segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Quem tem medo do Syrisa?

A situação política na Grécia está ainda longe de se definir, mas há uma certeza: o partido Syrisa será seguramente um dos mais fortes candidatos à vitória nas legislativas.
O Syrisa é classificado como partido radical e tem como propostas uma renegociação da dívida que possa incluir um pagamento da dívida acompanhada de um crescimento económico, deixando cair por terra os cortes orçamentais.
Este partido rotulado como sendo de esquerda radical propõe ainda uma espécie de New Deal Europeu apoiado por um banco de investimento; um programa de emergência para combater o desemprego; o aumento do salário mínimo; uma luta sem tréguas contra a evasão fiscal; a restauração dos acordos colectivos; alianças com outros partidos europeus que lutem contra a austeridade. Como se vê, o radicalismo é assustador.
Quem tem medo do Syrisa? Os mesmos que chantagearam os gregos nas últimas eleições: uma UE refém dos interesses financeiros; forças internas ainda agarradas a preconceitos contra a esquerda que raiam amiúde formas de fascismo, como são evidentes nas forças militares e policiais; forças internas que fazem parte da casta dominante e que, naturalmente receiam, uma inversão de posições. Estas forças recorrem à chantagem – “se o Syrisa vencer não haverá mais dinheiro comunitário” é um bom exemplo dessa chantagem – e actuarão como forças de bloqueio. Deste modo, veremos também a pujança da democracia grega.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A última grande privatização

A venda da TAP corresponde à última grande privatização do actual Governo. Depois de discussões sobre o que está ou não estipulado pelo memorando de entendimento assinado com a Troika, depois de potenciais greves e manobras para impedir essas greves, a venda da transportadora aérea portuguesa é um facto praticamente consumado. Para ajudar a compor as coisas, é notícia a necessidade da TAP conseguir 250 milhões de crédito à banca até à venda da empresa.
Ideologia. Imperativos ideológicos, com ou sem imposições da troika - a ideia de vender tudo o que for possível sempre esteve subjacente à governação do PSD/CDS. A TAP é apenas a última grande venda levada a cabo por este Executivo.
Se lhe for renovado o mandato em próximas eleições legislativas, e embora já não reste grande coisa para vender, qualquer coisa se arranjará. A água? E para quê? Para enriquecer uma minoria e empobrecer a esmagadora maioria.
De qualquer modo, a TAP seria sempre vendida a privados, assim como será a RTP que ainda se mantém pública por interessar a quem governa.
Com greves ou sem elas a TAP já tem o seu destino marcado. Num contexto em que impera a impunidade e o deixa andar, a imaginação não conhece limites. Se dúvidas existem, renove-se o mandato do actual Executivo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Crise económica na Rússia

Vladimir Putin reconheceu a existência da crise económica russa, admitindo que a resistência à diversificação da economia estará subjacente às dificuldades presentes. Putin abordou a questão das sanções impostas e à descida significativa do preço do petróleo como outros elementos subjacentes à crise económica.
Deste modo, ficou feito o resumo das causas da crise que está a assolar a economia russa. De fora do discurso de Putin ficou a corrupção e o próprio regime oligárquico como elementos indissociáveis da crise russa. É evidente que Putin, o homem que encabeça a oligarquia, não está disposto a relacionar os homens que dominam o país e o descalabro da economia russa.
Por outro lado, as difíceis relações com o Ocidente, que se agravaram com a questão ucraniana, trazem novas dificuldades que vão para além das próprias sanções impostas pelo Ocidente. Importa contudo lembrar que o afastamento da Rússia começa nos anos Bush com o abandono dos EUA de tratados como o tratado de mísseis, a construção de um escudo anti-míssil na fronteira russa levada a cabo pelos EUA, empurrando a NATO para essa mesma fronteira. Estes avanços apenas contribuíram para o afastamento da Rússia e não serão evidentemente alheios à própria crise económica.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

