Para a construção de uma sociedade justa e equitativa é necessário que a política e que os políticos se centrem na consolidação de três elementos: o bem-estar social, a eficácia económica e a salvaguarda do Estado democrático. Todavia, poucos percebem este objectivo enquanto outros esquecem-no rapidamente.
segunda-feira, 17 de março de 2014
Longe demais
A pretexto de uma crise criada por quem hoje tira benefícios da mesma, um governo parece apostado em tudo fazer para recuperar o país. Por outro lado, esse mesmo governo vê-se sem alternativas, depois de largos anos de despesismo e de um memorando imposto por instâncias internacionais. Disseram-nos, até à exaustão.
Nesse sentido, esse dito governo viu-se forçado a cortar em salários, pensões e no Estado Social. Não havia outra alternativa, foi-nos dito, até à exaustão. De resto, todos vivemos acima das nossas possibilidades e se as coisas não resultarem por aqui há sempre a possibilidade de sair do país em busca de uma nova aventura.
Diz-se que o primeiro-ministro, o seu governo e o seu partido padecem de uma incomensurável insensibilidade social. Mas será mesmo? Se assim é, o que dizer do chumbo no Parlamento da Lei da Co-adopção?
Até há pouco tempo o governo mais não fazia do que cumprir o desígnio neoliberal: empobrecimento de uma vasta maioria, ao mesmo tempo em que uma minoria exígua e plutocrata enriquece. O governo, ou melhor, o PSD, lembra-se de trazer à discussão o tema da co-adopção. Nada melhor para desviar as atenções. Mas não se estará a ir longe demais? Se acrediramos que os cortes em pensões, salários e no Estado Social são dramáticos; se nos convencemos de que o desemprego é um dos piores flagelos sociais, o que dizer da instrumentalização de políticas que deveriam ter no seu cerne o bem-estar de crianças? Ou seja, uma criança pode viver com dois progenitores do mesmo sexo, mas se um falece, essa mesma criança - criada pelos dois - já não poderá ficar com o sobrevivente. Não haja dúvidas: a história da co-adopção não passou de uma manobra dos partidos da maioria, havendo claramente uma tentativa de se instrumentalizar uma questão de uma sensibilidade indiscutível. Foi-se, indubitavelmente, longe de mais.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Reestruturar está fora de questão
As palavras em epígrafe pertencem ao
primeiro-ministro. A reestruturação pensada por Passos Coelho incide
sobre o não pagamento de parte de salários e pensões. No que diz
respeito à dívida incomensurável, está fora de questão qualquer género
de reestruturação. O manifesto é assim recebido com desdém pelo
primeiro-ministro.
De resto, a dívida e a austeridade proporcionam as condições perfeitas para a aplicação de um ideário há muito almejado por uma determinada direita - um ideário que postula a transformação da sociedade portuguesa através do empobrecimento da sua maioria.
Reestruturar está fora de questão. Vamos então todos rezar aos santinhos para que o país venha a ter um superávit primário de 3 por cento nas próximas duas décadas. Vamos ter fé.
A prioridade prende-se com o pagamento de juros, reestruturar é, por conseguinte, palavra proibida.
Para além da reestruturação, verifica-se a necessidade de se perceber que dívida é esta, quais são os seus contornos. Já aqui referimos que essas dúvidas não são para serem dissipadas. Quanto à impossibilidade de pagamento da dívida verifica-se um consenso, por muito que não seja esse o consenso que Passos Coelho tem vindo a procurar.
O manifesto deu origem também à exoneração de dois consultores do Presidente da República, após os mesmos terem subscrito o famigerado manifesto. Um sinal inquietante, mais um.
De qualquer modo, vejamos os aspectos positivos do manifesto que apela à reestruturação da dívida, para grande desconforto de Passos Coelho: a manifestação por parte do Presidente do seu entendimento do que é a democracia, onde claramente não cabe a pluralidade de opinião - a notícia que dá conta de que terão sido os próprios a afastarem-se não convence -; o manifesto traz a lume a discussão sobre a impossibilidade de se pagar a dívida; o manifesto mexeu com o país que se tem vindo a afundar na mais abjecta letargia.
