segunda-feira, 12 de maio de 2014

Eleições Europeias

Aproxima-se novo período eleitoral, desta feita eleições europeias. Os partidos movimentam-se no sentido de conseguir votos, num período eleitoral habitualmente marcado por elevadas taxas de abstenção. É muito provável que estas eleições voltem a ser marcadas pelas referidas taxas de abstenção.
Desde logo, o afastamento entre instituições europeias e cidadãos retira sentido às eleições; por outro lado, a percepção de que o Parlamento Europeu não tem poderes e que quem de facto dita as regras é o Conselho Europeu; a complexidade de funcionamento da UE será outro elemento que afasta os cidadãos deste período eleitoral; internamente, os partidos trocam acusações e não discutem a Europa, de resto, o afastamento entre cidadãos e políticos, de um modo genérico, também se verifica no caso das eleições europeias.
Assim, o período eleitoral que se avizinha pouco sentido fará para uma boa parte dos cidadãos. Outras razões justificam estas e outras elevadas taxas de abstenção, sendo a indolência talvez a mais evidente, mas as referidas em epígrafe, creio, ajudam a explicar melhor o fenómeno que se acentua nas eleições de natureza europeia.
No entanto, e apesar dos condicionalismos já referidos, o voto é essencial. Não haverá mudança sem ele. O descontentamento por si só nada resolve.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Período difícil


Se considerávamos estar a passar por um período difícil, o que dizer agora que entramos em campanha eleitoral? A campanha eleitoral para as eleições europeias ainda não começou oficialmente, mas o Governo começou a sua campanha no dia em que o primeiro-ministro anunciou a "saída limpa". Não sei se haverá estômagos que aguentem a multiplicidade de discursos caracterízados pela propaganda mais desbragada.

Os discursos dos membros do Governo são invariavelmente simplistas: o "outro" trouxe-nos até ao resgate; nós conseguimos resolver o problema. É evidente que nem uma, nem outra correspondem à verdade. Mas vale tudo no sentido de conter a desgraça eleitoral que ainda pode acontecer. PSD e CDS procuram recuperar terreno perdido para que os custos não sejam consideravelmente elevados.
É também evidente que fora dos discursos, sobretudo dos partidos do arco do poder, fica a Europa propriamente dita. Não deixa de ser paradoxal as eleições europeias servirem para tudo, menos para discutir a UE propriamente dita.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Ucrânia


Apesar dos condicionamentos impostos pela comunicação social - ocidental e pró-russa, cada uma puxando a brasa à sua sardinha - a gravidade da situação na Ucrânia atingiu características de guerra civil. Houve quem alertasse para este perigo evidente, mas as potências mundiais e os seus respectivos interesses falaram mais alto.
Odessa. 42 mortos confirmados. Pró-russos. A comunicação social americana e europeia prestou um mau serviço, com coberturas deliberadamente incompletas e com acusações infundadas. O que se passou em Odessa no passado dia 2 de Maio revela uma crueldade que só pode causar consternação aos líderes europeus. Não foi propriamente o caso. As lideranças europeias - as mesmas que contribuiram de forma decisiva para a queda de Viktor Yanukovich - abordam a situação apenas com o intuito de acusar a Rússia. E tal como Pilatos, lavam as mãos...
A situação na Ucrânia é explosiva e o que se passou em Odessa não pode ficar sem responsáveis. A extrema-direita, cuja preponderância neste e noutros casos tem vindo a elevar-se, também não pode ser ignorada, uma extrema-direita que nunca inquietou as lideranças europeias.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

E agora?


O Governo de Passos Coelho rejubila com a saída da troika, uma saída precisa de mais de 20 anos para se concretizar plenamente.
Todavia, essa saída retira força ao argumento da pressão externa e que tem permitido a concretização de políticas profundamente injustas. E agora? A desculpa da troika perde força? E agora como cumprir as duras metas espelhadas no Documento de Estratégia Orçamental (DEO)?
A estratégia parece ser de uma simplicidade aterradora: ameniza-se o ambiente até 2015, aligeirando, de forma muito ténue, as medidas de austeridade, para depois de eleições se concretizar aquilo que o DEO revela: cortes brutais no Estado Social e na massa salarial dos funcionários públicos - isto num contexto hipotético de pagamento de taxas de juro baixas e de crescimento substancial da economia portuguesa. Tudo em nome de uma dívida que não pára de escalar; uma dívida, nunca é demais repeti-lo, que poucos, muito poucos, conhecem.
É esta a estratégia de Passos Coelho e Paulo Portas - uma estratégia insidiosa, como de resto, tem sido habitual. É fundamental que o Governo assuma o documento que apresentou e as respectivas consequências para o país, designadamente a impossibilidade de se manter o Estado Social. Os cidadãos o direito de saber, com toda a clareza, quais os projectos de futuro para o seu país. Já chega de publicidade barata, hipocrisia e demagogia.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Saída limpa

