terça-feira, 6 de maio de 2014

Saída limpa

O primeiro-ministro anunciou no passado domingo que Portugal optara pela saída limpa. A boa nova foi acompanhada pelas constantes insinuações de que a responsabilidade de tudo o que aconteceu foi da governação anterior. É claro que fora do discurso ficaram as responsabilidades deste primeiro-ministro no chumbo do PEC IV, mesmo quando existia vontade na Europa de uma solução menos onerosa do que o resgate que se veio a verificar. E quando se verificava situações igualmente periclitantes noutros países europeus. A hipocrisia do discurso de Passos Coelho é incomensurável. O chumbo do PEC IV permitiu ao actual primeiro-ministro matar dois coelhos com uma cajadada só: ganhar eleições e aplicar políticas que estão a transformar a sociedade portuguesa com o pretexto das imposições externas.
De um modo geral, o programa de assistência foi uma benção, caso contrário, como poderiam então aplicar as medidas e subsequentes transformações que todos conhecemos? Empobreceu-se a maioria, beneficiando uma minoria, a casta do costume. Esta foi a política central do Governo, invariavelmente a coberto do programa da assistência.
Passos Coelho agradeceu aos portugueses - os verdadeiros responsáveis pela saída limpa. Engana-se ou quer enganar. Os verdadeiros responsáveis pela saída limpa são os países que dominam a Europa, os mesmos que vão ter também de prestar contas aos seus eleitorados cansados de problemas com os países periféricos.
A saída limpa é uma incógnita. Sabe-se apenas que estaremos sob vigilância durante quase trinta anos. Fora da equação ficou a instabilidade do sector financeiro português e europeu; fora da equação ficou a turbulência que anda de mãos dadas com os mercados e que amiúde dão uma festa juntos. Quanto à redução nas taxas de juro, Passos Coelho também não referiu que essa redução é transversal a todos os países europeus, incluindo - espante-se! - a Grécia.
A saída limpa? Para quem? Limpa para a banca alemã e francesa que se livrou do lixo da periferia; limpa para a banca portuguesa; limpa para a casta que domina o país e que viu os salários baixarem, a precariedade subir, que assiste e aproveita-se da degradação dos serviços públicos; limpa para a casta internacional que aproveitou sobremaneira as privatizações; limpa para os países centrais na Europa que, pelo menos durante uns tempos, não se incomodam com os países periféricos; limpa para os senhores do BPN; limpa para quem beneficia de PPP's, de swaps, submarinos e de outras negociatas.
Os portugueses, esses, continuarão a viver um inaudito retrocesso social, atolados na porcaria, perdão, demagogia.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Ela chegou

O diálogo, num futuro improvável.