Tomara nós que o próximo manifesto se centrasse na apologia do esclarecimento liminar dos verdadeiros contornos da dívida. Tomará nós!
De resto, a dívida e a austeridade proporcionam as condições perfeitas para a aplicação de um ideário há muito almejado por uma determinada direita - um ideário que postula a transformação da sociedade portuguesa através do empobrecimento da sua maioria.
Reestruturar está fora de questão. Vamos então todos rezar aos santinhos para que o país venha a ter um superávit primário de 3 por cento nas próximas duas décadas. Vamos ter fé.
A prioridade prende-se com o pagamento de juros, reestruturar é, por conseguinte, palavra proibida.
Para além da reestruturação, verifica-se a necessidade de se perceber que dívida é esta, quais são os seus contornos. Já aqui referimos que essas dúvidas não são para serem dissipadas. Quanto à impossibilidade de pagamento da dívida verifica-se um consenso, por muito que não seja esse o consenso que Passos Coelho tem vindo a procurar.
O manifesto deu origem também à exoneração de dois consultores do Presidente da República, após os mesmos terem subscrito o famigerado manifesto. Um sinal inquietante, mais um.
De qualquer modo, vejamos os aspectos positivos do manifesto que apela à reestruturação da dívida, para grande desconforto de Passos Coelho: a manifestação por parte do Presidente do seu entendimento do que é a democracia, onde claramente não cabe a pluralidade de opinião - a notícia que dá conta de que terão sido os próprios a afastarem-se não convence -; o manifesto traz a lume a discussão sobre a impossibilidade de se pagar a dívida; o manifesto mexeu com o país que se tem vindo a afundar na mais abjecta letargia.
Tomara nós que o próximo manifesto se centrasse na apologia do esclarecimento liminar dos verdadeiros contornos da dívida. Tomará nós!
quarta-feira, 12 de março de 2014
Conclusão óbvia
O famigerado manifesto subscrito por setenta personalidades da
esquerda à direita chega a uma conclusão óbvia: a dívida não é pagável.
Cavaco Silva, por sua vez, fez as suas contas e aponta para a
necessidade do país permanecer sob vigilância durante mais 21 anos.
A essa conclusão - hoje são muitos os iluminados - já outros tinham chegado. Reacções? Eram loucos, profetas da desgraça, geralmente conotados com a esquerda "radical".
Agora, Ferreira Leite, Bagão Félix, Adriano Moreira, João Cravinho, Freitas do Amaral, António Saraiva, entre muitos outros, não pertencerão seguramente a essa esquerda "radical".
A essa conclusão - hoje são muitos os iluminados - já outros tinham chegado. Reacções? Eram loucos, profetas da desgraça, geralmente conotados com a esquerda "radical".
Agora, Ferreira Leite, Bagão Félix, Adriano Moreira, João Cravinho, Freitas do Amaral, António Saraiva, entre muitos outros, não pertencerão seguramente a essa esquerda "radical".
Importa
sublinhar que ainda antes de qualquer reestruturação seria imperativo
perceber quais os contornos da dívida. Essa é outra necessidade óbvia.
Será a dívida legítima? Não sabemos e pelo andar da carrugem nunca
saberemos. Auditar a dívida não faz parte dos planos dos partidos do bloco central e
os cidadãos, em Portugal e noutros países, estão concentrados na árdua tarefa de sobreviver diariamente.
Os setenta subscritores pugnam por
uma reestruturação "responsável da dívida", mas essa sua pretensão,
embora claramente legítima, perde força perante uma multiplicidade de
incógnitas relativamente aos contornos dessa mesma dívida.
O
primeiro-ministro já respondeu ao manifesto, num misto de desprezo e ignorância. De
um modo geral, o caminho está traçado e Passos Coelho é um indefectível
apoiante desse caminho.
Perante tanta passividade, o caminho vai, de facto, sendo percorrido e o que ficou para trás, ficou para trás:
salários condignos, mínimos de segurança no emprego, Estado Social,
cerceamento das desigualdades sociais e consolidação da democracia.
terça-feira, 11 de março de 2014
Reestruturação da dívida
Numa iniciativa inaudita várias personalidades de direita
e de esquerda apelam à reestruturação da dívida portuguesa, por eles
considerada insustentável.
