segunda-feira, 31 de março de 2014

O castigo

François Hollande, Presidente francês, à semelhança de outros socialistas, governa à direita e insiste na premissa errada de que a austeridade cura todos os males. O resultado está à vista: uma derrota desastrosa em eleições municipais. Ganhou a direita e ganhou a abstenção.
Como forma de lidar com a derrota, Hollande prepara uma remodelação. As políticas centradas na austeridade são para manter. Hollande foi castigado. Perdeu votos para a abstenção e terá perdido votos para a direita.
Marine Le Pen, líder do Frente Nacional, partido de extrema-direita vai fazendo o seu caminho: o melhor resultado em eleições locais. A ver vamos como serão os resultados deste partido nas próximas eleições europeias marcadas para Maio.
O esvaziamento ideológico de que padecem alguns partidos, repletos de contradições disfarçadas por um falso pragmatismo, afastam os eleitores. A crise e uma Europa sem rumo afastam os eleitores e não raras vezes empurram-nos para discursos populistas e odiosos.
O castigo de Hollande não é de difícil explicação e nem tão-pouco será inédito.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Cortes e ansiedade

O Governo não sabe comunicar com os Portugueses, nem com briefings nem com coisa nenhuma. A celeuma em volta dos cortes nas pensões é mais um exemplo da incompetência de um governo que não apregoa apenas uma ideologia nefasta, como manifesta uma incompetência arrepiante.
Para além de não se tratar de um Executivo que dê particular valor à transparência, ainda envia sinais contrários que criam confusão e ansiedade nos cidadãos.
No que diz respeito aos cortes nas pensões, o caso ainda é mais grave tratando-se de um grupo social fragilizado composto por pessoas de idade avançada e não raras vezes sem saúde. Paralelamente às agruras da idade e aos desafios inerentes, os pensionistas e reformados têm ainda de lidar com tamanha incompetência e falta de transparência.
É natural que as notícias dos últimos dias - o "será assim", o "será assado" - causa ansiedade naqueles que serão alvo dessas medidas. Repito, tudo se torna mais grave quando se trata de um grupo social fragilizado.
Todavia, este é o meu ponto de vista, seguramente partilhado por muitos, mas ainda assim não será esse o entendimento de Passos Coelho e do seu séquito. Paulo Portas poderá mostrar mais preocupações, afinal de contas também se trata do seu eleitorado e Maio já é mês de eleições.

quinta-feira, 27 de março de 2014

A união das esquerdas

Possível para uns, irrealizável para outros, a união das esquerdas podia muito bem ser o primeiro passo para uma verdadeira mudança nas políticas que estão a debilitar a Europa.
No caso português, essa união tem sido impossível de se concretizar. Com efeito, é mais fácil acentuar as diferenças, acautelando, numa perspectiva bem mais pragmática, os lugares devidos, do que enaltecer os pontos em comum.
No entanto, uma alternativa para o país deveria passar pela união das esquerdas. Não será possível: o PS mantém-se comprometido com as soluções europeias e pouco empenhado em contrariar verdadeiramente essas soluções; PCP e Bloco de Esquerda que advogam mudanças mais significativas ficam deste modo sozinhos. De facto, o PS estará, no essencial, mais próximo da maioria que governa o país do que dos partidos à sua esquerda.
Voltando ao plano europeu, os cidadãos têm total percepção da desunião das esquerdas e da fragmentação da mensagem política. Em contrapartida, a direita entende-se.
A ausência de união das esquerdas já teve os seus custos na Europa - a ascensão do neonazismo nos anos trinta também foi o resultado da discórdia entre as esquerdas alemãs. É importante não esquecer.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Sobre o empobrecimento