Num dia como outro qualquer e, apesar da idade avançada, a chegada da morte é sempre uma surpresa.
O Político repousava no seu cadeirão depois de um almoço faustoso. As dores no braço, a dificuldade em respirar e a dor pungente no peito eram atribuídas à idade avançada. A morte, figura estereotipada e por isso livre de mais descrições, aproxima-se vagarosamente.
Morte: Estou aqui para reclamar a sua vida.
Político: Já, tão cedo? Só pode estar a brincar comigo.
Morte: Tão cedo. 86 anos já é qualquer coisa. Acredite tenho reclamado vidas consideravelmente mais precoces.
Político: Não estava à espera, só isso.
Morte: O que tem de ser, tem muita força. Vamos?
Político: Espere lá, tanta pressa para quê? Com certeza podemos encontrar aqui um entendimento.
Morte: Qual entendimento?
Político: Um entendimento no sentido de protelar a sua decisão de me levar...
Morte: Desde logo, a decisão não é minha. E depois isto não é propriamente negociável.
Político: Mas eu não estava à espera... E se nos sentarmos uns minutos, talvez seja possível chegar a um consenso...
Morte: O que é que o sr. fazia em vida? Qual era a sua profissão?
Político: Então a morte não sabe? Bem me pareceu que não sabia com quem estava a falar.
Morte: Nem tenho que saber. A minha função é apenas a de reclamar vidas. O que vocês fizeram em vida não me diz respeito, nem me interessa.
Político: Então porque perguntou?
Morte: Fiquei curioso.
Político: Com que então a morte é curiosa?
Morte: Acontece. Mas vai responder à minha pergunta ou fica para a próxima?
Político: Há uma próxima?
Morte: Nunca se sabe. Mas é só uma expressão, não comece a alimentar esperanças.
Político: Fui toda a minha vida político.
Morte: Isso explica muita coisa.
Político: Explica?
Morte: A sua conversa...
Político: Tenho conversa de político?
Morte: Não tarda muito vai começar a aldrabar-me...
Político: É essa a imagem que tem dos políticos?
Morte: Até certo ponto. E de quem é a culpa? Já levei muitos e, salvo honrosas excepções, tentam todos dar-me a volta. E os piores são aqueles políticos que também são advogados! Um inferno. Enfim, ossos do ofício.
Político: A manipulação faz parte do jogo político. Sempre foi assim.
Morte: E a mentira?
Político: Também. Mas podíamos chegar a um acordo, agindo de boa-fé e com transparência.
Morte: Meu caro amigo, chegou a uma fase do que resta da sua vida em que nenhum acordo o poderá salvar. Não há acordos, consensos e afins. Nunca ouviu dizer que na vida restam apenas duas certezas: impostos e a morte.
Político: Por falar em impostos... durante os meus mandatos procedi a reduções substanciais da carga fiscal. E se me deixar cá ficar, seguramente ainda poderei contribuir positivamente para o meu país.
Morte: Posso ser apenas a morte, mas não comece a subestimar-me. Aposto que sempre aumentou impostos, apesar das promessas...
Político: Os tempos eram difíceis, tempos de excepção. Tinhamos de salvar a nação, o senhor que lá esteve antes de mim deixou as contas públicas num pandemónio. Fizemos o que tinhamos de fazer.
Morte: Continua a querer aldrabar-me. Fizeram o que tinham de fazer? Pense melhor. À morte não se passam rasteiras.
Político: Voltando à questão que o trouxe aqui: quando é que tenho de o acompanhar?
Morte: Não me vai acompanhar. Não vamos fazer turismo. Eu vim buscá-lo e é já.
Político: Devo fazer as malas?
Morte: Como?
Político: Se devo fazer as malas.
Morte: Desista de tentar comprar tempo. Na vida muito se compra, na morte nada.
Político: Mas talvez não fosse má ideia levar um agasalho...
Morte: Não se preocupe com isso. No sítio para onde vai não faz frio.
Político: Curioso, quando passei férias em Punta Cana também julguei que não fazia frio e não se sei se tive azar, mas o facto é que apanhei duas ou três noites fresquinhas.
Morte: O sítio para onde vai nada tem a ver com Punta Cana.
Político: Posso ao menos despedir-me dos meus entes queridos?
Morte: Chega! Vamos.
Político: Para onde vamos? Espero que levem em linha de conta o serviço público que prestei ao meu país.
Morte: Leva-se muita coisa em linha de conta, mas não espere que a nossa noção de serviço público seja a mesma do que a sua: negociatas, corrupção, compadrio, favorecimentos, enriquecimento à custa dos outros e mais algumas promiscuidades não contam como serviço público.
Político: Estão a ver mal a coisa. Diga-me: aonde vamos!
Morte: Já vai perceber. E ainda lhe vou dar uma ajuda, autorizo que leve consigo um único objecto.
Político: Sim? Qual?
Morte: Uma mola.
Político: Uma mola? Que género de mola? Para quê?
Morte: Uma daquelas molas para estender a roupa, uma dessas serve perfeitamente.
Político: Não estou a perceber nada disto! Uma mola para quê? Que absurdo, que maçada!  Explique-se homem... morte...
Morte: É simples: vai perceber a necessidade da mola quando chegar ao seu destino. A mola serve para o nariz. É que por aqueles lados não se pode com o cheiro a enxofre.
Político: Pensava que o enxofre era inodoro.
Morte: A pensar morreu um burro! Experimente juntar enxofre ao fogo. Vamos?
Político: Que absurdo! Isto é um engano!
Morte: Vamos?

Morte e Político acabam por caminhar lado a lado, em silêncio. Finalmente.

A mentira

O Governo mentiu, dito por outras palavras, vários membros do Governo mentiram. Não haveria lugar a mais aumentos de impostos. O próprio primeiro-ministro afirmou não haver margem para novos aumentos de impostos. Todavia, o Documento de Estratégia Orçamental indica aumentos de impostos, com enfâse no IVA (23,25 por cento?) e na TSU (aumento das contribuições do trabalhadores em 0,2 por cento). Afinal, sempre há lugar a um novo aumento de impostos.
A justificação? Necessidade de aliviar as contribuições dos pensionistas para a consolidação orçamental. A verdadeira justificação? Necessidade de aliviar as contribuições dos pensionistas para a consolidação orçamental com vista a que PSD e CDS não sofreram as consequências eleitorais de terem colocado sobre os pensionistas sacrifícios incomensuráveis. No horizonte ficou ainda a reposição parcial (20 por cento) dos cortes nos salários dos funcionários, embora ainda se aguardem novas surpresas com as prometidas tabelas salariais.
O Governo mentiu, como tem mentido nestes três anos. Escrever mais sobre o assunto corre o risco de se tornar prolixo. Resta saber que legitimidade pode ter um Governo que mente descaradamente antes de eleições e insiste em mentir pornograficamente durante a vigência do seu mandato.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