Manuela Ferreira Leite, Adriano Moreira, João Cravinho e Francisco Louça são apenas algumas das personalidades que assinaram o manifesto.
A necessidade de reestruturação da dívida já havia sido avançada no passado. Quem ousou sugerir essa necessidade foi rotulado de radical e irreal. Essas eram ideias de uma esquerda mais radical que acreditava na impossibilidade de conciliar crescimento económico e níveis cavalares de austeridade. E mesmo com crescimento económico, esse crescimento teria de atingir níveis inéditos para que a dívida atingisse alguma sustentabilidade.
Manuela Ferreira Leite, Adriano Moreira, João Cravinho e Francisco Louça são apenas algumas das personalidades que assinaram o manifesto.
A necessidade de reestruturação da dívida já havia sido avançada no passado. Quem ousou sugerir essa necessidade foi rotulado de radical e irreal. Essas eram ideias de uma esquerda mais radical que acreditava na impossibilidade de conciliar crescimento económico e níveis cavalares de austeridade. E mesmo com crescimento económico, esse crescimento teria de atingir níveis inéditos para que a dívida atingisse alguma sustentabilidade.
Fala-se
reiteradamente de consenso e de facto começa a verificar-se um consenso
em torno do inexorável falhanço da política de austeridade que se
perpetuará por décadas. Esse é o consenso que existe, um consenso que
escapa ao Executivo de Passos Coelho; um consenso ignorado pelas
instâncias europeias comandadas pela Alemanha.
No
manifesto é feita uma referência ao perdão e à reestruturação da dívida
alemã, facto que deu à Alemanha as condições para atingir o seu
famigerado milagre económico. É sempre importante ter presente alguns factos históricos.
Hoje,
a necessidade de reestruturar uma dívida absolutamente insustentável é
sublinhada por personalidades da direita à esquerda. Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades.
segunda-feira, 10 de março de 2014
Mais vinte anos no inferno
Cavaco Silva, nos seus roteiros, alerta para a necessidade de Portugal passar mais vinte anos sob vigilância externa, como se essa mesma vigilância constituísse uma espécie de protecção.
Nada de novo, portanto. Já se sabe que dívida é escravatura, sobretudo quando essa dívida atinge as dimensõe conhecidas, continuando a recrudescer.
A análise do Presidente da República não causam espanto: o sucesso do programa (?), a necessidade de um segunto resgate, perdão, de um programa cautelar, a necessidade de total subjugação do país às instituições externas e, claro está, que essa subjugação leve tanto tempo quanto possível.
Consequentemente, não há nada nos capítulos que o Expresso deu a conhecer que cause qualquer espanto - todas as medidas, incluíndo as mais socialmente iniquas, levadas a cabo pelo Executivo de Passos Coelho, contaram com o aval do Presidente.
Não sei como Cavaco Silva pretende ficar na História do país, mas aposto que a imagem deixada não será a mais favorável: subserviência, inacção, manobras insidiosas e desprezo pelos cidadãos poderão ser palavras encontradas nas páginas dos livros de História das próximas décadas. Certo é que o país não aguenta mais vinte anos de "tutela externa"; mais vinte anos no inferno.
sexta-feira, 7 de março de 2014
Não deixa de ser pertubador
Ontem foi dia de manifestação das forças policiais,
manifestação que redundou em horas de tensão. Pelo meio, os sindicatos
das forças polciais conseguiram uma breve reunião com a inefável
Presidente da Assembleia da República.
A manifestação das polícias mais não foi do que uma demonstração de força com o intuito legítimo de reivindicar melhores salários e melhores condições de trabalho. Sobre as pretensões das forças policiais parece-me não haver discussão. São pretensões legítimas e é também com legitimidade que os sindicatos utilizam os instrumentos ao seu dispôr no sentido de ver essas pretensões atendidas. Quanto há forma, já haverá, reconhece-se, margem para uma discussão.
