quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Alunos sem professores

A situação arrasta-se há demasiado tempo. Alunos sem professores; professores colocados em dezenas de escolas, vidas ainda mais intrincadas; directores escolares à beira de um ataque de nervos; pais inquietos; um ministério desnorteado; um país à deriva. Esta é a situação da Educação em Portugal. Erros de cálculo de um ministério tutelado por uma sumida académica precisamente na área da matemática. Irónico.
Depois do pedido de desculpas de Nuno Crato, ministro da Educação, as escolas continuam a ser confrontadas com a existência de alunos sem professores. O primeiro-ministro que tudo faz para manter alguma vivacidade política reitera a sua confiança num ministro que não esconde o seu gosto por viagens e que mesmo durante o caos da abertura do ano lectivo não se coibiu de viajar. Gostos. Gostos requintados.
Recorde-se que este é o mesmo ministro que aceitou um corte de mais de 11 por cento no seu ministério, isto depois de anos de cortes incomensuráveis. Para Nuno Crato tudo isto é normal e se, de facto, as coisas não correm de feição, um novo pedido de desculpas estará na calha. Entretanto, o país vai fingindo viver na normalidade - uma estranha normalidade - e o Executivo de Passos Coelho e Paulo Portas vai fingindo ser qualquer coisa remotamente semelhante a um Governo.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

“Preguiçosos e orgulhosos”

A comunicação social merece críticas por passar a informação fragmentada e enviesada, tantas vezes ao serviço de interesses mais ou menos latentes, mas nem por isso merece críticas de Passos Coelho. Afinal de contas com que legitimidade o ainda primeiro-ministro faz acusações a comentadores e jornalistas quando ele próprio e o seu séquito não primam nem pelo eficiência, nem pela transparência. É preciso muita lata, coisa que nunca faltou ao ainda primeiro-ministro. Os comentadores e jornalistas são, para Passos Coelho, “preguiçosos” e “orgulhosos”.
Todavia, compreende-se o desabafo do ainda primeiro-ministro, no encerramento das jornadas parlamentares de CDS e PSD. De resto, a comunicação social caracterizou-se, durante algum tempo, pela existência jornalistas deslumbrados com as teorias da inevitabilidade de Passos Coelho e repleta de comentares ávidos por defender a posição da maioria. Muitos mudaram de opinião, outros sabem que este é um “cavalo” velho e cansado e preferem mudar de apoios. É tão simples, é tão pragmático que, paradoxalmente, deveria agradar ao primeiro-ministro.
De um modo geral, as palavras de Passos Coelho são um reconhecimento implícito que o seu tempo chegou ao fim e com ele... mudam-se os tempos, mudam-se as opiniões.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Vitória sem entusiasmo

Dilma Rousseff venceu as eleições presidenciais no Brasil. Embora esta vitória esteja a ser acompanhada por alguns festejos nas ruas das principais cidades brasileiras, a verdade é que o entusiasmo que habitualmente acompanha estas eleições não é significativo.
De resto, percebe-se porquê. O desvirtuamento das ideologias, o esmorecimento da esquerda, a corrupção longe de estar debelada e a incapacidade de atenuar de forma mais acelerada as deficiências sociais do país, conferem a estas eleições um carácter de forte esmorecimento.
O Brasil continua a enfrentar problemas sociais absolutamente incomensuráveis e embora muito trabalho tenha efectivamente sido feito nos anos de Lula da Silva e da própria Dilma Rousseff, a verdade é que o descontentamento associado às profundas desigualdades sociais está profundamente aceso e a sensação de que Dilma podia ter feito mais é real.
Ainda assim, o povo Brasileiro chamado a escolher entre a ante-câmara do inferno (Partido dos Trabalhadores de Dilma) e o inferno propriamente dito (Partido da Social-Democracia (?) Brasileiro liderado por Aécio Neves), escolheu a ante-câmara. Uma escolha que nos é familiar, acompanhada amiúde pela mesma ausência de entusiasmo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Um governo desgastado

O desgaste do Governo é evidente, embora os membros do Executivo ajam como se esse desgaste simplesmente não existisse.
Mais, fica a sensação indelével que o país aguarda ansiosamente por 2015, concretamente por eleições. Entretanto, Passos Coelho e Paulo Portas fingem dizer a verdade e simulam um estado de normalidade que não existe.
O país foi inexoravelmente arrasado por este Governo. As transformações operadas em nome dos compromissos internacionais tiveram custos incomensuráveis: desemprego; saída de muitos portugueses do país; fragilização do Estado Social; desvalorização e precarização do trabalho; agudização das fragilidades estruturais de um país despido de futuro.
Espera-se, assim, ansiosamente por qualquer coisa diferente; por qualquer coisa que não seja nem Pedro Passos Coelho, nem Paulo Portas.
É neste contexto que aparece António Costa, mais uma ilusão, ainda assim dificilmente tão nefasta quanto a que ainda lidera os destinos do país.
Ao longe, um Presidente da Repúblico, agindo como aquele senhor de idade avançada que simplesmente não quer chatices, mas que, não raras vezes, age de forma insidiosa.
E é isto que temos até finais de 2015 – ao que tudo indica –, graças ao tal Presidente da República, o homem que não se está para chatear, nem tão-pouco para chatear parte da casta que ainda beneficia das políticas do Governo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Se o arrependimento matasse...

