quarta-feira, 10 de setembro de 2014

“António tu não foste solidário com o teu partido nem com o líder do teu partido”

A frase em epígrafe pertence a António José Seguro, é dirigida a António Costa e é paradigmática de um debate que consistiu essencialmente na lavagem de roupa suja entre os candidatos.
O debate começou bem com a troca de acusações e com um ataque cerrado de António José Seguro. Palavras como “deslealdade” e “traição” marcaram indelevelmente os primeiros minutos da entrevista/debate. António Costa preferia salientar o imperativo de consciência para justificar a sua candidatura. Ambos os candidatos revelaram uma acentuada dificuldade em lidar com o passado do partido. José Sócrates, naturalmente ausente, esteve, paradoxalmente, presente.
Quanto à tão desejada clarificação de posições, pouco se adiantou. António Costa referiu um discurso alternativo que na realidade nem ele possui e quanto a assuntos incontornáveis como a questão do Tratado Orçamental proferiram-se frases vagas, com uma referência de António Costa a declarações do novo Presidente da Comissão Europeia sublinhando a necessidade de se fazer “uma leitura flexível e inteligente” do referido Tratado. Para além da também necessidade de prudência, pouco mais foi adiantado sobre esta questão essencial para o futuro do país.
Relativamente à carga fiscal, António José Seguro garante não aumentar impostos, sob pena de se demitir e António Costa prefere falar novamente na necessidade de se adoptar uma postura prudente.
Finalmente, colocou-se a questão sobre hipotéticas alianças. Seguro recusa coligar-se com quem desmantela o Estado Social e insiste em privatizações, prometendo paralelamente levar a possibilidade de alianças a referendo; Costa aparentemente rejeitou a possibilidade de se coligar com PSD e CDS, referindo a necessidade de se afirmar como alternativa.
De um modo geral, manteve-se a ausência de clarificações. Tivemos mais do mesmo, ou seja quase nada. E hoje temos o segundo round.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Partido Socialista: a escolha da forma

As quezílias internas do Partido Socialista, com António José Seguro e António Costa no papel de protagonistas, traduzem-se novamente na escolha da forma em detrimento da substância.
As trocas de acusações, amiúde sem referências ao nome de cada um dos candidatos, o pagamento inusitado de quotas por atacado e a confusão em torno daquilo que cada um dos candidatos pretendem para o país marcam indelevelmente esta campanha interna.
Os debates estão à porta e não auguram nada de positivo, a julgar pela atitude dos candidatos. O partido que procura ser a alternativa é tudo menos uma alternativa. De resto, todos suspeitam que vem aí mais do mesmo, talvez com algumas mudanças ténues na intensidade da dor infligida. António Costa que apenas mostrou não querer marcar posição sobre os assuntos incontornáveis da vida do país até elege Rui Rio como o adversário à altura.
Os vencedores desta equação que se traduz na escolha da forma em detrimento da substância são os partidos do governo que, em circunstâncias normais, teriam quedas mais significativas nas intenções de voto. E são demasiadas as vezes que a comunicação social nos entretém com as tricas internas do PS, afastando o Governo e as suas políticas do centro das atenções.
No PS todos começaram mal: António José Seguro, enclausurado por vontade própria numa gaiola metafórica, incapaz de se mostrar como alternativa, sai da gaiola tardiamente; António Costa, avançando de forma extemporânea e insidiosa, incapaz de revelar o que de facto pretende para o pais. Todos começaram mal e todos sabem quem é que nesta história vai acabar mal: o país, o mesmo que hoje vive preso entre o ónus da inevitabilidade e a indefinição deliberada.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A inevitabilidade do empobrecimento