O primeiro-ministro anunciou no passado domingo que Portugal optara pela saída limpa. A boa nova foi acompanhada pelas constantes insinuações de que a responsabilidade de tudo o que aconteceu foi da governação anterior. É claro que fora do discurso ficaram as responsabilidades deste primeiro-ministro no chumbo do PEC IV, mesmo quando existia vontade na Europa de uma solução menos onerosa do que o resgate que se veio a verificar. E quando se verificava situações igualmente periclitantes noutros países europeus. A hipocrisia do discurso de Passos Coelho é incomensurável. O chumbo do PEC IV permitiu ao actual primeiro-ministro matar dois coelhos com uma cajadada só: ganhar eleições e aplicar políticas que estão a transformar a sociedade portuguesa com o pretexto das imposições externas.
De um modo geral, o programa de assistência foi uma benção, caso contrário, como poderiam então aplicar as medidas e subsequentes transformações que todos conhecemos? Empobreceu-se a maioria, beneficiando uma minoria, a casta do costume. Esta foi a política central do Governo, invariavelmente a coberto do programa da assistência.
Passos Coelho agradeceu aos portugueses - os verdadeiros responsáveis pela saída limpa. Engana-se ou quer enganar. Os verdadeiros responsáveis pela saída limpa são os países que dominam a Europa, os mesmos que vão ter também de prestar contas aos seus eleitorados cansados de problemas com os países periféricos.
A saída limpa é uma incógnita. Sabe-se apenas que estaremos sob vigilância durante quase trinta anos. Fora da equação ficou a instabilidade do sector financeiro português e europeu; fora da equação ficou a turbulência que anda de mãos dadas com os mercados e que amiúde dão uma festa juntos. Quanto à redução nas taxas de juro, Passos Coelho também não referiu que essa redução é transversal a todos os países europeus, incluindo - espante-se! - a Grécia.
A saída limpa? Para quem? Limpa para a banca alemã e francesa que se livrou do lixo da periferia; limpa para a banca portuguesa; limpa para a casta que domina o país e que viu os salários baixarem, a precariedade subir, que assiste e aproveita-se da degradação dos serviços públicos; limpa para a casta internacional que aproveitou sobremaneira as privatizações; limpa para os países centrais na Europa que, pelo menos durante uns tempos, não se incomodam com os países periféricos; limpa para os senhores do BPN; limpa para quem beneficia de PPP's, de swaps, submarinos e de outras negociatas.
Os portugueses, esses, continuarão a viver um inaudito retrocesso social, atolados na porcaria, perdão, demagogia.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Ela chegou

O diálogo, num futuro improvável.

