terça-feira, 11 de novembro de 2014

Milagres

Um dos milagres mais famigerados prende-se com os números surpreendentemente baixos do desemprego, abaixo dos 14 por cento, sem correlação com o país real. Este é talvez o milagre mais curioso e que serve os intentos do Governo, apostado em passar uma imagem de sucesso.
É claro que para haver milagre é necessário deixar de fora algumas variáveis incómodas: os contratos de Emprego-Inserção; os que desistiram de procurar emprego, pese embora ainda se encontrem em idade activa; o peso da emigração.
De fora do milagre ficam também os contratos, cada vez mais frequentes, de 3 meses implicando uma situação de desemprego cíclica; os estágios com fundos estatais que implicam a dispensa findo o estágio; os salários descaradamente baixos.
O que interessa é passar a ideia de que o desemprego está sempre a baixar, mesmo que fora dos números oficiais se encontrem centenas de milhar de cidadãos que se encontram efectivamente desempregados ou que saíram do país - a recomendação também do primeiro-ministro.
Se os números encontrassem uma relação com a realidade do país, não se poderia falar de milagre, mas sim de desastre social e isso, reconheça-se, não convém ao Governo. Se os números do desemprego encontrassem relação com a realidade a taxa de desemprego rondaria os 22 por cento - uma chatice que o Governo dispensa. Valha-nos o milagre.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Tenham medo, tenham muito medo

A ascensão do partido político espanhol Podemos tem como consequência imediata a propagação do medo, em particular agora que o Podemos tem uma possibilidade real de chegar ao poder.
Há muito a temer neste jovem partido alternativo, desde logo o ataque às oligarquias financeiras e a reestruturação da dívida pública e privada.
Assim, os mercados não escondem o seu nervosismo perante a ascensão de um partido que foge em absoluto ao seu controlo. O Podemos é um elemento “desestabilizador” e é necessário combatê-lo da única forma possível: através do medo e de tudo o que alimenta o medo – ignorância, ideias pré-concebidas, etc.
A comunicação social tradicional terá o papel de passar a ideia de que este é um partido “perigoso para a democracia, para a liberdade e para própria liberdade de impressa” - palavras do PP partido do Governo de Rajoy.
Tenham medo, tenham muito medo de todos aqueles que ousam desafiar os poderes instalados apostados em destruir vidas e enfraquecer as democracias.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Críticas do FMI


O FMI - aquela entidade que umas vezes diz que a austeridade é contraproducente, mas não recusa-se a agir em conformidade - acusa o Governo de já não se esforçar, sobretudo agora que o resgate chegou ao fim.
Não é verdade, o FMI é pobre e mal agradecido. Senão vejamos: o Executivo de Passos Coelho e Paulo Portas fizeram um trabalho extraordinário no que diz respeito ao empobrecimento e desvalorização do país. Estado Social, desvalorização do trabalho e venda dos principais activos do país foram tarefas levadas a cabo, de forma exímia, pelo Governo.
Dito por outras palavras: a cartilha partilhada por uns e por outros foi levada à letra e o trabalho está feito. As transformações estão feitas. O país é mais pobre e sem futuro.
Desta feita,não se compreende a falta de gratidão daqueles senhores do FMI que tantas vezes parecem padecer de uma doença mental (umas vezes a austeridade é boa, noutras não). E agora por uns míseros pontos percentuais da meta do défice o FMI ataca quem tudo fez para cumprir a cartilha que advogam. Não é justo para o Governo que quer ser reeleito e que para isso colocou de lado a história "que se lixem as eleições". Paralelamente, estas acusações do FMI revelam falta de visão estratégica: se o Governo for reeleito haverá mais quatro anos para consolidar as transformações sociais. É sempre possível empobrecer mais e resta ainda qualquer coisa para vender. Mas a posição do FMI revela essencialmente ingratidão perante aqueles que tanto fizeram para empobrecer o país. Não se faz.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Um país pequeno

Portugal foi sujeito a transformações, sobretudo nos últimos anos, que se consubstanciam num retrocesso sem precedentes. Todos conhecemos as transformações cogitadas pelo actual Executivo: no trabalho, no Estado Social e na forma displiscente como se olha para todos os activos do país. Porém, há uma transformação que porventura é menos discutida e que se prende com a forma como Portugal é visto externamente.
Este Governo tornou o país ainda mais pequeno.
Os líderes políticos portugueses adoptaram, desde há muito tempo, uma postura que aposta na subserviência. Mas os actuais líderes - membros do Governo e Presidente da República - levaram essa subserviência ainda mais longe, fragilizando a imagem que os outros têm de nós. Ao procurarem a solução troika, ao insistirem que o pais viveu acima das suas possibilidades, ao andarem de mãos estendidas perante países europeus e fora da Europa, ao afirmarem que o país não tem lugar para os seus próprios cidadãos, estes senhores enfraqueceram o país, sob todos pontos de vista, incluindo naturalmente os pontos de vista externos.
Nunca este Governo valorizou o país, muito pelo contrário, o seu trabalho passou precisamente pela desvalorização de Portugal e isto afecta a forma como os outros olham para nós.
Não espanta pois que líderes de outros países se imiscuam nos nossos assuntos, quando nós nunca ousaríamos fazer o mesmo. Assim, ninguém pode verdadeiramente ficar escandalizado quando Merkel diz que existem demasiados licenciados em Portugal e em Espanha (Espanha também tem passado por uma desvalorização, embora, em muitos aspectos, não tão acentuada). E o mesmo se passará com a inusitada expulsão de juízes e um procurador de Timor-Leste, sem que tenha sido dada alguma explicação cabal aos responsáveis políticos portugueses.
Em suma, quando quem governa não respeita o seu país - como tem sido o caso - como é que se pode esperar respeito da parte de quem nos olha à distância? A verdade é que esses países raras vezes olham para nós, mas quando o fazem é com manifesta falta de consideração.
O bom aluno transformou-se naquele aluno tão bajulador que enoja os próprios professores. Sobre esta transformação corre menos tinta, infelizmente.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Regresso ao passado