Os últimos anos têm sido marcados por um discurso recorrente e que se traduz invariavelmente no peso da inevitabilidade do empobrecimento. De um modo singelo diz-se que nos portámos mal e que por isso agora somos obrigados a empobrecer. É assim que se ataca criminosamente pensões, salários e Estado Social de um modo genérico.
De fora deste discurso insidioso e das subsequentes acções fica qualquer renegociação séria em matéria de PPP's, swaps e afins. E qual seria essa poupança? De fora ficam os escritórios com advogados, assessorias sem fim, software (o Estado só neste particular poderia poupar mais de 100 milhões de euros recorrendo a software gratuito). De fora do discurso fica o dinheiro do BPN; de fora ficam as isenções fiscais a grandes empresas e ao sector financeiro num contexto em que o sistema fiscal é severamente injusto.
Entretanto conhecessem-se histórias aterradoras sobre instituições como o Banco de Portugal – histórias repletas de mordomias obscenas numa espécie de centro de recompensas para que quem tem coadjuvado na tarefa de destruir o país ou para quem é o filho da pessoa certa.
De fora do discurso que sublinha a inevitabilidade do empobrecimento ficam ainda o dinheiro injectado na banca, a reestruturação de uma dívida impagável que para ser pagável pressupunha um crescimento de 12 por cento ao ano, uma dívida que este Governo não tenciona reestruturar nem tão -pouco reclamar aquilo a que tem direito como a Grécia fez o dinheiro que o BCE ganhou com o resgate. De fora ficam, naturalmente, os custos incomensuráveis dos juros.
Empobrece-se porque nos portámos mal; empobrece-se porque tem de ser; empobrece-se porque é esse o único caminho. Para os descontentes haverá sempre a saída do país.
Na verdade e dito isto, a questão mais pertinente que se coloca é a seguinte: até quando insistiremos na escolha de quem defende interesses que não são os interesses dos cidadãos? Até quando?

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Erros e consequências

Os Estados Unidos não têm um passado recente marcado pelo sucesso das suas intervenções externas: Iraque, Líbia e Afeganistão são países mergulhados no caos e no caso particular do Iraque prestes a transformar-se num Estado radical caracterizado pela intolerância e pela barbárie.
Paralelamente, veja-se o caso da Síria e do apoio americano aos rebeldes que já contavam nas suas fileiras com os jihadistas que são hoje considerados a maior ameaça dos últimos anos no que toca ao extremismo religioso. Bashar al-Assad era o alvo a abater. Hoje considera-se um mal menor e até um hipotético aliado.
O Estado Islâmico domina boa parte do território iraquiano e do território sírio. A instauração do califado já foi anunciado e está em pleno desenvolvimento. A Administração Obama sofre pressões internas para responder de forma mais musculada.
O Iraque dominado pelo extremismo é sobretudo o resultado do falhanço americano; o Iraque dominado pelo extremismo é a consequência de uma intervenção militar americana sem qualquer sentido caracterizada pela ignorância, voracidade e arrogância. O resultado está à vista: um país partido em três, politicamente instável, com forças armadas corruptas e agora com parte importante do seu território no caminho de se tornar um Estado caracterizado pelo extremismo religioso.
Hoje discute-se uma escolha mais criteriosa dos aliados para dar resposta ao crescimento exponencial do Estado Islâmico. Importa encontrar esses aliados, mesmo entre os Curdos tantas vezes abandonados pelos Estados Unidos; com Bashar al-Assad considerado pela Administração americana um alvo a abater; e com o Irão, visto como inimigo de décadas dos Estados Unidos.
Todavia, parece evidente que sem essas alianças o combate ao extremismo religioso no Iraque e na Síria redundará novamente num falhanço, mas desta feita com consequências eventualmente ainda mais gravosas.
Pelo caminho, ficam os erros. Somos agora confrontados com as consequências, como de resto já fomos no passado.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Desigualdades

É consensual que as desigualdades cresceram as últimas décadas, com especial relevo para os últimos cinco anos. É a vitória do capitalismo de rédea solta que já não conta com a oposição do comunismo.
O fosso entre os mais ricos e os mais pobres aumentou de forma considerável nos Estados Unidos e na Europa; as classes médias saem enfraquecidas; a concentração de riqueza de uma escassa minoria remete-nos para outros tempos; a coesão social torna-se difícil; as democracias, genericamente associadas a pactos sociais, são abaladas por uma forma de capitalismo que deixa a descoberto as desigualdades fruto de constantes desvalorizações salariais que se agravaram nos últimos anos e que têm vindo a ser escamoteadas pelo outrora facilitismo no acesso ao crédito.
Pickett no seu famigerado livro “O Capital no século XXI” releva a Escandinávia como excepção onde os níveis de desigualdade são consideravelmente menores e alerta para os perigos da concentração de capital, sobretudo de capital herdado, mas chama também à atenção para os perigos do aumento das desigualdades questionando-se sobre até quando os mais desfavorecidos aceitarão esses níveis crescentes de desigualdade.
As sociedades mais justas são escassas e amiúde relegadas para um plano da utopia. Haverá quem seja acusado de perseguir utopias, vivendo desfasado da realidade. Continuaremos a ouvir esta e outras afirmações por parte daqueles que promovem, directa ou indirectamente as desigualdades. Por terras lusas encheram-nos com a ladainha da inevitabilidade. Resultou? Aparentemente sim.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Estado Islâmico

