quinta-feira, 17 de julho de 2014

Acólitos

Todos os governos necessitam dos seus acólitos, responsáveis por coadjuvarem na missa. Este Governo de Passos Coelho e de Paulo Portas não é excepção. Importa contudo reconhecer que para ouvir e ler os acólitos que ajudam na missa do Executivo de Passos Coelho é preciso ter estômago.
Reconhecemos com facilidade os ditos acólitos: os mais ou menos especialistas, revestidos de uma presumível sapiência adorada pela comunicação social, dotados de uma moral inexpugnável; os acólitos que fazem parte de um jet set apodrecido; os que nos tempos mais áureos de Miguel Relvas, clamavam por empreendedores de bater punho e actos similares – um fiasco, apesar de tudo e, claro está, banqueiros fingidores: fingem não ser parte interessada e, mais grave, fingem nada ter a ver com a crise que convenientemente deixou de ser uma crise financeira para se tornar numa crise das dívidas soberanas. Os mesmos que vivem de rendas e de negócios ruinosos executados por políticos de pacotilha.
Aqueles que mais visibilidade conseguem são os especialistas assim-assim, graças à paixão que a comunicação social nutre por eles, classificados invariavelmente de especialistas naquela ciência social tão em voga – a economia. Entre estes contam-se inúmeras celebridades: José Gomes Ferreira, Camilo Lourenço e João César das Neves, só para dar alguns exemplos. Apologistas da tese da inevitabilidade procuraram justificar o injustificável. João César das Neves, em entrevista à Rádio Renascença afirmou que “é criminoso subir o salário mínimo” e que esse aumento acabaria por trazer “consequências dramáticas para os pobres”. Importa olhar para o mecanismo económico, diz o putativo economista. É preciso saber viver com uns míseros 485 euros ou, talvez, com uns 500 euros. Ou isso ou o desemprego. A retórica é invariavelmente a mesma.
Curiosamente o putativo economista, na mesma entrevista, criticou a situação no BES, chegando mesmo a afirmar que este caso se pode transformar “no maior escândalo financeiro da História de Portugal”. Ora, esta afirmação pode muito bem incomodar outros acólitos como é o caso evidente dos bancários, mas também dos pertencentes a um jet set apodrecido que gostam de brincar os pobrezinhos na Comporta e no raio que os parta.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Depois de empobrecer

O que existe depois de empobrecer? O que subsiste depois de um empobrecimento vendido em conjunto com a ausência de alternativas? O que sobrevive a esse empobrecimento fruto do facto de termos vivido acima das nossas possibilidades?
O primeiro-ministro, forte defensor do empobrecimento e exímio executante desse mesmo empobrecimento tem agora uma prioridade: apoio à natalidade. Segundo o primeiro-ministro importa agora “retirar obstáculos à natalidade”.
Assim, o primeiro-ministro e os seus acólitos sugerem trabalho em part-time com vencimento, durante um ano, a 100 por cento, reduções em matéria fiscal e em tarifas municipais, um passe familiar, etc. Sob os escombros Passos Coelho lembra-se que um país é feito de pessoas; isto depois do já referido empobrecimento como panaceia para todos os problemas do país; depois do incentivo directo e inequívoco à saída de jovens do país; depois de mais de um milhão de desempregados (incluindo os que já desistiram de procurar emprego e os muitos milhares que estão envolvido em acções de formação e afins, convenientemente retirados das listas); depois dos cortes em salários e pensões; depois de um aumento “brutal” de impostos; depois de ter despido o país de qualquer estratégia, Passos Coelho, num rasgo de demagogia para a qual nem sequer tem jeito, fala de um país de pessoas.
Aquele que corta, sem apelo nem agravo, em pensões, salários, apoios sociais, saúde e educação, mas não olha a meios para beneficiar aquele um por cento que detém um quarto da riqueza do país, coadjuvado por uma Europa que defende os interesses da mesma casta, vem agora falar na importância da natalidade. Aquele que foi protagonista na destruição do país, fala agora na sua reconstrução. Seria caso para rir...