...Passos Coelho não morreria desse mal. O primeiro-ministro não é um homem de arrependimentos, veja-se o caso de Nuno Crato, ministro da Educação. Depois de alegadamente o ministro da Educação ter colocado o seu lugar à disposição, o primeiro-ministro que não aceitou essa demissão ainda reitera a sua confiança no ministro.
Escusado será dizer que a abertura do ano lectivo foi desastrosa e continua a ser desastrosa. Todavia, esse desastre é uma questão de somenos na óptica do primeiro-ministro, alguém que não abdica da imagem de líder inabalável, não manifestando nem fraquezas, nem arrependimentos.
É claro que a aparente incompetência do Governo não deixa de servir os propósitos do Executivo, designadamente o enfraquecimento dos serviços públicos. Tarefa que Passos Coelha espera continuar depois de 2015.
Com efeito, Passos Coelho não tem razões para se arrepender. O Estado Social é enfraquecido a cada dia que passa; a desvalorização salarial e a precariedade no emprego consolidam-se a cada dia que passa; as privatizações trouxeram vantagens à Casta nacional e internacional.
Passos Coelho não é um homem de arrependimentos, nem tem de sê-lo, até porque não tem razões para tal, antes pelo contrário, os seus objectivos têm sido atingidos. A esperança reside no tempo que ainda lhe resta e a julgar pelas intenções de voto esse tempo é manifestamente escasso.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Reestruturação da dívida

A dívida é o maior problema do país e, no entanto, a sua discussão é quase inexistente. Os partidos do arco da governação fogem da discussão como o diabo da cruz. PSD e CDS nem querem ouvir falar de uma hipotética reestruturação da dívida e o PS, com António Costa, já manifestou algumas alergias relativamente ao assunto.
Assim, a dívida é assunto que não tem direito a discussão precisamente porque qualquer discussão tem de abordar duas questões: a dívida é impagável e urge reestruturar a dívida. Como? De que forma? Essas são as questões que se seguem ao reconhecimento da impossibilidade de pagar a dívida e a necessidade de reestruturá-la.
Fala-se muito de divida pública, mas a dívida externa (pública e privada) ascende aos 300 mil milhões de euros: um colosso que inviabiliza qualquer futuro para o país.
Ainda antes de se pensar em reestruturar a dívida, importa perceber que dívida é esta. Assim nasceu a Auditoria Cidadã à divida promovida por um grupo de trabalho conhecido por IAC. Os constrangimentos foram mais que muitos, mas a iniciativa é determinante para se abordar o tema da dívida. Há dívida ilegítima? Qual? O caso da compra dos submarinos é apenas um exemplo de divida contraída à revelia dos interesses do país.
Hoje, dia 22, é discutida no Parlamento uma petição levava a cabo pela Iniciativa por uma Auditoria Cidadã à Dívida e que contou com o apoio de milhares de cidadãos. A petição designada por Pobreza Não Paga a Dívida/ Renegociação Já” será assim discutida. Conhecidas as posições dos partidos da maioria – rejeição de qualquer reestruturação ou renegociação e conhecidas também as posições dos partidos à esquerda do PS (Bloco favorável à reestruturação, PCP mais próximo das posições que defendem a saída do Euro), fica a curiosidade de ver até que ponto o Partido Socialista procurará uma clarificação ou manter-se-á refém da ambiguidade e da subsequente indefinição.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Hong Kong e a luta pela democracia

Ou melhor: Hong Kong e a luta pela democracia, uma luta desprezada pelo mundo.
De facto, luta do Occupy Central não têm sido ignorada pela comunicação social, embora essa cobertura seja enviesada ou superficial. A luta pelas liberdades; a luta contra o aumento das desigualdades que têm crescido exponencialmente (inexistência de subsídios de desemprego, pensões, as quase 50 horas de trabalho semanal, o preço astronómico da habitação) e a luta pela democracia acabam por ser tópicos abordados de forma superficial. Insiste-se ao invés na enfatização da desobediência civil – uma desobediência absolutamente justificada.
A comunidade internacional age como se nada passasse em Hong Kong. A direita (boa parte dela) tem na China um parceiro comercial incomensuravelmente importante, o que inviabiliza qualquer critica. A esquerda (parte dela) sente-se pouco à vontade com críticas à China, ignorando assim a importância da luta daqueles que, à semelhança de parte da esquerda, lutam pelo fim das desigualdades, pelas liberdades, pela autonomia política e pela democracia. As exigências são as mesmas, diferem apenas os contextos.
No cômputo geral, o que se está a passar em Hong Kong, embora tenha conseguido alguma visibilidade da comunicação internacional, superficial, mas ainda assim alguma visibilidade, está longe de conseguir arrancar uma critica ao regime chinês da parte da comunidade política internacional.
Assim, aqueles que pretendem uma democracia plena, que insistem na eleição directa do chefe de governo de Hong Kong que deixou de ser colónia britânica desde 1997, estão sozinhos. E nem a enviesada atenção da comunicação social os arrancará desse isolamento. A China quer manter o controlo absoluto sobre o governo de Hong Kong que por ter sido colónia britânica conta assim com uma margem maior de informação e movimento. Evitará certamente uma nova situação semelhante a Tiananmen, mas sem flexibilidade para mais. Paradoxalmente, uma repetição de Tiananmen seria exactamente aquilo que alguma comunicação desejaria.