A um ano de eleições e com um Governo moribundo, mas desesperado por viver mais quatro anos, o antigo primeiro-ministro, José Sócrates, será a figura mais presente, embora paradoxalmente ausente. A retórica do endividamento, a alegada irresponsabilidade e despesismo serão o apanágio dos próximos tempos. De fora, ficará a própria responsabilidade que PSD e CDS tiveram na solução troika que condenou o país à mais absoluta insignificância. Essa responsabilidade não será suficientemente explorada por uma comunicação social agarrada a um conformismo arrepiante.
Assim, os fantasmas do passado, explorados e empolados, terão presença garantida no período pré-eleitoral marcado também por um inexorável desgaste do Executivo de Passos Coelho e de Paulo Portas.
Com efeito, nada mais resta aos partidos da coligação que formam o Governo: Sócrates e as alegadas irresponsabilidades que levaram o país à falência. Quanto às responsabilidades do ainda primeiro-ministro e comparsa de coligação, essas ficam de fora da equação.
Sócrates tudo justificou e tudo justifica. Sócrates um primeiro-ministro que cometeu erros, que esteve longe de qualquer socialismo democrático, mas que ainda assim não é responsável pelos fins dos tempos como Passos Coelho e Paulo Portas insinuam e afirmam - estes sim são os verdadeiros responsáveis por uma solução que lhes permitiu introduzir as transformações sociais tão almejadas. O resultado está à vista: um país empobrecido, sem resquícios de força, endividado e esquecido do conceito de futuro.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Podemos mudar

A sondagem do El Pais provoca um abalo político em Espanha: o Podemos, um partido com quase um ano de existência, fica à frente do PP e do PSOE - os partidos da alternância. Paralelamente, Pablo Iglésias, líder do Podemos, é o único político com nota positiva. O desemprego, a corrupção transversal a PP e PSOE, com escândalos diários, e o falhanço da austeridade justificam a ascensão do Podemos, um partido que deu expressão popular ao movimento 15M.
Outras razões que poderão justificar a ascensão do Podemos prendem-se com as propostas - nem sempre tão aprofundadas e exploradas quanto o que se desejaria. Este partido rejeita as políticas de austeridade, defendendo a necessidade de combater a oligarquia financeira e económica; o Podemos aponta o desemprego como um dos maiores problemas em Espanha e assume a necessidade de reestruturar a dívida pública e privada.
No entanto, o que justifica em larga medida a ascensão do Podemos e surpresa na preponderância deste partido prende-se com o desgaste dos dois grandes partidos espanhóis: PP e PSOE e no PSOE em concreto a indefinição que assola os partidos socialistas na Europa.
O resultado está à vista: a ascensão de um partido que mostra ser aquilo que PP e PSOE não são - uma mudança tão almejada. Sinais que deixarão uma Europa ideologicamente obtusa inquieta. A este sinal soma-se a boa colocação do Syrisa grego nas sondagens.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O que fazer com tão pouco tempo?

Privatizar o possível, essencialmente. Insistir e acentuar as transformações sociais iniciadas. Não desistir da possibilidade de uma reeleição. É sobretudo isto que se pode fazer com tão pouco tempo. Falta um ano para eleições e tudo indica que o próximo Governo terá outra cor política.
Até lá, o realismo tenderá a instalar-se. Há muito em jogo e pouco tempo. Pelo caminho, não haverá tempo nem disposição para disfarçar o carácter ultraliberal do ainda Governo. Esse carácter não é surpresa e passa por uma espécie de rigor que os outros não têm. Todos se lembram, e os partidos do Governo farão questão de lembrar e empolar os factos, da natureza despesista e irresponsável do Governo de José Sócrates. Ausente da vida política activa, Sócrates estará bem presente até ao culminar das eleições legislativas.
Há muito para fazer em tão pouco tempo: vender o pouco que sobra, empobrecer o país, com maiores ou menores subterfúgios, aumentar as desigualdades, favorecendo a casta dominante, alimentar a história da incompetência para esconder o enfraquecimento dos serviços públicos, abrindo as portas à casta dominante. Tanto para fazer... em tão pouco tempo traduz-se na agudização das dificuldades já existentes. Entretanto o país aguarda anestesiado pelo senhor que se segue.