Sobre o empobrecimento Passos Coelho, primeiro-ministro, tem muito a dizer. Ainda ontem abordou o assunto, referindo que as prioridades do Governo devem recair sobre os Portugueses socialmente mais fragilizados. Esta deve ser a prioridade pós-troika - as políticas sociais.
As afirmações de ontem foram proferidas pela mesma pessoa que disse ter como objectivo o empobrecimento; estas afirmações são de quem fez do empobrecimento um instrumento de transformação da sociedade portuguesa.
Dados do Instituto Nacional de Estatística revelam uma realidade atroz: perto de dois milhões de Portugueses em risco de pobreza; uma realidade pensada por Passos Coelho e pelo seu séquito, a coberto de uma crise que abriu as portas ao impensável.
Com efeito, o que resta do Estado Social é que impede que os números relativos à pobreza não sejam ainda mais acutilantes. Sem o que resta do Estado Social metade dos Portugueses seriam pobres.
Todavia, se por um lado se afirma que o empobrecimento é o resultado do processo de ajustamento, o que dizer do facto dos ricos estarem mais ricos, enquanto a generalidade do país empobrece? É também este o resultado do ajustamento? A quem serviu afinal a austeridade?
São perguntas simples e cujas respostas primam igualmente pela simplicidade. Vamos aguardar para ver se Passos Coelho dá uma explicação para o aumento da desigualdade social. É melhor esperamos sentados.

terça-feira, 25 de março de 2014

Esconder o jogo


Numa democracia consolidada os cidadãos não aceitam que os seus representantes eleitos escondam o jogo, sobretudo quando estão mais cortes em cima da mesa.
É evidente que mesmo nas democracias mais maduras, os representantes políticos não contam toda a verdade. Sabemos que não é assim que as coisas funcionam.
É assim antes dos períodos eleitorais e é sobretudo assim volvidos esses períodos eleitorais. Ninguém é ingénuo a esse ponto.
Todavia, quando se insiste em esconder o jogo em matérias tão sensíveis como futuros cortes no rendimento disponível, depois de uma longa sucessão de outros cortes cujas consequências são notórias, estamos a entrar no campo da perfídia. Como projectar o que resta de futuro quando se esconde o que esse futuro reserva? E o que dizer da ansiedade que se gera perante a mera hipótese de futuros cortes? Sabemos também que estas questões são de somenos para um governo desprovido de qualquer sensibilidade social. Tudo é permitido porque, colectivamente, permitimos que tudo seja permitido.

segunda-feira, 24 de março de 2014

A fazer o seu caminho

A primeira volta das eleições municipais em França ficaram marcadas pela derrota estrondosa do partido socialista de Hollande e pelos resultados positivos da Frente Nacional de Marine Le Pen que conquistou uma câmara e ganhou em sete municípios.
A extrema-direita, mais ou menos modernizada, mais ou menos contida na manifestação do seu verdadeiro ideário, vai fazendo o seu caminho em vários países europeus, designadamente em França, perante os olhares indiferentes de uma Europa fingidora: finge que está tudo bem quando manifestamente não está.
Nem as lições que a História nos deixou parece serem suficientes para que a Europa abra os olhos.
Já aqui se escreveu que o falhanço de Hollande criará uma oportunidade de ouro. Marine Le Pen aproveita. Os resultados positivos da extrema-direita em vários países europeus revelam o desnorte de uma Europa que se vira contra ela própria, num comportamento autofágico
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sexta-feira, 21 de março de 2014

Caixa de pandora

A inexistência de coesão na Ucrânia - facto que se tornou incontornável nos últimos meses - domina a atenção de todos. A região da Crimeia afastou-se da Ucrânia, solicitando a anexação à Rússia, outras regiões da Ucrânia se sucedem. Abriu-se a caixa de Pandora, embora a acção de alguns países europeus, com a Alemanha à cabeça, tenha sido tudo menos inocente.
A instabilidade criada numa região já por si historicamente instável é, no mínimo, um acto de tremenda irresponsabilidade.
Com efeito, da Rússia não se espera muito, desde logo por estar muito longe de ser uma democracia; dos Estados Unidos também não se espera muito, tendo em consideração o seu vasto currículo em matéria de intervenção externa, amiúde à revelia do Direito Internacional. Já no que diz respeito à União Europeia, esperar-se-ia uma posição mais sensata e não aquela de apoio à oposição ao Presidente ucraniano com os resultados que todos conhecemos.
Estados Unidos e Rússia digladiam-se: uns com o objectivo de se aproximarem do leste, outros com o objectivo de manterem o leste sob a sua influência, afastando naturalmente o ocidente. A UE, com a sua habitual política externa desastrosa e ditada pelo eixo franco-alemão, com preponderância da Alemanha age irresponsavelmente. O futuro daquela região é também da responsabilidade da UE, com ou sem sanções, com ou sem reacções que pugnam pela ilegalidade das anexações.