sexta-feira, 4 de julho de 2014

Surpresas desagradáveis

Ninguém aprecia surpresas desagradáveis: um despedimento, uma despesa suplementar, um acidente, o banco BES necessitar de uma “ajudinha” do Estado. Afinal de contas, todos nos lembramos da “ajuda” que o Estado deu ao famigerado BPN.
Dir-se-á que a possibilidade do BES necessitar de um empurrão do Estado é remota. O que a perspetiva empírica nos diz é que ficamos sempre a perder quando se trata de um banco.
De resto, a agitação em torno do BES tem sido considerável. Todos vêm a público mostrar que está tudo sob controlo: o Governo que pretende mostrar que nada tem a ver com o assunto; comentadores e reguladores dizem estar tudo bem, ou que vai ficar tudo bem. A frase mais ouvida é: “a situação financeira do BES é sólida. O mais recente aumento de capital reforçou a posição do banco”, etc, etc.
Por outro lado, O Citigroup pinta um cenário menos positivo, falando em perdas potenciais de mais de quatro mil milhões de euros...
Pensando melhor, vamos ser mais optimistas e considerar que todo este problema está nas mãos de pessoas que não só têm preocupações com as suas empresas, mas também com a sociedade no seu conjunto. Vamos todos pensar positivo e esquecer esta história das surpresas desagradáveis, afinal de contas estamos em boas mãos: banqueiros, Governo, reguladores. Vamos todos pensar positivo, todos: desempregados, funcionários públicos, pensionistas e cidadãos mais ou menos esmifrados.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Nem carne nem peixe

Secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, acusou no passado o PS de não ser nem carne nem peixe. Tem razão. E nada parece mudar. Agora é a vez de António Costa, ainda candidato, a afirmar que o PS não pisca nem à direita, nem à esquerda. A história do símbolo do PS, o punho fechado, símbolo que ainda lembra a esquerda, etc, já lhe passou. Talvez tenha sido dispepsia ou até mesmo obstipação. Seja como for, nessa mesma ocasião Costa relembrou que os "adversários estão lá fora". Discordo, os adversários são internos e, em alguns casos, os adversários podem ser mais internos do que parecem: os adversários podem mesmo estar "dentro" do próprio António Costa. Aqui não encontramos explicação em hipotéticas maleitas digestivas, mas sim numa crise de identidade que perpassa todo o Partido Socialista.
Costa aprofundou a sua teoria de "piscadelas": o PS "é um partido que se dirige a todos os portugueses", então por essa razão abdica de se posicionar ideologicamente. E tem sido precisamente esse o problema central do partidos socialistas e sociais-democratas na Europa.
Por conseguinte, a ideia de alguns que visava uma hipotética união entre partidos da esquerda não se aplica ao caso do PS, desde logo porque esta indefinição reforçada por António Costa abrange praticamente todo o Partido Socialista. Assim, qualquer união dos partidos de esquerda não poderá contar com o PS demasiado comprometido com um sistema descredibilizado em larga medida por sua própria culpa.
O PS não é de facto nem carne nem peixe, trata-se apenas de qualquer coisa que vai apodrecendo ao longo do tempo que acompanha outra coisa em avançado estado de putrefacção chamado PSD.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A crise e a saúde dos portugueses

O relatório de Primavera 2014 do Observatório Português dos Sistemas de Saúde é muito claro: as políticas do Governo têm efeitos nefastos na saúde dos portugueses. Segundo quem elaborou o relatório há no Governo uma “síndrome de negação”.
Com efeito, as políticas de consolidação orçamental, pejadas de austeridade, têm fustigado todos os pilares do Estado Social. A Saúde não é, obviamente, uma excepção. Aliás, na Grécia um dos pilares do Estado Social mais afectados pelas doses cavalares de austeridade foi precisamente a saúde. Neste particular, a Grécia recuou décadas. Ou seja a saúde dos cidadãos piorou e as respostas do sistema de saúde acompanhou essa degradação. Em Portugal passa-se o mesmo.
O estudo em epígrafe aborda questões de equilíbrio emocional como a depressão, a ansiedade, o desespero – problemas que não podem ser dissociados das receitas de austeridade. Refere-se ainda um conjunto de sinais inquietantes: aumento considerável do consumo de antidepressivos, hipnóticos e antipsicóticos e ainda o aumento de crianças com baixo peso à nascença.
Sabemos que o resultado dessas receitas traduz-se na desvalorização salarial, no aumento da precariedade laboral e no enfraquecimento do Estado Social, de uma forma genérica. É indubitável que existem consequências na saúde de quem se vê forçado a viver estas contingências. A angústia que toma conta das vidas de tantos cidadãos nunca inquietou quem governa. Os cidadãos vivem privados de uma ideia de futuro, governados por quem apenas tem para oferecer incompetência, uma ideologia nefasta e uma aterradora insensibilidade social. O relatório de Primavera 2014 do Observatório Português dos Sistemas de Saúde é mais uma confirmação daquilo que sabemos e sentimos.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Califado

