segunda-feira, 10 de março de 2014

Mais vinte anos no inferno


Cavaco Silva, nos seus roteiros, alerta para a necessidade de Portugal passar mais vinte anos sob vigilância externa, como se essa mesma vigilância constituísse uma espécie de protecção.
Nada de novo, portanto. Já se sabe que dívida é escravatura, sobretudo quando essa dívida atinge as dimensõe conhecidas, continuando a recrudescer.
A análise do Presidente da República não causam espanto: o sucesso do programa (?), a necessidade de um segunto resgate, perdão, de um programa cautelar, a necessidade de total subjugação do país às instituições externas e, claro está, que essa subjugação leve tanto tempo quanto possível.
Consequentemente, não há nada nos capítulos que o Expresso deu a conhecer que cause qualquer espanto - todas as medidas, incluíndo as mais socialmente iniquas, levadas a cabo pelo Executivo de Passos Coelho, contaram com o aval do Presidente.
Não sei como Cavaco Silva pretende ficar na História do país, mas aposto que a imagem deixada não será a mais favorável: subserviência, inacção, manobras insidiosas e desprezo pelos cidadãos poderão ser palavras encontradas nas páginas dos livros de História das próximas décadas. Certo é que o país não aguenta mais vinte anos de "tutela externa"; mais vinte anos no inferno.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Não deixa de ser pertubador

Ontem foi dia de manifestação das forças policiais, manifestação que redundou em horas de tensão. Pelo meio, os sindicatos das forças polciais conseguiram uma breve reunião com a inefável Presidente da Assembleia da República.
A manifestação das polícias mais não foi do que uma demonstração de força com o intuito legítimo de reivindicar melhores salários e melhores condições de trabalho. Sobre as pretensões das forças policiais parece-me não haver discussão. São pretensões legítimas e é também com legitimidade que os sindicatos utilizam os instrumentos ao seu dispôr no sentido de ver essas pretensões atendidas. Quanto há forma, já haverá, reconhece-se, margem para uma discussão.
De qualquer modo, não deixa de ser inquietante assistir a cenas como as que as televisões passaram ontem. A manifestação em si não provoca inquietação, mas antes as razões que levaram dezenas de milhar de polícias a protestarem com tanta veemência. O sofrimento que perpassa aquelas vidas é, à semelhança de tantos outros cidadãos que atravessam dificuldades, simplesmente ignorado pelo Governo. O que choca é essa indiferença, seja em relação a esta classe profissional, seja em relação a outros trabalhadores, desempregados, reformados e pensionistas.
A indiferença de quem escolheu o empobrecimento como matriz política não deixa de ser perturbadora. Nunca deixará.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Espírito democrático

Espírito democrático, há quem o tenha e quem nem tão-pouco sonhe com a sua existência. Ontem, no debate quinzenal na Assembleia da República, o primeiro-ministro recusou responder a questões colocadas pela oposição. Segundo Passos Coelho, tendo em consideração que a sua palavra tem pouco valor, é escusado responder às questões colocadas pelos partidos da oposição.
Alguns deputados da oposição acusaram Passos Coelho de faltar à verdade. Com efeito, os cortes em pensões e salários - alegadamente temporários - são agora definitivos. O primeiro-ministro reagiu, alheio ao espírito democrático que, aliás, desconhece por completo, resusando responder às questões. Assim, também ficámos sem saber que austeridade é que ainda aí vem.
Ora, para além do espectáculo em pleno parlamento não se ter pautado pela sobriedade, o primeiro-ministro mostrou não saber viver em democracia. O Governo tem de responder à Assembleia da República. O desprezo que o primeiro-ministro mostrou por este órgão é inquietante.
Até se aceitaria que Passos Coelho reagisse de forma veemente às acusações da oposição, mas não se pode aceitar o desprezo que o primeiro-ministro manifestou por vários representantes do povo português.
Já se sabia que o espírito democrático não é particularmente caro aos membros deste governo, mas ontem ficou patente a total ausência desse espírito.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

O cerne da questão

Escrever todos os dias não é fácil, sobretudo quando se escreve sobre o país. Não raras vezes sentimos que o esforço é infrutífero, que não passamos a ideia central e que nos perdemos em detalhes sem grande importância. Sentimos, de um modo geral, que o exercício diário, precisamente por ser reiterado, vai perdendo a sua força. O nosso maior receio acaba por ser não passar a ideia central que norteia o fundamento do que escrevemos - textos de opinião é certo, mas que procuramos sempre fundamentar.
A ideia central, o cerne da questão, é a que se prende com o rumo escolhido, em particular nos últimos anos. Esse rumo, primeiro foi escolhido pelo centrão, hoje é levado a cabo com muito maior intensidade por um Governo que não se coíbe de mostrar as suas garras neoliberais.
Contrariamente ao que o líder da bancada parlamentar do PSD disse há tão pouco tempo, o país não está bem, não são apenas as pessoas que não estão bem. O rumo seguido é do empobrecimento e da escravatura da dívida. Não é mais do que isto. Um rumo que beneficia apenas alguns, os mesmos que pretendem perpetuar a escravatura da dívida, o enfraquecimento do Estado Social, os mesmos que promovem a desvalorização social e que potenciam a precariedade laboral.
Dir-se-á, como de resto tem sido dito até à exaustão que não há alternativas. Nem haverá, tanto mais que quem tem o domínio do espaço público - comunicação social - não aceita que quaisquer alternativas sejam discutidas. Culpabiliza-se e expurga-se o pecado através do empobrecimento.
Escrever todos os dias não é fácil, sobretudo quando se escreve sobre um país refém do pensamento único e dominado pela promiscuidade entre poder político e poder económico, entre poder político e comunicação social. Ainda assim, insiste-se. Desistir seria mais talvez mais confortável, mas por aqui não é opção.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Ainda a Ucrânia