terça-feira, 15 de julho de 2014

Malabarismos

Os malabarismos, sobretudo no que diz respeito a números, não é uma prática estranha aos governos, mas o actual Executivo está muito à frente dos seus antecessores. Porventura o melhor exemplo de malabarismo com números prende-se com os dados do desemprego. Procura-se um equilíbrio inexistente.
De resto, todos já ouvimos responsáveis governativos apregoarem uma pretensa redução do número de desempregados – um dos sucessos (?) deste Governo.
Ora, alguns jornais dão indicação da existência de 162 mil desempregados escondidos, invariavelmente envolvidos em acções de formação e outras “acções”. Estes subterfúgios aumentaram mais de 60 por cento desde 2013. Se a isto somarmos aqueles que desistiram de procurar activamente emprego, somos confrontados com números assustadores, mas reais.
Este malabarismo, para me socorrer de um eufemismo, junta-se a um vasto rol de mentiras como o caso recente de uma pretensa redução da pobreza e das desigualdades, quando estes números, de que o primeiro-ministro se vangloriou, eram referentes a um período em que José Sócrates era primeiro-ministro.
O país empobreceu – tem sido esse o desígnio do primeiro-ministro e do seu séquito. Por muito que Passos Coelho afirme estar-se nas “tintas” para eleições, a verdade é bem diferente. São necessários malabarismos; a mentira torna-se um imperativo não exclusivo às campanhas eleitorais.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A esquerda e os desentendimentos

É sobejamente conhecida propensão da esquerda para os desentendimentos. Tem sido assim ao longo dos tempos. Em bom rigor, também é natural que em democracia, num contexto onde impera a pluralidade de opinião, as diferenças sejam preponderantes.
Contudo, há um factor que tem contribuido para a divisão das esquerdas e esse factor prende-se com a propensão que os partidos ditos socialistas e outros partidos de esquerda têm para se render aos interesses que unem os partidos de direita. Em Portugal passa-se o mesmo. E os partidos que permanecem fiéis aos ideiais de esquerda desentendem-se.
Veja-se o caso do Bloco de Esquerda: os últimos resultados eleitorais foram um desastre e as cisões internas continuam a fazer o seu caminho, existindo quem deseje uma união à esquerda e quem rejeite em absoluto essa possibilidade. Ana Drago foi a mais recente baixa no Bloco de Esquerda. E partidos como o Livre arriscam-se a conquistar eleitores que outrora votavam no Bloco de Esquerda.
 A candidatura de António Costa no PS veio baralhar ainda mais as contas. Na verdade, Costa já referiu que o PS não apita à direita ou à esquerda, embora também tenha sublinhado a importância do PS não descartar as possibilidades que estão no horizonte, incluindo movimentos de cidadãos - à semelhança do que se passa em Lisboa.
O certo é que as divisões da esquerda só resultam numa vitória da direita. A confusão, a ausência de ideias e de alternativas, a incapacidade de se ultrapassar pequenos e grandes egos aborrece os eleitores e enfraquece os partidos de esquerda. A excepção é, inquestionavelmente, o PCP.
Enquanto a esquerda não se entender, em Portugal, como no resto da Europa, os partidos de direita encontram caminho aberto para procederem a profundas transformações nas sociedades europeias. Esse é outro facto incontornável.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Escalada de violência

O assassínio de três adolescentes israelitas na Cisjordânia deu origem a uma escalada de violência naquela região do médio-oriente. Israel respondeu a este crime detendo vários membros do Hamas - visto como responsável pelo crime. Poucos dias depois, um jovem palestiniano foi assassinado, alegadamente queimado vivo. As semanas que se seguem são marcadas por bombardeamentos aéreos israelitas, aparentemente como resposta ao lançamento de rockets pelo Hamas. O resultado: dezenas de civis mortos em Gaza.
Para agravar a situação já por si muito grave, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu dá ordens para "endurecer" os ataques, não estando mesmo afastada a hipóteses de uma ofensiva terrestre em Gaza.
Com efeito, persiste uma dificuldade em perceber de que forma se pune um crime hediondo - indubitavelmente - com a fustigação de todo um povo. O assassínio dos três jovens israelitas é atroz, mas nada se resolve punindo todo um povo pelo crime. O resultado está à vista e traduz-se numa escalada de violência que vem trazer mais instabilidade numa região historicamente instável. Israel insiste num desprezo pelas Resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Estados Unidos e UE parecem conviver bem com esse desprezo. Israel insiste em ignorar o imperativo de abandonar o território da Cisjordânia e Jerusalém oriental; insiste na construção e expansão de colonatos e ignora reiteradamente a necessidade da criação de um Estado Palestiniano (com fronteiras de 1967). Assim, a paz na região é simplesmente uma impossibilidade.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Mentira

