quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ucrânia

A situação na capital ucraniana, Kiev, aproxima-se vertiginosamente da guerra civil. Os protestos subiram de tom com exigências de um regresso à Constituição de 2004, depois da suspensão das negociações com a União Europeia, facto que deu origem às manifestações de Novembro.
O país está dividido: a parte ocidental mais favorável a uma aproximação à UE e a parte oriental pro-rússia. No entanto, outros problemas são subjacentes às manifestações: a corrupção, a oligarquia instalada, as desigualdades sociais são os exemplos mais fortes.
O desfecho destas manifestações que se transformam rapidamente numa espécie de guerra civil é imprevisível. Certezas, porém, há pelo menos duas: a Rússia que tradicionalmente tem dominado a região que é hoje a Ucrânia não vai abdicar de ter este país sob o seu domínio e a União Europeia que apoia a oposição não fará mais do que tem feito, não excluindo a possibilidade de eventualmente recuar no apoio que tem dado à oposição ao Presidente Viktor Yanukovich (pró-russo).
Outro elemento que não pode ser esquecido prende-se com a preponderância de movimentos de extrema-direita nas manifestações, o que nos leva a questionar qual o futuro da Ucrânia num cenário de eventual queda do actual Presidente.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Pouco abonado

Pedro Passos Coelho, entre um bacalhau e outro, confessou ser pouco abonado. A confissão teve lugar no Salão Internacional do Setor Alimentar e Bebidas.A frase do primeiro-ministro surgiu depois de provar bacalhau e reconhecer que aquele produto é "cada vez mais para pessoas abonadas", não sendo esse o seu caso.Ou dito por outras palavras, Passos Coelho e bacalhau não combinam bem devido ao facto do primeiro-ministro ser pouco abonado.Em sentido contrário, e sentido-se cheia de confiança, a ministra das Finanças num outro sítio que não o Salão Internacional do Setor Alimentar e Bebidas considera que Portugal está a fazer história, "será a primeira vez que um governo de coligação conclui o seu mandato" e também aqui o nosso país faz história, "apesar das dificuldades".São notórias as tentativas de se alimentar, q.b., as expectativas dos cidadãos. O futuro é um pouco mais promissor, mas os sacrifícios são para continuar. É esta a estratégia. Os próximos meses serão marcados por palavras mais ou menos optimistas, consoante o protagonista, que pretendem caracterizar um país que retrocedeu décadas.
Andar pelo meio do bacalhau e confessar-se pouco abonado terá sido um dos episódios mais interessantes protagonizados por Pedro Passos Coelho.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Triunfo da apatia

Depois da destruição, tudo menos paulatina, de salários, pensões e dos pilares do Estado Social, chega agora o triunfo da apatia.
Na verdade, essa letargia que acompanhou o atropelamento de direitos foi contrariada em alguns raros momentos, tendo na manifestação contra a TSU o seu exemplo máximo. Havia quem questionasse o rumo do país e havia quem estaria disposto a lutar contra medidas que oneravam sobremaneira a classe média. Talvez por se tratar de uma medida que afectava quem acreditava escapar pelos pingos da chuva é que o resultado tenha sido o de várias centenas de milhares de pessoas nas ruas.
Esse tempo acabou. Entretanto de irrevogável em irrevogável, de demissão efectiva em demissão efectiva, o Governo foi fazendo o seu caminho, deixando a impressão de que nada nem ninguém teria a capacidade de contrariar o rumo do país.
Agora, com eleições à porta, este ano Europeias, no próximo legislativas, o Governo procura amenizar o discurso de austeridade, ao mesmo tempo que anuncia um futuro próximo muito mais promissor com a saída da troika e com o famigerado sucesso do Governo.
Hoje vive-se o triunfo da apatia. As condições estão reunidas: aparente impossibilidade de mudar o governo; aparente inevitabilidade das políticas seguidas; aparente mudança de rumo (abrandamento do ritmo da austeridade) e expectativa em relação a um futuro ligeiramente mais promissor.
Pelo caminho fica um rasto de destruição sem precedentes que, contrariamente ao que se diz, não terá um fim tão inequívoco como isso, até porque, como aqui também já se disse, a escravatura da dívida continua a servir os interesses de alguns.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Passos Coelho e os antónimos

Pedro Passos Coelho agradeceu à troika por levar o país ao "caminho da estabilidade". Passos Coelho disse, sem se rir, que o país está agora a caminhar no sentido do desenvolvimento. Um desenvolvimento sem investigação, sem ciência, sem educação, sem cultura, sem classe média; um desenvolvimento que conta apenas com pobreza, baixos salários e com um Estado que tem cada vez menos serviços de natureza social disponíveis. É este o desenvolvimento que Passos Coelho apregoa; é também por isto que o primeiro-ministro agradece à troika.
Com efeito, este Governo, para além dos inúmeros defeitos que tem, manifesta dificuldade no domínio do léxico. Todos nos lembramos do "irrevogável". E agora percebemos que a palavra "desenvolvimento" não é familiar a Passos Coelho. Uma dificuldade que passa indubitavelmente pelos antónimos. Talvez Passos Coelho se referisse a um antónimo de "desenvolvimento" e não a "desenvolvimento" propriamente dito.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Regresso ao passado