Num dia como outro qualquer e, apesar da idade avançada, a chegada da morte é sempre uma surpresa.
O Político repousava no seu cadeirão depois de um almoço faustoso. As dores no braço, a dificuldade em respirar e a dor pungente no peito eram atribuídas à idade avançada. A morte, figura estereotipada e por isso livre de mais descrições, aproxima-se vagarosamente.
Morte: Estou aqui para reclamar a sua vida.
Político: Já, tão cedo? Só pode estar a brincar comigo.
Morte: Tão cedo. 86 anos já é qualquer coisa. Acredite tenho reclamado vidas consideravelmente mais precoces.
Político: Não estava à espera, só isso.
Morte: O que tem de ser, tem muita força. Vamos?
Político: Espere lá, tanta pressa para quê? Com certeza podemos encontrar aqui um entendimento.
Morte: Qual entendimento?
Político: Um entendimento no sentido de protelar a sua decisão de me levar...
Morte: Desde logo, a decisão não é minha. E depois isto não é propriamente negociável.
Político: Mas eu não estava à espera... E se nos sentarmos uns minutos, talvez seja possível chegar a um consenso...
Morte: O que é que o sr. fazia em vida? Qual era a sua profissão?
Político: Então a morte não sabe? Bem me pareceu que não sabia com quem estava a falar.
Morte: Nem tenho que saber. A minha função é apenas a de reclamar vidas. O que vocês fizeram em vida não me diz respeito, nem me interessa.
Político: Então porque perguntou?
Morte: Fiquei curioso.
Político: Com que então a morte é curiosa?
Morte: Acontece. Mas vai responder à minha pergunta ou fica para a próxima?
Político: Há uma próxima?
Morte: Nunca se sabe. Mas é só uma expressão, não comece a alimentar esperanças.
Político: Fui toda a minha vida político.
Morte: Isso explica muita coisa.
Político: Explica?
Morte: A sua conversa...
Político: Tenho conversa de político?
Morte: Não tarda muito vai começar a aldrabar-me...
Político: É essa a imagem que tem dos políticos?
Morte: Até certo ponto. E de quem é a culpa? Já levei muitos e, salvo honrosas excepções, tentam todos dar-me a volta. E os piores são aqueles políticos que também são advogados! Um inferno. Enfim, ossos do ofício.
Político: A manipulação faz parte do jogo político. Sempre foi assim.
Morte: E a mentira?
Político: Também. Mas podíamos chegar a um acordo, agindo de boa-fé e com transparência.
Morte: Meu caro amigo, chegou a uma fase do que resta da sua vida em que nenhum acordo o poderá salvar. Não há acordos, consensos e afins. Nunca ouviu dizer que na vida restam apenas duas certezas: impostos e a morte.
Político: Por falar em impostos... durante os meus mandatos procedi a reduções substanciais da carga fiscal. E se me deixar cá ficar, seguramente ainda poderei contribuir positivamente para o meu país.
Morte: Posso ser apenas a morte, mas não comece a subestimar-me. Aposto que sempre aumentou impostos, apesar das promessas...
Político: Os tempos eram difíceis, tempos de excepção. Tinhamos de salvar a nação, o senhor que lá esteve antes de mim deixou as contas públicas num pandemónio. Fizemos o que tinhamos de fazer.
Morte: Continua a querer aldrabar-me. Fizeram o que tinham de fazer? Pense melhor. À morte não se passam rasteiras.
Político: Voltando à questão que o trouxe aqui: quando é que tenho de o acompanhar?
Morte: Não me vai acompanhar. Não vamos fazer turismo. Eu vim buscá-lo e é já.
Político: Devo fazer as malas?
Morte: Como?
Político: Se devo fazer as malas.
Morte: Desista de tentar comprar tempo. Na vida muito se compra, na morte nada.
Político: Mas talvez não fosse má ideia levar um agasalho...
Morte: Não se preocupe com isso. No sítio para onde vai não faz frio.
Político: Curioso, quando passei férias em Punta Cana também julguei que não fazia frio e não se sei se tive azar, mas o facto é que apanhei duas ou três noites fresquinhas.
Morte: O sítio para onde vai nada tem a ver com Punta Cana.
Político: Posso ao menos despedir-me dos meus entes queridos?
Morte: Chega! Vamos.
Político: Para onde vamos? Espero que levem em linha de conta o serviço público que prestei ao meu país.
Morte: Leva-se muita coisa em linha de conta, mas não espere que a nossa noção de serviço público seja a mesma do que a sua: negociatas, corrupção, compadrio, favorecimentos, enriquecimento à custa dos outros e mais algumas promiscuidades não contam como serviço público.
Político: Estão a ver mal a coisa. Diga-me: aonde vamos!
Morte: Já vai perceber. E ainda lhe vou dar uma ajuda, autorizo que leve consigo um único objecto.
Político: Sim? Qual?
Morte: Uma mola.
Político: Uma mola? Que género de mola? Para quê?
Morte: Uma daquelas molas para estender a roupa, uma dessas serve perfeitamente.
Político: Não estou a perceber nada disto! Uma mola para quê? Que absurdo, que maçada!  Explique-se homem... morte...
Morte: É simples: vai perceber a necessidade da mola quando chegar ao seu destino. A mola serve para o nariz. É que por aqueles lados não se pode com o cheiro a enxofre.
Político: Pensava que o enxofre era inodoro.
Morte: A pensar morreu um burro! Experimente juntar enxofre ao fogo. Vamos?
Político: Que absurdo! Isto é um engano!
Morte: Vamos?

Morte e Político acabam por caminhar lado a lado, em silêncio. Finalmente.

A mentira

O Governo mentiu, dito por outras palavras, vários membros do Governo mentiram. Não haveria lugar a mais aumentos de impostos. O próprio primeiro-ministro afirmou não haver margem para novos aumentos de impostos. Todavia, o Documento de Estratégia Orçamental indica aumentos de impostos, com enfâse no IVA (23,25 por cento?) e na TSU (aumento das contribuições do trabalhadores em 0,2 por cento). Afinal, sempre há lugar a um novo aumento de impostos.
A justificação? Necessidade de aliviar as contribuições dos pensionistas para a consolidação orçamental. A verdadeira justificação? Necessidade de aliviar as contribuições dos pensionistas para a consolidação orçamental com vista a que PSD e CDS não sofreram as consequências eleitorais de terem colocado sobre os pensionistas sacrifícios incomensuráveis. No horizonte ficou ainda a reposição parcial (20 por cento) dos cortes nos salários dos funcionários, embora ainda se aguardem novas surpresas com as prometidas tabelas salariais.
O Governo mentiu, como tem mentido nestes três anos. Escrever mais sobre o assunto corre o risco de se tornar prolixo. Resta saber que legitimidade pode ter um Governo que mente descaradamente antes de eleições e insiste em mentir pornograficamente durante a vigência do seu mandato.