quarta-feira, 21 de maio de 2014

Promoção de emprego

Sabemos que por altura de uma campanha eleitoral vale quase tudo para mostrar trabalho aos cidadãos. Também não é menos verdade que este Governo não tem propriamente trabalho para mostrar. De resto, destruição (de salários, pensões, Estado Social e sectores do Estado) não conta.
Ainda assim, a campanha eleitoral não justifica aquilo a que o país assistiu ontem: o anúncio de algumas centenas de postos de trabalho no Mcdonald's e num call center. O ridículo quer do ministro da Economia, quer, sobretudo, do ministro do Trabalho atingiu uma proporção inaudita até para este Governo.
À falta de melhor e depois de alguma desmistificação dos números do desemprego, estes ministros decidiram promover o emprego que está nos antípodas do que o país necessita. Paralelamente, trata-se de trabalho precário cuja promoção conta com a preciosa ajuda do Estado. O IEFP colabora com a já referida empresa que ainda há escassos meses despediu, de forma ilegal, mais de 50 trabalhadores, havendo mesmo casos de mulheres grávidas e trabalhadores que sofreram acidentes de trabalho coagidos a assinar rescisões de contrato.

Em bom rigor, não é só de ridículo que se trata. O país assiste, impávido, a transformações profundas. A promoção de emprego pouco qualificado e de baixa remuneração é o melhor que este Governo consegue fazer porque é precisamente esse o sentido que este mesmo Governo deu ao país. A transformação vai fazendo o seu caminho e Portugal transforma-se rapidamente num reduto de baixos salários. Haverá sempre quem diga que é melhor um emprego mal remunerado do que nada - a premissa perfeita para que a transformação se consolide.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O vazio das eleições europeias

Dia 25 de Maio os cidadãos europeus são chamados às urnas. Está em causa o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia.
O debate em Portugal foi quase inexistente, e quanto mais os partidos se posicionam no chamado “arco de governação”, menos debate e menos substância; de resto percebe-se com total clareza que estes partidos estão interessados em tudo menos numa discussão sobre a Europa. Trata-se de um inexorável vazio.
Posto isto, percebe-se que quanto menos se discutir a Europa, melhor. Com efeito, uma discussão séria sobre o rumo seguido poria a nu a vertiginosa aproximação entre os três partidos que têm governado Portugal nos últimos quarenta anos e cuja preponderância nas escolhas europeias tem sido naturalmente elevada.
É preferível o vazio. Deste modo, as semelhanças entre os partidos do “arco de governação” são incontornáveis; estes partidos vão fingindo ser diferentes no essencial, quando na verdade apoiam as decisões estruturais europeias dos últimos anos.
A mudança faz-se de diferentes formas. Mas também se faz nas urnas. A abstenção e outros subterfúgios em nada contribuem para uma mudança tão necessária à Europa, com imediatas e naturais consequências para o nosso país.
Importa ultrapassar o vazio imposto e apostar na mudança, deixando cair de uma vez por todas a persistência no erro.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A troika foi embora...

... mas a festa foi pouco ou nada efusiva. Outros festejos talvez tenham comprometido uma maior manifestação de regozijo por parte de PSD e CDS - manifestações essas absolutamente indissociáveis da campanha eleitoral que conspurca até as mentes mais sãs.
A troika foi embora, a culpa é do outro e o árduo trabalho tem de continuar. Esta é a retórica repetida até à exaustão. Do lado do PS, o discurso não melhora. Apesar da apresentação de medidas e sobretudo depois da apresentação de medidas, quaisquer diferenças relativamente ao PSD acabam esbatidas, perdem força.
A troika foi embora... e depois? Foi a troika (?), ficou a escravatura da dívida totalmente consolidada - uma dívida que cresceu exponencialmente nos últimos três anos. Resta um país pobre, desalentado, incapaz de vislumbrar um futuro.
Pelo sim pelo não, o Presidente por terras do Oriente apela à aprendizagem do Mandarim. Para quê? Portugal está rapidamente a tornar-se numa pequena China europeia.
Por cá, os principais candidatos às próximas eleições europeias deixam-se filmar e fotografar enquanto assistem a jogos de futebol. Pelo caminho trocam acusações mútuas. Sobre a Europa nem uma ideia. Não há interesse, não convém, e talvez nem tão-pouco haja paciência.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Desvalorização salarial, desvalorização salarial, desvalorização salarial

