segunda-feira, 30 de junho de 2014

Unidade

António Costa, candidato das primárias do PS. enfatizou a unidade do partido, recorrendo a manifestações de punho fechado como símbolo da unidade do partido, referindo também que os adversários “estão lá fora”.
Percebe-se a intenção do candidato que procura unir o que está desunido. A referida unidade não existe, nem no PS, nem na esquerda no sentido mais genérico. Unidade só se encontra de facto na direita, em Portugal e não só.
No caso concreto do PS é a desunião que o caracteriza, com episódios mais ou menos acesos, uma desunião que durará pelo menos mais quatro meses. Quem ganha são os partidos do Governo que não conhecem – como de resto não conheceram nos últimos três anos – adversário à altura. O que não deixa de ser curioso: o Governo mais medíocre da história de democracia portuguesa nunca chegou a conhecer um adversário à altura, apesar dos esforços dos partidos mais à esquerda do PS que está confinados a uma dimensão que não lhes permite fazer muito mais do que aquilo que têm feito. Isto diz muito da liderança de António José Seguro que nunca foi verdadeiramente oposição.
Quanto à unidade interna que Costa apregoa, mesmo a concretizar-se poderá não ser suficiente para fazer frente aos partidos que compõem o Governo. Essa unidade, por muito que seja difícil, ter-se-á de se alargar a outros partidos de esquerda.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Natalidade

Poucos dias depois da notícia que dava conta da existência de empresas que exigem um compromisso das suas trabalhadoras em como estas não engravidarão em cinco anos, Pedro Passos Coelho propõe que a natalidade seja uma prioridade europeia.

Hipocrisia? Indiscutivelmente. Eleitoralismo? Muito provavelmente.

Existe uma multiplicidade de factores que explicam os baixos níveis de natalidade em Portugal e noutros países. Mas existem alguns que condicionam severamente as taxas de natalidade: o desemprego e a precariedade laboral. Desse ponto de vista, as responsabilidades são de um governo cujas políticas redundaram em elevados níveis de desemprego e no aumento exponencial da precariedade laboral. O futuro e a natalidade são indissociáveis. O conceito de futuro tem vinda a definhar e projectos de vida como ter filhos é adiado ou até esquecido.

A precariedade laboral – hoje plenamente banalizada – alimenta a existência de práticas como aquelas relatadas pela notícia que dá conta de empresas que exigem que as suas trabalhadores não engravidem durante cinco anos. Estas práticas não são alheias a uma ideologia que subjaz às políticas do Governo e que enfraquece o trabalho no seu sentido mais lato.

Ora, Passos Coelho vir agora falar na importância da natalidade chega a ser ridículo. Enfim, depois de tantas emoções futebolísticas, estas e outras notícias acabaram por passar despercebidas.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Pássaro fora da gaiola

António José Seguro aparece agora menos contido, em entrevista à rádio Renascença, o líder do PS afirma sentir-se um pássaro fora da gaiola. Menos cioso da paz do partido, Seguro diz o que lhe vai na alma.
Na mesma entrevista confessa que não assinaria o memorando de entendimento assinado pelo seu antecessor José Sócrates. Contudo, o secretário-geral do PS mostra-se menos veemente no que se refere ao Tratado Orçamental que contou com a sua complacência e aprovação. Nesta questão em particular António José Seguro continua a titubear.
Na verdade, o homem que agora revela sentir-se um pássaro fora da gaiola mudou claramente de estratégia, tendo sido forçado a tal desde o momento em que entrou outra variável na equação: António Costa. E agora quer mostrar uma liberdade inusitada que pode bem já vir tarde. De resto, trata-se de uma liberdade condicionada pelo discurso dos partidos do centrão; um discurso muito longe de qualquer ruptura que permita criar verdadeiras alternativas.
Seguro afirma sentir-se um pássaro fora da gaiola, mas insiste num canto tão baixinho que se torna inaudível. Na verdade ninguém o ouve e por isso tanto faz estar dentro como fora da gaiola.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Conformem-se