Atrocidades inefáveis caracterizam a actuação de um grupo jihadista que já referiu ter como objectivo a restauração do califado. Estado Islâmico (EI) ou ISIS – Islamic State of Iraq and Syria ou ainda Estado Islâmico do Iraque e do Levante são as designações do grupo que reclama a necessidade de um regresso às verdadeiras origens do Islão, recusando em absoluto o Islão moderno.
Conquistam com acentuada celeridade e eficiência parte do território iraquiano e parte do território sírio; praticam actos atrozes contra aqueles que se desviam da sua concepção religiosa; assassinam, violam, perseguem. Dois jornalistas americanos foram cruelmente assassinados. Nas regiões controladas pelo grupo é imposta a Sharia e registam-se casos de conversões forçadas. O grupo apregoa e luta por um mundo “limpo” e “puro”.
Estados Unidos respondem com ataques cirúrgicos no Iraque, apoiando em simultâneo curdos e xiitas, a Alemanha declarou o seu apoio também material, através de armamento, aos Curdos, e o Irão, de maioria xiita, olha com apreensão para a situação no vizinho Iraque.
O grupo sunita surge como sucessor da Al-Qaeda e muitos consideram tratar-se de uma ameaça ainda maior. A capacidade financeira do grupo tem vindo a crescer: suspeita-se de apoios sauditas e sabe-se que a conquista de terras ricas em petróleo tem permitido um financiamento que resulta da venda desse recurso no mercado negro. A consequência é evidente: o aumento da capacidade destrutiva dos jihadistas do EI.
Paralelamente, a corrupção que grassa nas forças militares iraquianas a par da fragilidade de todas as estruturas do próprio Estado iraquiano facilitaram a vida ao Estado Islâmico. As divisões entre sunitas, xiitas e curdos compõe o cenário. Os Yazidi, de origem curda, têm conhecido de perto a violência dos jihadistas do Estado Islâmico.
Apesar da violência e talvez, em parte devido a essa violência, muitos, incluindo cidadãos europeus, vêem interesse em se juntar às fileiras do EI – motivo de preocupação acrescida para os responsáveis políticos europeus e americanos.
Depois de se considerar Bashar al-Assad um ditador a abater e apesar dos avisos que chamavam a atenção para o recrudescimento do radicalismo na Síria entre os rebeldes que combatiam o regime de Bashar al-Assad, a “comunidade internacional” olha chocada para uma realidade que infelizmente se repete: a disseminação do radicalismo religioso.
Os confrontos entre o regime do Presidente sírio Bashar al-Assad e os rebeldes não cessaram e o Estado Islâmico encontra na Síria terreno fértil para a propagação das suas ideias. Não seria de estranhar que hoje o ditador Bashar al-Assad deixasse de ser o homem a abater. Temos assistido a estranhas alianças, esta seria estranhíssima, mas não será ainda assim totalmente descabida.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Tribunais sim, mas à distância

Para além do caos que se instalou na Justiça, com a deslocação de processos e com problemas informáticos que tornaram a Justiça ainda mais inacessível, este Governo decidiu encerrar mais tribunais, alegando que assim, de alguma maneira, a Justiça funcionará melhor. Os portugueses que vivem de perto o problema da desertificação, sobretudo no interior do país, vêem assim o seu isolamento aumentar exponencialmente.
O Jornal Público conta a história de quem tem de se deslocar de véspera ao Tribunal para assistir à sessão, ou então pernoitar num hotel. A revolta destas populações fica confinada às suas terras agora mais isoladas. Por outros lados, ouvir-se-á um queixume ou outro e nada mais.
Esta reforma, a par das outras idealizadas por este Governo e até certo ponto pelo anterior, tem como objectivo a poupança, à custa, como de resto tem sido habitual, do que resta de bem-estar das populações. Mais uma vez é mais fácil cortar nos mais fragilizados do que afrontar quem detém alguma espécie de poder. Não só é mais fácil mas também se trata de um imperativo ideológico. Se dúvidas persistem veja-se o caso das PPP's, Swaps, benefícios fiscais a grandes empresas e à finança, etc.
É por demais evidente, mas nunca é demais repeti-lo: este Governo está ao serviço de interesses que estão longe de se coadunar com os interesses dos cidadãos.
A Justiça é agora ainda mais inacessível. Tribunais sim, mas a uma distância cada vez maior das populações.