De qualquer modo, não deixa de ser inquietante assistir a cenas como as que as televisões passaram ontem. A manifestação em si não provoca inquietação, mas antes as razões que levaram dezenas de milhar de polícias a protestarem com tanta veemência. O sofrimento que perpassa aquelas vidas é, à semelhança de tantos outros cidadãos que atravessam dificuldades, simplesmente ignorado pelo Governo. O que choca é essa indiferença, seja em relação a esta classe profissional, seja em relação a outros trabalhadores, desempregados, reformados e pensionistas.
A indiferença de quem escolheu o empobrecimento como matriz política não deixa de ser perturbadora. Nunca deixará.
A manifestação das polícias mais não foi do que uma demonstração de força com o intuito legítimo de reivindicar melhores salários e melhores condições de trabalho. Sobre as pretensões das forças policiais parece-me não haver discussão. São pretensões legítimas e é também com legitimidade que os sindicatos utilizam os instrumentos ao seu dispôr no sentido de ver essas pretensões atendidas. Quanto há forma, já haverá, reconhece-se, margem para uma discussão.
De qualquer modo, não deixa de ser inquietante assistir a cenas como as que as televisões passaram ontem. A manifestação em si não provoca inquietação, mas antes as razões que levaram dezenas de milhar de polícias a protestarem com tanta veemência. O sofrimento que perpassa aquelas vidas é, à semelhança de tantos outros cidadãos que atravessam dificuldades, simplesmente ignorado pelo Governo. O que choca é essa indiferença, seja em relação a esta classe profissional, seja em relação a outros trabalhadores, desempregados, reformados e pensionistas.
A indiferença de quem escolheu o empobrecimento como matriz política não deixa de ser perturbadora. Nunca deixará.
quinta-feira, 6 de março de 2014
Espírito democrático
Espírito democrático, há quem o tenha e quem nem
tão-pouco sonhe com a sua existência. Ontem, no debate quinzenal na
Assembleia da República, o primeiro-ministro recusou responder a
questões colocadas pela oposição. Segundo Passos Coelho, tendo em
consideração que a sua palavra tem pouco valor, é escusado responder às
questões colocadas pelos partidos da oposição.
Alguns deputados da oposição acusaram Passos Coelho de faltar à verdade. Com efeito, os cortes em pensões e salários - alegadamente temporários - são agora definitivos. O primeiro-ministro reagiu, alheio ao espírito democrático que, aliás, desconhece por completo, resusando responder às questões. Assim, também ficámos sem saber que austeridade é que ainda aí vem.
Ora, para além do espectáculo em pleno parlamento não se ter pautado pela sobriedade, o primeiro-ministro mostrou não saber viver em democracia. O Governo tem de responder à Assembleia da República. O desprezo que o primeiro-ministro mostrou por este órgão é inquietante.
Até se aceitaria que Passos Coelho reagisse de forma veemente às acusações da oposição, mas não se pode aceitar o desprezo que o primeiro-ministro manifestou por vários representantes do povo português.
Já se sabia que o espírito democrático não é particularmente caro aos membros deste governo, mas ontem ficou patente a total ausência desse espírito.
Alguns deputados da oposição acusaram Passos Coelho de faltar à verdade. Com efeito, os cortes em pensões e salários - alegadamente temporários - são agora definitivos. O primeiro-ministro reagiu, alheio ao espírito democrático que, aliás, desconhece por completo, resusando responder às questões. Assim, também ficámos sem saber que austeridade é que ainda aí vem.
Ora, para além do espectáculo em pleno parlamento não se ter pautado pela sobriedade, o primeiro-ministro mostrou não saber viver em democracia. O Governo tem de responder à Assembleia da República. O desprezo que o primeiro-ministro mostrou por este órgão é inquietante.
Até se aceitaria que Passos Coelho reagisse de forma veemente às acusações da oposição, mas não se pode aceitar o desprezo que o primeiro-ministro manifestou por vários representantes do povo português.
Já se sabia que o espírito democrático não é particularmente caro aos membros deste governo, mas ontem ficou patente a total ausência desse espírito.
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