenciais greves e manobras para impedir essas greves, a venda da transportadora aérea portuguesa é um facto praticamente consumado. Para ajudar a compor as coisas, é notícia a necessidade da TAP conseguir 250 milhões de crédito à banca até à venda da empresa.
Ideologia. Imperativos ideológicos, com ou sem imposições da troika - a ideia de vender tudo o que for possível sempre esteve subjacente à governação do PSD/CDS. A TAP é apenas a última grande venda levada a cabo por este Executivo.
Se lhe for renovado o mandato em próximas eleições legislativas, e embora já não reste grande coisa para vender, qualquer coisa se arranjará. A água? E para quê? Para enriquecer uma minoria e empobrecer a esmagadora maioria.
De qualquer modo, a TAP seria sempre vendida a privados, assim como será a RTP que ainda se mantém pública por interessar a quem governa.
Com greves ou sem elas a TAP já tem o seu destino marcado. Num contexto em que impera a impunidade e o deixa andar, a imaginação não conhece limites. Se dúvidas existem, renove-se o mandato do actual Executivo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Crise económica na Rússia

Vladimir Putin reconheceu a existência da crise económica russa, admitindo que a resistência à diversificação da economia estará subjacente às dificuldades presentes. Putin abordou a questão das sanções impostas e à descida significativa do preço do petróleo como outros elementos subjacentes à crise económica.
Deste modo, ficou feito o resumo das causas da crise que está a assolar a economia russa. De fora do discurso de Putin ficou a corrupção e o próprio regime oligárquico como elementos indissociáveis da crise russa. É evidente que Putin, o homem que encabeça a oligarquia, não está disposto a relacionar os homens que dominam o país e o descalabro da economia russa.
Por outro lado, as difíceis relações com o Ocidente, que se agravaram com a questão ucraniana, trazem novas dificuldades que vão para além das próprias sanções impostas pelo Ocidente. Importa contudo lembrar que o afastamento da Rússia começa nos anos Bush com o abandono dos EUA de tratados como o tratado de mísseis, a construção de um escudo anti-míssil na fronteira russa levada a cabo pelos EUA, empurrando a NATO para essa mesma fronteira. Estes avanços apenas contribuíram para o afastamento da Rússia e não serão evidentemente alheios à própria crise económica.