Depois da queda do Presidente Ucraniano e de alguns dias de aparente acalmia, a região da Crimeia (república autónoma da Ucrânia, de forte influência russa) responde de forma taxativa aos acontecimentos que marcaram a Ucrânia nos últimos meses, com particular ênfase nas últimas semanas.
Assim, o Parlamento e o governo da Crimeia foram ocupados por homens armados.
No princípio da semana, o Presidente Russo, Vladimir Putin, colocou tropas na fronteira ucraniana.
Já aqui se tinha escrito que Vladimir Putin não se limitaria a assistir aos acontecimentos na Ucrânia de forma impávida, como se de um mero espectador se tratasse.
O resultado quer da tentativa dos Estados Unidos e da UE (com a Alemanha à cabeça) de alastrar a sua influência àquela região, com todos os proveitos económicos e financeiros associados, quer a tentativa da Rússia de manter aquela região sob a sua influência redundará na divisão inexorável do país. Recorde-se que a zona ocidental da Ucrânia quer uma maior proximidade à Europa, enquanto a zona oriental prefere manter relações de grande proximidade com a Rússia.
Não me espanta a posição da Rússia, um país mais próximo do despotismo do que de qualquer outra coisa; um país com fortes tendências hegemónicas. Nem tão-pouco me espanta que os Estados Unidos (mesmo com Obama) procure alargar a sua influência ao leste da Europa, mesmo que isso nos recorde dos tempos da guerra fria; espanta-me ainda assim a conduta europeia, encabeçada pela a Alemanha. Uma Europa que ao apoiar de forma tão clara a oposição se "esqueceu" da história daquele país, das divisões geográficas, culturais e linguísticas que são profusas na Ucrânia; uma Europa que ignora os seus próprios sinais de decadência enquanto anda a reboque de um só país; uma Europa que de unida já não tem nada; uma Europa que em nome do dinheiro (a "ajuda" que ofereceu à Ucrânia, juntamente com o FMI, não deixa de ser curiosa, com a aplicação das mesmas receitas que deixam os países depauperados enquanto uma minoria se regojiza com os lucros) mostra que tudo pode ser aceitável, incluindo divisões e hipotéticas guerras civis - o mais do que provável futuro na Ucrânia.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Se o rídiculo matasse...


Quando pensavamos que ja tinhamos visto tudo em política, o PSD surpreende-nos com o regresso de Miguel Relvas provando que naquele partido desvirtuado há lugares para todos, pelo menos para todos os amigos.
Miguel Relvas regressa para encabeçar a lista do Conselho Nacional. Muitos congressistas foram apanhados de surpresa e acredita-se que alguns não se mostraram particularmente satisfeitos com a escolha. No entanto, a celeuma acabou por não se verificar e tudo acaba bem com sorrisos e promessas de fazer o melhor pelo partido, sobretudo agora que se avizinha novo período eleitoral.
De Miguel Relvas não há muito a dizer, o ridículo tomou conta do ex-ministro, mas nem isso terá sido suficiente para demover Passos Coelho de o repescar, o que prova que o PSD é um partido onde há lugar para todos, pelo menos para todos aqueles que se enquadram num partido que está longe de se pautar pela competência e mais longe ainda dos interesses dos cidadãos. O regresso de Miguel Relvas também é um sinal do "vale tudo" que tanto provoca excitação no líder do PSD e primeiro-ministro. Se o rídiculo matasse... nunca em Portugal.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Eleições europeias

Maio é mês de eleições, desta feita eleições para o Parlamento Europeu. Segundo uma sondagem da Pollwatch, o centro-esquerda lidera as intenções de voto com uma ligeira vantagem.
Este resultado, a confirmar-se em Maio, prende-se indubitavelmente com o descontantamento do eleitorado relativamente à forma como a direita tem lidado com a crise. Porém, esse descontentamento beneficia também os partidos de extrema-direita e euro-cépticos, como é o caso da Frente Nacional em França e o UKIP no Reino Unido, partido que se posiciona contra a Europa.
Por outro lado, a abstenção poderá muito bem ser a grande vencedora destas eleições, tanto mais que o afastamento entre cidadãos e classe política (boa parte dela comprometida com interesses que não se coadunam com os interesses dos cidadãos) é cada vez mais significativa.
Finalmente, importa referir que estas eleições têm uma importância acrescida na precisa medida em que são determinantes - desde o Tratado de Lisboa - para a escolha do Presidente da Comissão Europeia, escolha essa levada a cabo pelo Parlamento Europeu.