A Europa parece apenas conhecer esta receita para fazer face à necessidade de Portugal continuar a consolidar as suas contas públicas. A troika vai-se embora, contudo é necessário que o Governo português continue na senda da desvalorização salarial. É importante que Portugal continue a sua transformação num reduto de baixos salários ao serviços de uma Europa sem rumo.
Paralelamente, e apesar do discurso europeu incidir sobretudo na necessidade da desvalorização salarial, é também fundamental que exista estabilidade, no plano político. Dito por outras palavras, importa que os partidos da governação ou qualquer coisa semelhante (PS) mantenham as rédeas do país. Caso contrário... os mercados, os sacrossantos mercados podem retirar a sua preciosa confiança. Não há nada como uma bela ameaça, particularmente em vésperas de eleições.
Resumindo, o país não pode ser negligente e abrandar as suas transformações. Num país em que crescem as desigualdades sociais, a preocupação das principais instituições europeias prende-se com a pretensa elevada massa salarial.
As eleições aproximam-se, mas entre a abstenção que será seguramente elevada e a insistência nas escolhas do costume, nada de substancial mudará.



quinta-feira, 15 de maio de 2014

Revelações na hora da decisão

Philippe Legrain, ex-conselheiro económico do Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, afirmou aquilo que há muito já se sabia: as “ajudas” a Portugal e à Grécia mais não foram do que resgates à banca alemã e francesa. Estas revelações de alguém que acompanhou de perto a gestão da crise são feitas num livro escrito pelo próprio “European Spring: Why our Economies and Politics are in a mess”.
As revelações do ex-conselheiro de Durão Barroso apenas confirmam o que já se sabia: a UE está ao serviço da banca e, naturalmente, esta é a sua grande prioridade. As consequências foram e continuam a ser desastrosas, mas essa é manifestamente uma questão de somenos para os dirigentes europeus e para as lideranças dos Estados-membros.
No caso português, a total subserviência do Governo português aos ditames externos apenas facilitou a tarefa das lideranças europeias. Em bom rigor, todos salvaguardam os mesmos interesses – uma área de actuação que passa invariavelmente pelos interesses da banca. Essa é incontestavelmente a prioridade comum. E nem tão-pouco o Governo português procurou escamotear essa sua prioridade que anda de mãos dadas com os interesses das empresas monopolistas e que formam uma casta de interesses absolutamente dominante. Nem sequer tem sido necessário fingir, de um modo geral, que a missão do Governo passa por qualquer coisa semelhante ao bem comum. Ainda assim, por estes dias, e à beira de eleições, assiste-se a uma tentativa de se enaltecer o bem comum – um fingimento efémero e que cessa findo o período eleitoral.

Legrain, o ex-conselheiro de Durão Barroso, apenas veio confirmar aquilo que já se sabia. Importa agora que estas suas revelações pesem na hora de decidir a composição do Parlamento Europeu e, não esqueçamos, a liderança da Comissão Europeia.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Uma garrafa de champanhe

Há imagens que ficam para a posteridade, sobretudo em período eleitoral. Nuno Melo e a garrafa de champanhe será inquestionavelmente uma delas. A dupla Rangel/Melo anda pelo país numa tentativa de glorificar os pretensos feitos do PSD/CDS, designadamente a saída da troika. Será por altura da saída da troika que Nuno Melo abrirá a garrafa erguida em jeito de vitória.
O ridículo não mata. Se assim fosse, teríamos duas baixas de peso.
Rangel e Melo procuram enaltecer os feitos do Governo e de um “grande povo” sacrificado, mas que ultrapassou as dificuldades. A troika vai mesmo embora? Durante quanto tempo Portugal manter-se-á na qualidade de protectorado, recorrendo a um epíteto tão do agrado de Paulo Portas? Décadas.
Não há razões para festejos e para garrafas de champanhe. O país está mais pobre e o futuro avizinha-se intrincado e exíguo.

Nestas circunstâncias, o populismo vai fazendo o seu caminho. Na verdade, nada mais resta.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Alternativas

Em pleno período eleitoral, registam-se dois factos marcantes, não só neste período eleitoral propriamente dito, como noutros períodos eleitorais, como é o caso das eleições legislativas: dois/três partidos contam com as atenções da comunicação social; entre esses partidos as alternativas padecem de uma exiguidade exasperante.
Com efeito, entre PSD, CDS e PS – no plano das políticas europeias e não só – não se vislumbram ideias dissemelhantes. E os líderes partidários, à semelhança dos cabeça de lista de cada partido, nem se esforçam para provar o contrário. PSD e CDS encontram-se, no essencial, em sintonia; PS acaba por titubear sempre que procura demonstrar que tem, algures no seu ideário, alguma coisa remotamente semelhante a uma alternativa.
O melhor exemplo da sintonia que reina entre estes três partidos é a questão do tratado orçamental.
A comunicação social continuará a discutir tudo menos a Europa, ao mesmo tempo que finge a existência de apenas três partidos – os partidos cujo discurso se tornou paradoxalmente confortável.