quarta-feira, 9 de abril de 2014

Sinais positivos

A comunicação social, uma boa parte dela, é pródiga em revelar e explorar os alegados sinais positivos da economia portuguesa. Facto que joga inteiramente a favor do Governo. Assim, ouvimos e lemos até à exaustão que a economia portuguesa vai crescer significativamente este ano e no próximo (um pouco mais ou um pouco menos segundo as previsões do Governo), que as exportações estão a aumentar, o desemprego a baixar e por aí fora.
É claro que esses indicadores positivos não são devidamente explorados, quer no que diz respeito ao crescimento económico - crescimento para quem? -, quer no que diz respeito aos números do desemprego ou das exportações. A comunicação social limita-se a veicular números, apenas os números, eventualmente acompanhados pela análise dos comentadores do costume.
O Governo precisa destes pretensos sinais positivos; os partidos que compõem o Governo necessitam de números positivos, à falta de melhor.
Com efeito, os próximos meses são decisivos para o futuro de PSD e CDS. Depois de três anos de empobrecimento e com pouca disponibilidade para mudar de rumo, os partidos do Governo necessitam de boas notícias e da criação da ideia de que tudo vale a pena porque tudo está a melhorar. Todavia, a melhoria nas vidas dos Portugueses teima em não chegar e talvez seja esse o factor decisivo que determinará os resultados das próximas eleições: eleições europeias e eleições legislativas.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Uma forma de fazer política

Ontem escrevi que este é o país dos paradoxos e da inconsequência. O caso BPN é paradigmático dessa caracterização do país. Senão vejamos: o caso BPN apenas teve consequências para os cidadãos portugueses que foram chamados a tapar um buraco de dimensões incomensuráveis. Os responsáveis, os verdadeiros responsáveis, continuam a viver à margem de qualquer punição. Por outro lado, o caso BPN brinda-nos com paradoxos, um dos mais evidentes foi o trazido por Durão Barroso quando tentou imputar grande parte da responsabilidade ao ex-Presidente do Banco de Portugal, Vítor Constâncio. Não deixa de ser curioso Barroso vir agora referir os alegados avisos feitos a Vítor Constâncio. Só agora é que Durão Barroso - o alegadamente não candidato presidencial - acusa Vítor Constâncio.
Paradoxalmente, Durão Barroso esquece os verdadeiros responsáveis, os amigos de Cavaco Silva.
Durão Barroso adopta a estratégia mais escabrosa em política: a política insidiosa. Faz acusações, esquece as suas próprias responsabilidades e, mais grave, ignora os verdadeiros responsáveis por um rombo sem precedentes nas contas públicas. Pelo meio, finge não ser candidato às próximas presidenciais quando na verdade só não o será por não ter a mais remota hipótese de vencer quaisquer eleições em Portugal.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Salário mínimo

O salário mínimo em Portugal é insofismavelmente baixo. Não há quem discorde. Agora também o primeiro-ministro, responsável pelo empobrecimento generalizado, diz-se disposto a discutir um possível aumento da miséria auferida por tantos trabalhadores portugueses. O que mudou? A proximidade de eleições.
Com efeito, não deixa de ser paradoxal, verificar que o mesmo primeiro-ministro que fez do empobrecimento uma política basilar do seu mandato, chame agora a atenção para os cidadãos que passam maiores dificuldades. Assim, como não deixa de ser paradoxal que o mesmo primeiro-ministro que não se cansou de afirmar que vivemos acima das nossas possibilidades venha agora sortear automóveis de luxo, estimulando também o consumo interno. Este é, de facto, o país dos paradoxos e da inconsequência.
O nível reduzido do salário mínimo contribui para uma forma de empobrecimento muito generalizada em Portugal: o empobrecimento dos que trabalham. Todavia, esta forma de empobrecimento daqueles que trabalham afecta, sobretudo nos últimos anos, também quem aufere mais do que o salário mínimo, devido ao desemprego no seio das famílias e a cortes substanciais no rendimento.
Assiste-se assim a uma mudança, tímida, muito tímida, das políticas que marcam estes três anos. O que mudou? Eleições. Nada mais.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Descida de impostos


A possibilidade de redução da carga fiscal foi ontem avançada por vários órgãos de comunicação social. Segundo o noticiado, seria intenção do Governo reduzir a carga fiscal, designadamente o IRS. Não há, porém, confirmação. Apesar do desmentido, a possibilidade de o Governo reduzir a carga fiscal por motivos eleitoralistas não merece ser excluída até por nem sequer se trata de uma novidade.