O grupo jihadista ISIS que controla uma parte significativa do território iraquiano anunciou o regresso do califado nos territórios sob a sua ocupação. Com este anúncio o grupo procura consolidar o seu domínio na região, pondo em causa lideranças políticas e até a hegemonia de grupos extremistas como o caso da Al-Qaeda. Deste modo, o extremismo pode agrupar-se junto do ISIS e do recente califado.
A instauração do califado tem, recorde-se, um forte significado para a comunidade sunita, representando inevitavelmente mais uma fonte de preocupação para os xiitas. Importa não esquecer as divisões entre sunitas e xiitas e que essas divisões assentam na descendência do profeta Maomé: os xiitas consideram Ali o verdadeiro sucessor de Maomé; os sunitas defendem que a legitimidade da sucessão está nos califas. O califado tem associado a sharia como lei da umma ou da comunidade islâmica. Sharia que é lei basilar desta forma de governo: o califado. O grupo que agora instaurou o califado tem uma actuação que assenta precisamente nestas premissas que nos remetem para toda a espécie de anacronismos. O califado é um regresso às origens; o califado anunciado por este grupo jihadista pretende, para já, instalar-se no Iraque e na Síria. Mas como sabemos o califado já foi muito mais abrangente, englobando parte da Europa, designadamente a península ibérica.
Há quem apregoe que esta mais não é do que uma manobra de publicidade do grupo. De qualquer modo, importa não subestimar as intenções de um grupo que já dominou parte do Iraque e que pode arrebanhar outros grupos extremistas, sobretudo agora que confere nova importância ao seu movimento com o anúncio do califado. Haverá quem sonhe há muito com o califado.
O Irão – xiita – olhará com alguma preocupação para estes desenvolvimentos, mas em bom rigor, toda a actuação do grupo jihadista ISIS, sobretudo com a conquista de importantes cidades iraquianas, será fonte de preocupação suficiente quer para as autoridades iranianas, quer para a comunidade internacional.
O certo é que a mais recente intervenção militar americana no Iraque ficou muito longe de criar alguma estabilidade num território extraordinariamente volátil.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Unidade

António Costa, candidato das primárias do PS. enfatizou a unidade do partido, recorrendo a manifestações de punho fechado como símbolo da unidade do partido, referindo também que os adversários “estão lá fora”.
Percebe-se a intenção do candidato que procura unir o que está desunido. A referida unidade não existe, nem no PS, nem na esquerda no sentido mais genérico. Unidade só se encontra de facto na direita, em Portugal e não só.
No caso concreto do PS é a desunião que o caracteriza, com episódios mais ou menos acesos, uma desunião que durará pelo menos mais quatro meses. Quem ganha são os partidos do Governo que não conhecem – como de resto não conheceram nos últimos três anos – adversário à altura. O que não deixa de ser curioso: o Governo mais medíocre da história de democracia portuguesa nunca chegou a conhecer um adversário à altura, apesar dos esforços dos partidos mais à esquerda do PS que está confinados a uma dimensão que não lhes permite fazer muito mais do que aquilo que têm feito. Isto diz muito da liderança de António José Seguro que nunca foi verdadeiramente oposição.
Quanto à unidade interna que Costa apregoa, mesmo a concretizar-se poderá não ser suficiente para fazer frente aos partidos que compõem o Governo. Essa unidade, por muito que seja difícil, ter-se-á de se alargar a outros partidos de esquerda.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Natalidade

Poucos dias depois da notícia que dava conta da existência de empresas que exigem um compromisso das suas trabalhadoras em como estas não engravidarão em cinco anos, Pedro Passos Coelho propõe que a natalidade seja uma prioridade europeia.

Hipocrisia? Indiscutivelmente. Eleitoralismo? Muito provavelmente.

Existe uma multiplicidade de factores que explicam os baixos níveis de natalidade em Portugal e noutros países. Mas existem alguns que condicionam severamente as taxas de natalidade: o desemprego e a precariedade laboral. Desse ponto de vista, as responsabilidades são de um governo cujas políticas redundaram em elevados níveis de desemprego e no aumento exponencial da precariedade laboral. O futuro e a natalidade são indissociáveis. O conceito de futuro tem vinda a definhar e projectos de vida como ter filhos é adiado ou até esquecido.

A precariedade laboral – hoje plenamente banalizada – alimenta a existência de práticas como aquelas relatadas pela notícia que dá conta de empresas que exigem que as suas trabalhadores não engravidem durante cinco anos. Estas práticas não são alheias a uma ideologia que subjaz às políticas do Governo e que enfraquece o trabalho no seu sentido mais lato.

Ora, Passos Coelho vir agora falar na importância da natalidade chega a ser ridículo. Enfim, depois de tantas emoções futebolísticas, estas e outras notícias acabaram por passar despercebidas.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Pássaro fora da gaiola

António José Seguro aparece agora menos contido, em entrevista à rádio Renascença, o líder do PS afirma sentir-se um pássaro fora da gaiola. Menos cioso da paz do partido, Seguro diz o que lhe vai na alma.
Na mesma entrevista confessa que não assinaria o memorando de entendimento assinado pelo seu antecessor José Sócrates. Contudo, o secretário-geral do PS mostra-se menos veemente no que se refere ao Tratado Orçamental que contou com a sua complacência e aprovação. Nesta questão em particular António José Seguro continua a titubear.
Na verdade, o homem que agora revela sentir-se um pássaro fora da gaiola mudou claramente de estratégia, tendo sido forçado a tal desde o momento em que entrou outra variável na equação: António Costa. E agora quer mostrar uma liberdade inusitada que pode bem já vir tarde. De resto, trata-se de uma liberdade condicionada pelo discurso dos partidos do centrão; um discurso muito longe de qualquer ruptura que permita criar verdadeiras alternativas.
Seguro afirma sentir-se um pássaro fora da gaiola, mas insiste num canto tão baixinho que se torna inaudível. Na verdade ninguém o ouve e por isso tanto faz estar dentro como fora da gaiola.