Por aqui se tem sublinhado a ligeireza com que o Governo tem exercido o seu mandato: o primeiro-ministro e os seus acólitos não se sentem impelidos a dar satisfações aos cidadãos; tudo cai na mais abjecta impunidade; vivemos no país da inconsequência; vale tudo; etc.
É evidente que a mentira não podia ficar de fora, sobretudo porque se vive o já referido contexto de impunidade. Agora Passos Coelho gabou-se de um feito: nos seus anos de governação a pobreza diminuiu. Mentira. Não existe outro termo, trata-se de uma mentira. Passos Coelho usa números referentes ao mandato de José Sócrates para justificar uma pretensa diminuição da pobreza. A notícia é do jornal Expresso e diz claramente o seguinte: “Passos usou dados de 2011 para dizer que a pobreza baixou”. Contudo, os dados do INE dizem outra coisa: a pobreza aumentou – voltamos a números de 2005 – e as desigualdades também aumentaram.
A propósito da apresentação do relatório da OCDE, encomendado pelo próprio Governo, Passos Coelho fez um rasgado elogio ao trabalho desenvolvido nos últimos anos e chega mesmo a sublinhar a diminuição da pobreza e da desigualdade. Os números que servem de base à avaliação do primeiro-ministro dizem respeito ao período entre 2007 e 2011. Espera-se agora que o primeiro-ministro não só apresente as suas desculpas como dê os parabéns a José Sócrates, primeiro-ministro na altura em que a pobreza e as desigualdades, de facto, diminuíram.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A verdadeira natureza de um governo


O governo italiano apresentou uma proposta no sentido de aligeirar o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) com vista à recuperação das economias.
Um país como Portugal só teria a ganhar com uma maior flexibilização das regras do PEC; uma flexibilização que contribuiria para o crescimento da economia portuguesa, e embora ainda não se saiba exactamente quais as medidas em concreto, a ideia de aligeirar o PEC - que mais não tem sido do que um óbice ao desenvolvimento, sobretudo das economias periféricas - só poderia trazer vantagens para um país como Portugal.
Não é este o entendimento do Governo português. O Executivo de Passos Coelho volta a mostrar a sua verdadeira natureza: os interesses deste Governo não são os interesses do país; dito por outras palavras, importa sim defender a cartilha ideológica que pugna por regras inflexíveis, pela exiguidade das funções do Estado, pela primazia dos credores, ao mesmo tempo que se cria mais dívida e pelo empobrecimento colectivo - uma cartilha que apenas produz mais pobreza e mais desigualdade.
A verdadeira natureza deste Governo torna-se assim bem visível. Nunca se colocou em causa o modelo de austeridade, não se põe em causa o misto de neoliberalismo e ordoliberalismo que domina a Europa, mesmo que este misto seja trágico para os interesses do país. Pode falar-se em legítimidade democrático de um Governo que não está claramente ao serviço dos seus cidadãos? Pode falar-se em legitimidade de um Governo que nada faz para salvaguardar o bem comum? Não é essa a essência da política?
O Governo português, através da ministra das Finanças, recusa flexibilizar o PEC - um verdadeiro óbice à recuperação da economia portuguesa. Quem sonha com qualquer espécie de união entre países que se encontram em situação semelhante que se desengane. Esta é a verdadeira natureza do Governo português e eles não precisam de esconder essa natureza, nem tão-pouco necessitam de recorrer à arte da dissimulação, por uma razão muito simples: por aqui está provado que tudo é aceitável.