De resto, ano de eleições, sobretudo se se tratarem de eleições legislativas como será o ano de 2015 obrigam a muito. Depois de anos de austeridade em doses cavalares, o Governo vê-se forçado a abrandar o ritmo dessa austeridade: é nesse sentido que reformas e salários não sofrerão mais cortes, como anunciado pelo primeiro-ministro. Quanto à redução de impostos, a ver vamos. O Governo - os partidos que formam o Governo - serão obrigados a aligeirar as medidas de austeridade, apesar das imposições externas. Ainda há muito para fazer e muito para destruir e mais uns anos dão jeito.
Por outro lado, O Governo está a contar com uma saída limpa que lhe conceda uma imagem de sucesso, pelo caminho as coisas não poderão ir mais longe, caso contrário as penalizações nas urnas poderão se tornar elas próprias insustentáveis. 2015 é então ano de eleições legislativas: ano de alívio e ano de amnésia. Pelo menos é com isto que PSD e CDS estão a contar.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Opinião

A pluralidade de opinião é uma característica das democracias. O enriquecimento das democracias passa pela diversidade, pela opinião e pelo contraditório.
Por vezes essa diversidade brinda-nos com pérolas como as que saem da boca de alguns ilustres membros da nossa sociedade. Isabel Jonet já nos tinha oferecido a sua visão da sociedade e do país. Muitos, incluindo eu, consideraram que essa oferta era suficiente. Era escusado ouvir outras opiniões da senhora Jonet.
Infelizmente, essa nossa ideia de que as suas opiniões anteriormente partilhadas haviam sido suficientes não se coadunou com a própria opinião de Jonet. Agora, a presidente do Banco Alimentar teceu considerações sobre as redes sociais, aparentemente as suas considerações sobre bifes e concertos de rock não foram suficientes.
Assim, segundo Jonet, os desempregados passam demasiado tempo nas redes sociais, vivem uma vida que é "uma ilusão", ao invés de fazerem acções de voluntariado. Dir-se-á que as afirmações são de tal ordem obstusas que dispensam contraditório. Reconheço que é mesmo assim.
Todavia, questiona-se por que razão pessoas que perfilham um determinado modelo de sociedade são hoje tão solicitadas, e não o eram no passado. Porquê agora? A explicação prima pela simplicidade: porque esta ideia de sociedade - dos que viveram acima das suas possibilidades e que por essa razão necessitam de se redimir; uma sociedade profundamente estratificada, sem ambições de ascensão social; uma sociedade composta por aqueles que vingam e que lideram os destinos do país e os outros, os miseráveis que só podem contar com exercícios de caridade, geralmente acompanhada por laivos de religiosidade - é partilhada com quem nos governa. Esta é a transformação que alguns ambicionavam há tanto e tanto tempo e a crise abriu as portas a essa transformação tão almejada.
A pluralidade de opinião tem destas coisas: opiniões como as de Jonet. Pena é que essa pluralidade seja tão exígua nos principais meios de comunicação social. Afinal de contas, a transformação tem de ter os seus arautos e tem de seguir o seu rumo.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Troika: um bom negócio

O programa de "assistência" externa aproxima-se do seu fim (?). A ministra das Finanças informa que ainda não há certezas quanto à forma como Portugal sairá do programa - se sairá de forma "limpa" ou se necessitará de um programa cautelar.
Seja de que forma for, restam duas certezas: Portugal manter-se-á preso à armadilha da dívida e da subsequente austeridade e o programa consistiu num bom negócio para alguns.
O negócio foi particularmente profícuo para as partes que compõem a troika, os juros são consideráveis e a banca de alguns países europeus livrou-se do ónus; o negócio foi profícuo para quem comprou as empresas do Estado vendidas à pressa e a bom preço; o negócio tem sido bom para aqueles que se aproveitam das lacunas - cada vez mais significativas - deixadas pelo enfraquecimento do Estado Social.
A troika vai sair do país, Paulo Portas não se cansa de fazer essa referência. Mas a verdade é que a troika, sob outra forma e com ou sem programa cautelar, andará mais uns bons anos ou até umas boas décadas por aqui, isto para gáudio de políticos como Passos Coelho e para todos aqueles que fizeram do programa de "assistência" uma boa oportunidade de negócio - daquelas oportunidades que só aparecem uma vez na vida.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O futuro

O futuro também faz parte da retórica de Passos Coelho. Embora em bom rigor seja precisamente o futuro a ser comprometido pelas políticas deste governo. Todavia, não é este entendimento do primeiro-miniistro. A lógica de Passos Coelho assenta na premissa de que foram as políticas do seu antecessor a comprometer o futuro de Portugal. Assim, Passos Coelho viu-se "forçado" a adoptar medidas que permitem recuperar a ideia de futuro, porém sempre que o primeiro-ministro fala de futuro este já está comprometido. Os tempos são difíceis e Passos Coelho não se cansa de insistir nessa dificuldade. Sendo certo que os tempos são mais intrincados para uns do que para outros: quem é rico vê a sua riqueza crescer, munido de todas as facilidades, a começar no domínio da fiscalidade; quem é rico, faz parte da casta dominante e vê-se a braços com a justiça pode sempre contar com perdões, prescrições, morosidade e afins; quem já tinha dificuldades e quem se remediava não sabe como chegar ao fim do mês - o futuro é o fim do mês.
O que Passos Coelho não diz sobre o futuro é que a dívida que não conhecemos é impagável. Não interessa fazê-lo. Para quê? Afinal de contas, o futuro já é suficientemente dificíl.