O titulo não é feliz. Na verdade não se trata de um regresso ao passado, mas antes de um aproveitamento de um passado muito recente. Paradoxalmente e em sentido contrário ao que se fez (o pouco que se fez) logo após o rebentar da crise, agora é tempo de intensificar as políticas liberais que apregoam a total desregulação dos mecanismos que regulam as economias, em particular nos mercados e nas regras do comércio internacional. Atente-se ao Tratado Transatlântico, projecto que já ultrapassou a sua fase embrionária e que mudará em absoluto as relações comerciais entre EUA e UE, no sentido da mais inexorável desregulaçâo, beneficiando as grandes multinacionais, enfraquecendo em simultâneo os mecanismos democráticos. Um enfraquecimento que se consubstancia na possibilidade das grandes empresas processarem os Estados que não sigam as regras de desregulação. Dito por outras palavras: ou acatam ou serão severamente punidos, factor que contribui para o total condicionamento dos Estados.
Coloca-se a questão do lado das democracias: se nestas o poder dos cidadãos é soberano, como se explica então que sejam as empresas a tomar as grandes decisões que têm implicações directas na vida de cada um desses cidadãos?
A ainda maior liberalização dos mecanismos económicos só é possível com um simultâneo enfraquecimento da democracia.
Em 2008, após a crise do subprime, o mundo clamou por mais regras e por mais fiscalização de um sector que fazia e ainda faz o que quer. Os políticos, num primeiro momento, reagiram, alegando que fariam tudo para que os acontecimentos como o subprime não voltariam a acontecer. Esse ímpeto inicial esmoreceu por completo. Hoje uma boa parte da classe política, sobretudo aquela que se encontra no poder. vergou-se por completo aos interesses das grandes empresas e do sector financeiro. O resultado é evidente aos olhos de todos: mais desregulação, mesmo que escamoteada, que permite uma grande margem de manobra às empresas, sobretudo àquelas de grande dimensão; redução dos custos do trabalho e consequentemente empobrecimento dos cidadãos; desemprego alto que favorece a pressão sobre os custos salariais; desinvestimento em áreas do Estado e enfraquecimento do Estado Social, passando os serviços a serem fornecidos por empresas do sector privado; tibieza gradual da coesão social; retrocesso a vários níveis
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Surpresa

A ideia de que o aparelho do Estado é amiúde instrumentalizado e utilizado como prémio para quem favoreceu partidos políticos ganha força com o estudo da Universidade de Aveiro que analisou 11 mil nomeações entre 1995 e 2009 e concluiu que a maioria serviu para "recompensar lealdades partidárias e para controlar políticas públicas pelos governos.
Com efeito, as conclusões do estudo não constituem propriamente uma surpresa. A ideia da existência de "jobs for the boys" não era uma mera fantasia. Eles existem e comprometem, mais uma vez, a confiança que os cidadãos têm no poder político.
De igual modo, os partidos políticos dificilmente procurarão mudar seja o que for. Para quê? No pior dos cenários a taxa de abstenção sobe qualquer coisa, mas a eleição de um partido é sempre garantida, enquanto os outros distribuem lugares, uns mais outros menos. No pior dos cenários, os cidadãos criticam, sem grande fulgor, as promiscuidades.
No essencial, tudo permanece na mesma. Os partidos não mudam e os cidadãos, esses, permanecem relutantes à mudança. De resto, não há nem surpresas, nem tão-pouco consequências.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

No tempo do outro senhor

No tempo do outro senhor primeiro-ministro o país vivia um período de "asfixia democrática" - palavras de Manuela Ferreira Leite, a mesma pessoa que sugeriu uma "suspensão da democracia", a mesma pessoa que hoje tece severas críticas ao actual primeiro-ministro.
No tempo do outro senhor primeiro-ministro, o país vivia assolado por uma onda de condicionamento da liberdade de expressão e da pluralidade de opinião. Muitos teciam críticas, os mesmos que hoje se remetem ao silêncio.
No tempo do actual primeiro-ministro são feitas pressões para que órgãos sob a tutela do Estado não emitam e publicitem os seus relatórios (ver notícia do Público), vende-se património do Estado sem apelo nem agravo, decide-se sob o pretexto de um estado de excepção sem sequer se prestar quaisquer esclarecimento aos cidadãos.
No tempo do actual primeiro-ministro o seu o seu partido vive muito longe da liberdade plena.
No tempo do actual primeiro-ministro o desprezo pelos cidadãos é gritante, agindo os membros deste Governo como um conjunto de iluminados que, a prestarem algum esclarecimento, será às instituições europeias, à Alemanha e ao FMI. O resto, o cidadão, é secundário, para não ir mais longe.
Os tempos do outro senhor primeiro-ministro foram marcados pela chico-espertice, por alguma megalomania e pela insensatez. Os tempos do actual primeiro-ministros são marcados pelo empobrecimento da maior parte dos cidadãos, pelo enriquecimento da casta do costume e por um desprezo sem precedentes pelos cidadãos. A isto acresce a convivência sempre difícil com a democracia - uma democracia que implica sempre uma cidadania activa que por estas paragens anda na rua da amargura para gáudio dos senhores que estão no poder.