terça-feira, 18 de novembro de 2014

Remodelações

Depois de uma semana difícil para o Governo, mais uma, o ministro da Administração Miguel Macedo, demitiu-se, por considerar que não tem condições políticas para se manter no cargo. Se outros ministros se demitissem por se encontrarem politicamente diminuídos, teríamos seguramente mais demissões.
A propósito de demissões, uma remodelação mais profunda está na ordem do dia. Os comentadores do costume consideram necessária essa remodelação mais profunda que afectaria inevitavelmente a ministra das Finanças e eventualmente o ministro da Educação que se mantêm incrivelmente nos seus cargos - depois de falhanços absolutos, falhas de sistema e hipotéticas sabotagens.
Os comentadores do costume, exceptuando Marques Mendes que esteve mais tempo dedicado a explicações sobre a sua sociedade envolvida no escândalo dos vistos Gold, consideram que a remodelação é essencial para o Governo se manter na corrida das legislativas.
Com efeito, o Governo, ou melhor, os partidos que compõem o Governo, até se podem manter na corrida, mas dificilmente estarão em condições de vencer as eleições. E não será tanto devido ao caso dos vistos Gold, mas sim graças a um desgaste que se traduz invariavelmente na substituição de um partido - neste caso o PSD, por outro - o PS. Não há remodelação que salve o Governo, até porque não se sabe quem aceitará o cargo ou os cargos por escassos meses, num Governo manifestamente desgastado e fragilizado.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Vender a alma ao Diabo

Em nome do dinheiro vale tudo. Vale vender o país aos bocadinhos, sector por sector, empobrecer o país, retirar-lhe valor, desembaraçar-se da democracia, vender-se a cidadania. Vale tudo, incluindo vender a alma ao Diabo, a deles e a dos outros.
É neste contexto que se deve abordar o tema dos vistos gold – como algo que faz parte de um projecto mais abrangente. Os vistos gold, criação de Paulo Portas, para além de fazerem a distinção entre cidadãos estrangeiros com base no dinheiro, são uma porta aberta para lavagem de dinheiro e outros crimes. O Estado conivente, estende a passadeira vermelha ao crime e a situações opacas.
Depois das detenções de importantes funcionários do Estado, voltou-se a falar dos vistos gold. Mas alguém seriamente pode alguma vez considerar esta e outras medidas como sendo positivas? Nada mais tem sido do que a venda da alma ao Diabo, a deles e a nossa. E nós vamos deixando. Mesmo com demissões manifestamente insuficientes.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Prioridades

O bem-estar dos cidadãos nunca foi uma prioridade para quem ainda se mantém no Governo. A esmagadora maioria das decisões políticas dos últimos anos foi contra o bem-estar dos cidadãos. Empobreceu-se, destruiu-se e pouco mais.
Em nome da parcimónia, do dinheiro, da poupança, dos lucros das empresas, o actual Executivo de Passos Coelho decidiu aligeirar a auditorias periódicas a quem as empresas estavam sujeitas com o objectivo de salvaguardar a qualidade do ar. Em 2013 o Governo mudou a lei, flexibilizou-a, desregulou, o que se queira chamar. Coincidência das coincidências o país é confrontado com um surto de Legionella de dimensões nunca vistas.
O ministro do Ambiente fala na possibilidade de crime ambiental, mas escusa-se naturalmente a estabelecer qualquer relação entre o surto e a mudança da lei. É mais fácil pensar que se trata de negligência por parte de unidade fabril e que a relação entre o surto e a mudança na lei não passa de uma infeliz coincidência.
Um coincidência que ocorre no final do mandato de um Governo que sempre relegou os interesses dos cidadãos para segundo plano. E a que questão que se impõe é a seguinte: por que razão faria diferente com a saúde pública? As ideologias, como se vê, também fazem mal.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Histórias mal contadas