Cavaco Silva, figura apologista de silêncios ensurdecedores, decidiu proferir algumas palavras sobre o Tratado Orçamental, talvez para fazer um brilharete junto do Presidente alemão em visita oficial ao país. Na verdade qualquer um de nós procura ser o melhor anfitrião possível, mas o Presidente português não precisava de ir tão longe.
Cavaco Silva que nada diz sobre as trapalhadas em redor das políticas do Governo, sobretudo em matéria constitucional, afirmou que é uma “ilusão” pensar que as regras poderão ser alteradas, referia-se, claro está, ao Tratado Orçamental – aquele que nos impõe uma política económica alheia aos ciclos económicos, indiferente relativamente às necessidades da economia portuguesa, um tratado cozinhado pela Alemanha e que serve os interesses da Alemanha. Conformem-se, disse Cavaco Silva. Não há nada a fazer; aguentem o peso da inevitabilidade. O discurso é velho, mas tem sido eficaz.
Costuma-se dizer que dos fracos não reza a história. O que terá a história para dizer de figuras como Cavaco Silva?

terça-feira, 24 de junho de 2014

Silly season

A silly season aproxima-se. Trata-se daquela época do ano – tipicamente no Verão - em que a comunicação social aprofunda a sua propensão para a frivolidade, repetindo incessantemente exercícios de estupidificação. Os programas de televisão tornam-se mais coloridos e o que resta da comunicação social escrita multiplica
os artigos sobre praias e férias. Faz parte.
Todavia, esta silly season que se aproxima será indubitavelmente diferente das últimas. A novela interna do PS será a responsável por um Verão consideravelmente diferente do que temos visto nos últimos anos. E se dúvidas existissem... bom, os episódios em Ermesinde, marcados por vaias e impropérios dirigidos a António Costa encarregam-se de dissipar quaisquer dúvidas.
Assim, teremos um Verão marcado por querelas internas, lutas por lugares e alguma brejeirice à mistura. A politiquice no seu melhor. Quem é que disse que a silly season era um período aborrecido?

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Política no seu pior

À saída da comissão política do PS, o candidato António Costa foi vaiado por apoiantes de António José Seguro. Esta não terá sido a primeira manifestação de desentendimento no seio de um partido dividido e sem alternativas. Discute-se e apoia-se veementemente uma das duas figuras. Ideias alternativas essas parecem ser uma questão de somenos.
Costa e Seguro são pessoas diferentes, não tenho dúvidas. Tenho dúvidas sim, e muitas, no que diz respeito a qualquer coisa semelhante a uma alternativa credível às políticas seguidas por PSD e CDS, quer de um, quer de outro. De resto, nem tão-pouco acredito que qualquer alternativa possa vir dos partidos do chamado arco da governação. São partidos demasiado comprometidos com o poder económico e subjugados a esse poder; por outro lado, estes são partidos herméticos e avessos a qualquer mudança que possa incomodar esse poder económico. A promiscuidade entre poder político e poder económico caracterizam estes partidos, consequentemente as pretensas alternativas são meros paliativos que nada resolvem.
Entretanto, assistiremos durante mais três meses a querelas internas no PS, querelas que o enfraquecem e que se sobrepõem a qualquer discussão ideológica. O que se viu em Ermesinde, com António Costa a ser alvo de vitupérios, é uma pequena amostra da política no seu melhor, perdão, no seu pior: quezílias sobre pessoas, ausência de ideias, lugares cobiçados, nada mais do que isto.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O Reinado

Não, este texto não visa tratar a coroação do Rei Filipe VI de Espanha, embora reconheça que o assunto que me proponho tratar seja igualmente desinteressante.
O jornal Público na sua versão online utilizou a seguinte manchete: “Reinado de Ricardo Salgado no BES chegou ao fim”. A utilização da palavras “reinado” é apropriado, no que se refere particularmente à ênfase dada à preponderância da instituição bancária em causa, restando poucas dúvidas quanto ao peso que este (é deste banco que se trata agora) e outras instituições bancárias têm.
Ricardo Salgado, que sai agora da presidência do banco, saiu também do seu gabinete, acompanhado por proeminentes figuras de outras instituições bancárias para dizer ao primeiro-ministro da altura – José Sócrates – que estava na altura de pedir “assistência externa”. Por conseguinte, o ainda presidente deste banco ajudou à festa que têm sido estes anos de troika: uma festa exclusiva, farta e acentuadamente profícua para os seus participantes.
A mudança na presidência deste banco ou de qualquer outro pouco ou nada diz ao país. De resto, fica tudo na mesma, a extraordinária capacidade de influência destes senhores manter-se-á intacta e muitos ilustres membros da classe política continuará a prestar-lhes vassalagem, enquanto os súbditos cá estarão para tapar buracos. Foi um bom reinado, apenas para eles, mas foi um bom reinado, mesmo que agora tenha chegado ao seu fim.