No reino da mediocridade

Restarão poucas dúvidas quanto à mediocridade dos representantes eleitos - escolhidos, portanto - que governam o país nos últimos anos. Essa mediocridade é indissociável da própria mediocridade dos partidos políticos, sobretudo daqueles habituados a governar. Ainda assim e quando pensávamos que tinhamos atingido o zénite da mediocridade surge então Passos Coelho e os seus indefectíveis. Vivemos assim na plenitude da mediocridade.
O último exemplo prende-se com o adiamento da apresentação do Documento de Estratégia Orçamental - um documento essencial para a vida dos Portugueses nos próximos anos. Aparentemente tudo está desenhado e decidido, nós é que não conhecemos o documento.
É evidente que a mediocridade intrínsica à actual governação é exponenciada pela ausência de exigência dos cidadãos. De resto, nem é preciso um esforço hercúleo no sentido de estabelecer uma comunicação entre Governo e cidadãos, essa ligação simplesmente não existe. Ao Governo tudo é permitido: a mentira, a dissimulação, o desprezo pelos cidadãos. Consequências? Absolutamente nenhumas. Assim reina a impunidade, o desprezo e, claro est a mediocridade de quem nem precisa de esconder essa sua mediocridade. E nós vamos fazendo as nossas escolhas...

terça-feira, 29 de abril de 2014

Democracia e decadência

Os últimos anos estão a ser marcados pela decadência acentuada das condições de vida dos cidadãos em boa parte da Europa, sobretudo nos países "intervencionados". Essa decadência que degenera inexoravelmente em pobreza generalizada não é consonante com a própria democracia. Se atentarmos à forma de governo "democracia" percebemos que a consolidação da mesma é de grande dificuldade. Na verdade a democracia é uma proeza da humanidade, tal é a dificuldade de concretização. Precisamente por se tratar de uma proeza exige-se que a sua consolidação não seja de forma alguma interrompida. O défice, a dívida, a austeridade são questiúnculas comparativamente com a grandiosidade da própria democracia.
O não reconhecimento de formas de representação plena nas democracias representativas, com a generalização de eleitos que representam interesses que não se coadunam com os interesses colectivos tem vindo a enfraquecer as democracias; a corrupção; a subjugação da política à economia e a ausência de ética enfraquecem a democracia; o empobrecimento generalizado, enfraquece e deixa a democracia vulnerável a todas as formas de demagogia - o melhor exemplo disto mesmo poderá sair das próximas eleições europeias.
A decadência imposta pela prisão das dívidas mina a democracia. Infelizmente não parece existir, sobretudo da parte de quem representa os cidadãos, uma verdadeira preocupação com estas questões. Como de resto tem sido habitual, talvez só quando alguns problemas se tornarem irrerversíveis a atenção de quem tem responsabilidades acrescidas se sobreleve.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Eleições... a quanto obrigas!

O aumento do salário mínimo e o afastamento da descida das indemnizações em caso de despedimento ilegal, associados invariavelmente à propaganda dos números, são consequências directas da aproximação de eleições.
Deste modo, o Governo não só teve de refrear a veemência das suas medidas, como apresentar novas medidas, em sentido contrário, como é o caso do aumento do salário mínimo. Paralelamente, o Governo bate o pé à troika, recusando a medida que previa uma descida das indeminizações por despedimento ilegal - eleições, a quanto obrigas!
É evidente que a essência das políticas e do pensamento subjacente às políticas permanecem imutáveis. A forma como o primeiro-ministro falou de democracia no 25 de Abril, referindo-se ao "bafio" não foi um mero lapso. O pensamento está lá, poderá ser manifestado com mais cautela e de forma mais dissimulada, mas está lá. Este mês de Maio que se aproxima é uma chatice e o ano de 2015 outra. Eleições... a quanto obrigas!

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Custos do ajustamento


Os sucessos são propagandeados depois da imposição de custos, embora estes continuem a afigurar-se como uma necessidade desde sempre premente. Portugal regressa com sucesso aos mercados, as metas do défice são reduzidas e ficam abaixo do combinado com a troika, os números do desemprego - não os reais - estão abaixo do esperado. Em suma, a economia dá sinais de recuperação. Será assim, pelo menos até se esgotarem os próximos períodos eleitorais.
Os pretensos sucessos não escondem porém os custos do "ajustamento". Na verdade esses custos são colaterais, afinal de contas o projecto é mais amplo e prende-se com a transformação do país, uma transformação há muito almejada por uma minoria. Portugal não voltará a ser o país que foi nos últimos anos. É um país mais pobre, asfixiado pela pressão do desemprego, caído na pobreza, acabrunhado, envelhecido. É este o projecto, um projecto que beneficia uma minoria: baixos salários, precariedade das relações laborais, fim do Estado Social e consequente abertura de novas oportunidades de negócio, privatizações, etc são verdadeiras dádivas.
Os custos do ajustamento são incomensuráveis e serão permanentes se insistirmos na actual receita. Esses custos acarretam vantagens para a dita minoria que ansiava por uma oportunidade como aquela criada há três anos atrás.
Por estes dias regressamos ao passado, com os olhos postos no presente e receio do futuro. O 25 de Abril abriu portas que este Governo e os seus arautos procuram a todo o custo fechar.