São muitas no que toca à actuação deste governo, mas talvez a mais disparatada se prenda com a sabotagem do Citius.
Depois de meses de trapalhadas que se traduziu no falhanço do sistema e consequente caos no funcionamento dos Tribunais e depois da propalada maior reforma da Justiça dos últimos 200 anos que redundou na já referida trapalhada, dois funcionários do Ministério da Justiça - com parcas competências técnicas - foram acusados de sabotagem. Com que propósito? Não se sabe e nunca se saberá porque esta história está mal contada, para utilizar um eufemismo.
Traduzido por miúdos, a culpa terá sido de dois funcionários. Não terá sido esse o entendimento da Procuradoria Geral da República que deixou cair a "sabotagem".
A ministra essa mantém-se irredutível - não se demite nem quer ouvir falar em demissão. À semelhança do que este Governo já nos habituou - responsabilidades não é com eles. Sabotagem à parte, a verdade é que com isto se manchou a imagem de dois funcionários do ministério da Justiça e para quê? Todos conhecemos a resposta. Esta história faz-nos lembrar outra que envolvia escutas ao Presidente da República no Palácio de Belém quando o "culpado disto tudo" era primeiro-ministro.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Tenham medo, tenham muito medo II

São notórias as tentativas de se demonizar o jovem partido espanhol Podemos. E é natural que assim seja, sobretudo quando se coloca em causa o status quo. Populistas e perigosos são apenas alguns adjectivos utilizados para caracterizar o Podemos. Faz sentido, senão vejamos: defesa de medidas económicas que pugnam pela criação de empregos através de reduções do horário de trabalho; aumento da participação social nas empresas públicas; auditoria cidadã à dívida pública; reestruturação da dívida; reforço da protecção social; maior participação popular na elaboração do Orçamento de Estado; contestação e defesa de mudanças no Banco Central Europeu; reforço dos mecanismos de democratização no sentido de devolver a democracia aos cidadãos.
Estas medidas são perigosas para quem defende o primado daqueles partidos políticos guardiões de um sistema que promove iniquidades enquanto defende os interesses de uma espécie de casta dominante assente no capitalismo financeiro. Partidos como o Podemos representam uma ameaça e, nesse sentido, importa que a comunicação social faça o seu papel: diabolizar os que põe em causa o capitalismo financeiro que, como todos sabemos, não se coaduna com as democracias. Tenham medo do Podemos, tenham muito medo - podia ser o lema de uma parte importante da comunicação social em Espanha, mas também em boa parte da Europa.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Milagres

Um dos milagres mais famigerados prende-se com os números surpreendentemente baixos do desemprego, abaixo dos 14 por cento, sem correlação com o país real. Este é talvez o milagre mais curioso e que serve os intentos do Governo, apostado em passar uma imagem de sucesso.
É claro que para haver milagre é necessário deixar de fora algumas variáveis incómodas: os contratos de Emprego-Inserção; os que desistiram de procurar emprego, pese embora ainda se encontrem em idade activa; o peso da emigração.
De fora do milagre ficam também os contratos, cada vez mais frequentes, de 3 meses implicando uma situação de desemprego cíclica; os estágios com fundos estatais que implicam a dispensa findo o estágio; os salários descaradamente baixos.
O que interessa é passar a ideia de que o desemprego está sempre a baixar, mesmo que fora dos números oficiais se encontrem centenas de milhar de cidadãos que se encontram efectivamente desempregados ou que saíram do país - a recomendação também do primeiro-ministro.
Se os números encontrassem uma relação com a realidade do país, não se poderia falar de milagre, mas sim de desastre social e isso, reconheça-se, não convém ao Governo. Se os números do desemprego encontrassem relação com a realidade a taxa de desemprego rondaria os 22 por cento - uma chatice que o Governo dispensa. Valha-nos o milagre.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Tenham medo, tenham muito medo

A ascensão do partido político espanhol Podemos tem como consequência imediata a propagação do medo, em particular agora que o Podemos tem uma possibilidade real de chegar ao poder.
Há muito a temer neste jovem partido alternativo, desde logo o ataque às oligarquias financeiras e a reestruturação da dívida pública e privada.
Assim, os mercados não escondem o seu nervosismo perante a ascensão de um partido que foge em absoluto ao seu controlo. O Podemos é um elemento “desestabilizador” e é necessário combatê-lo da única forma possível: através do medo e de tudo o que alimenta o medo – ignorância, ideias pré-concebidas, etc.
A comunicação social tradicional terá o papel de passar a ideia de que este é um partido “perigoso para a democracia, para a liberdade e para própria liberdade de impressa” - palavras do PP partido do Governo de Rajoy.
Tenham medo, tenham muito medo de todos aqueles que ousam desafiar os poderes instalados apostados em destruir vidas e enfraquecer as democracias.