É melhor não perguntar

A frase em epígrafe é uma entre outras reveladoras de um contexto onde impera o dinheiro indevido e a informação privilegiada. Esse contexto dá pelo nome de Reunião do Conselho Superior do Grupo Espírito Santo - a gravação mencionada reunião acabou divulgada pela comunicação social.
Na conversa entre Ricardo Salgado e outros membros do Grupo Espírito Santo é discutida a distribuição de comissões pagas pela aquisição dos famigerados submarinos. 5 milhões para aqui, 15 para ali Quanto para quem? É melhor não perguntar, responde Salgado. Um exemplo do poder incomensurável dos membros da casta dominante composta por homens de negócio e políticos.
Dessa gravação percebe-se que o arquivamento do processo dos submarinos já era conhecida por Salgado. Recorde-se que este processo esteve em investigação no DCIAP desde 2006; recorde-se também que processos relativos ao consórcio alemão Ferrostal resultaram em condenações na Alemanha e na Grécia;  e, finalmente, importa lembrar que o procurador em 2012 referiu que "grande parte dos elementos referentes ao concurso público de aquisição dos submarinos não encontrava arquivada nos respectivos serviços (da Defesa). Paulo Portas, ministro da Defesa na altura, escapou incólume.
Entretanto, em semana de greves dos transportes públicos daqueles que procuram salvar as migalhas, ouve-se o habitual conjunto de palavras de desagrado precisamente dirigidas a quem tenta salvar o pouco que resta, fruto do seu trabalho. O que se passa com este país? É melhor não perguntar?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Greve

A greve é o último recurso dos trabalhadores, sinal de que o contexto em que se encontram inseridos se degradou de forma assinalável. Infelizmente, para alguns, a greve é merecedora de críticas inexoráveis. Em rigor, se fosse possível, a greve, para alguns, merecia ser abolida - porque põe em causa os interesses do país; porque não é economicamente viável, porque causa transtorno aos cidadãos, ou porque sim, simplesmente porque sim.
Exemplo de interesses do país - a venda da TAP. Existe alguém que acredite que a venda da TAP será positiva para o país? Mesmo com a multiplicidade de casos de outras privatizações que destruíram o pouco que nos restava, onerando cidadãos/consumidores?
Quanto à viabilidade económica, a dívida externa portuguesa não é viável e não vejo tanta alma inquieta com esse facto.
Finalmente, o transtorno dos cidadãos. É evidente que as greves causam dificuldades, sobretudo as greves do sector dos transportes públicos. No entanto, temos sido presenteados com perto de quatro anos de transtornos incomensuráveis e sem paralelo, resultado da governação de Passos Coelho e Paulo Portas sem que, insisto, veja muitas almas inquietas. Curioso, não é? Talvez fosse interessante questionar os Belgas sobre as suas impressões sobre a greve; quem diz os Belgas, diz boa parte dos povos europeus.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Confiança

Passos Coelho, entre membros do seu partido, referiu que não necessita do CDS para ganhar eleições. Isso é que é confiança. O ainda primeiro-ministro que enfrenta dentro de meses legislativas mostra-se convencido que vai ganhar as eleições.
Com efeito, o pior político é aquele que não vê as evidências; o pior político é aquele que se mostra incapaz de percepcionar os sentimentos dos seus cidadãos,
Passos Coelho demonstra viver absolutamente desfasado da realidade e essa realidade - a do desemprego, do trabalho precário, do enfraquecimento do Estado Social, do menosprezo pelos cidadãos; dos cortes salariais e de pensões e da venda do país - cair-lhe-á em cima precisamente no próximo período eleitoral. Com o CDS ou sem o CDS.
Passos Coelho sempre se mostrou incapaz de perceber que é sempre possível fazer mais e melhor pelos cidadãos. É preciso querer; é essencial existir vontade política. Passos Coelho não quis e não quer. Não faz parte do seu ideário e seguramente não fará parte da sua personalidade. É tão simples quanto isso.
As forças de mercado, a crise, os compromissos não explicam tudo - são inúmeros os exemplos disso mesmo. Passos Coelho não quer ver e, pior, não quer que os cidadãos se apercebam que é possível fazer muito mais e melhor. Passos Coelho ficará na História como a antítese dessa possibilidade.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O trabalho ainda não está feito

Qual a motivação para políticos como Passos Coelho e até certo ponto Paulo Portas lutarem pela reeleição? Desde logo, a incógnita que paira sobre um futuro desprovido de cargos políticos, em especial de governação. Um futuro que não será seguramente tão promissor do que aquele que implica a existência desses mesmos cargos. Mas existe outra motivação: concluir o trabalho que tem vindo a ser feito, em matéria de transformação social e de venda do país.
No que diz respeito à transformação social, importa consolidar aquilo que já foi feito: aumento da precariedade laboral, desvalorização salarial pressionada por elevados níveis de desemprego e enfraquecimento do Estado Social, passando sectores sob a alçada do Estado para o sector privado, designadamente na área da Saúde e Segurança Social.
Relativamente à venda de sectores estratégicos do Estado, temos a TAP, e no futuro a água poderá muito bem entrar para o vasto rol de privatizações. De resto a inexistência de limites à imaginação faz-nos temer o pior.
Por conseguinte, o trabalho ainda não está todo feito e será muito provavelmente essa a razão se encontra subjacente às motivações dos senhores acima referidos.