quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Surpresa

A ideia de que o aparelho do Estado é amiúde instrumentalizado e utilizado como prémio para quem favoreceu partidos políticos ganha força com o estudo da Universidade de Aveiro que analisou 11 mil nomeações entre 1995 e 2009 e concluiu que a maioria serviu para "recompensar lealdades partidárias e para controlar políticas públicas pelos governos.
Com efeito, as conclusões do estudo não constituem propriamente uma surpresa. A ideia da existência de "jobs for the boys" não era uma mera fantasia. Eles existem e comprometem, mais uma vez, a confiança que os cidadãos têm no poder político.
De igual modo, os partidos políticos dificilmente procurarão mudar seja o que for. Para quê? No pior dos cenários a taxa de abstenção sobe qualquer coisa, mas a eleição de um partido é sempre garantida, enquanto os outros distribuem lugares, uns mais outros menos. No pior dos cenários, os cidadãos criticam, sem grande fulgor, as promiscuidades.
No essencial, tudo permanece na mesma. Os partidos não mudam e os cidadãos, esses, permanecem relutantes à mudança. De resto, não há nem surpresas, nem tão-pouco consequências.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

No tempo do outro senhor

No tempo do outro senhor primeiro-ministro o país vivia um período de "asfixia democrática" - palavras de Manuela Ferreira Leite, a mesma pessoa que sugeriu uma "suspensão da democracia", a mesma pessoa que hoje tece severas críticas ao actual primeiro-ministro.
No tempo do outro senhor primeiro-ministro, o país vivia assolado por uma onda de condicionamento da liberdade de expressão e da pluralidade de opinião. Muitos teciam críticas, os mesmos que hoje se remetem ao silêncio.
No tempo do actual primeiro-ministro são feitas pressões para que órgãos sob a tutela do Estado não emitam e publicitem os seus relatórios (ver notícia do Público), vende-se património do Estado sem apelo nem agravo, decide-se sob o pretexto de um estado de excepção sem sequer se prestar quaisquer esclarecimento aos cidadãos.
No tempo do actual primeiro-ministro o seu o seu partido vive muito longe da liberdade plena.
No tempo do actual primeiro-ministro o desprezo pelos cidadãos é gritante, agindo os membros deste Governo como um conjunto de iluminados que, a prestarem algum esclarecimento, será às instituições europeias, à Alemanha e ao FMI. O resto, o cidadão, é secundário, para não ir mais longe.
Os tempos do outro senhor primeiro-ministro foram marcados pela chico-espertice, por alguma megalomania e pela insensatez. Os tempos do actual primeiro-ministros são marcados pelo empobrecimento da maior parte dos cidadãos, pelo enriquecimento da casta do costume e por um desprezo sem precedentes pelos cidadãos. A isto acresce a convivência sempre difícil com a democracia - uma democracia que implica sempre uma cidadania activa que por estas paragens anda na rua da amargura para gáudio dos senhores que estão no poder.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Bode expiatórios

Os imigrantes voltam a ser o bode expiatório da Europa, se é que alguma vez deixaram de o ser. Agora é a vez da Suíça, um país aparentemente longe de tudo, mas que contém em sim mesmo uma boa parte da Europa. E agora ainda mais longe da Europa.
Ganhou o sim contra "contra a emigração em massa", colocando também em causa a imigração oriunda do espaço comunitário. Aguarda-se uma reacção de Bruxelas. A taxa de participação foi considerável.
Toda a Europa, mesmo aqueles que estão fora do espaço da União Europeia, deixou de constituir um espaço de bem-estar e até de alguma inclusão. Os países, dentro e fora da UE, fecham-se sobre si próprios, procurando bodes expiatórios que expliquem os seus falhanços e o falhanço abissal do capitalismo na sua forma financeira. A culpa, dizem ou insinuam, é dos imigrantes. A História insiste em repetir-se
.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sorte


Neste malfado país, a sorte que outrora protegia os audazes, esbarra em contradições. A audácia transformou-se em cumprimento das obrigações fiscais. O Governo vai sortear automóveis topo de gama aos audazes que pedirem factura.
Uma contradição desta medida, cujo carácter rídiculo é indelével, prende-se com o facto de se tratar do mesmo Governo que insiste que os Portugueses vivem acima das suas possibilidades. Ora, é a esses mesmos Portugueses incautos e irresponsáveis que o Governo pretende oferecer automóveis topo de gama - um luxo, uma ideia que para alguns contribuirá para contrariar toda a espécie de miséria.
Por outro lado, não se percebe bem, e o secretário de Estado preferiu respostas evasivas, se aqueles que mais gastarem mais probabilidades têm de ganhar o dito automóvel topo de gama. Se isso se confirmar, a tal ideia de que o automóvel poderá contrariar toda a espécie de misérias perde força. É evidente que quem mais gasta - quem faz compras de elevado valor - é quem mais tem dinheiro.
De um modo geral, a ideia é bacoca, resultado de mentes exíguas que pretendem copiar o que se faz em alguns países, não se dando conta do rídiculo e das contradições que a medida acarrata. E se, de facto, têm essa noção, ignoram-na. Simplesmente ignoram-na.
É também evidente que a mera possibilidade de ganhar um automóvel de luxo, a mera posse de automóvel de luxo agradará a alguns. Mas também é óbvio que a realidade de um país empobrecido levará a que muitos desses mesmos automóveis regressem ao mercado para serem vendidos. Seja como for, a cenoura à frente do burro pode mesmo resultar.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Um passeio na praia


Os americanos têm uma expressão que é (mesmo que inconscientemente) familiar a Pedro Passos Coelho e ao seu séquito: "just a walk on the beach", o que numa tradução literal dá origem a qualquer coisa como "apenas um passeio na praia" - quaquer coisa que será fácil, muito fácil.
É essa facilidade que se tornou indissociável da governação de Passos Coelho: é fácil cortar salários, pensões, vender o país aos pedaço, cortar na saúde, educação, ciência, até vender Mirós, não tivessem sido uns chatos a levantarem problemas. Mas ainda assim será fácil: os quadros são para vender e mais nada.
O passeio na praia de Passos Coelho é o resultado directo da inacção quer dos partidos da oposição, quer dos sindicatos (a CGTP acaba por ser uma excepção), quer dos cidadãos.
Com tanta facilidade tudo é permitido. Não existindo qualquer oposição, o que parecia inexequível deixa de o ser. Toda a governação tem-se pautado por essa facilidade, com a ajuda, claro está, de toda a espécie de chantagens e de processos de culpabilização colectiva. O mais recente exemplo é o de Poiares Maduro que ainda ontem num canal de televisão voltou a reiterar a necessidade de cortes nas pensões para salvaguardar as pensões daqueles que hoje são jovens. Fora da questão da sustentabilidade da segurança social ficam todas as saídas de dinheiro e outras manobras contabilísticas que nada têm a ver com a segurança social. Meros detalhes. Afinal de contas, isto de governar o país pode parecer difícil, mas também pode ser apenas um passeio na praia.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Retrocessos

Os últimos três anos têm vindo a ser marcados por um retrocesso justificado por alegados excessos do passado e pela subsequente necessidade do país recorrer a "ajuda" externa.
O retrocesso começou por ser (e continua) a ser social. Cortes nos salários, aumentos da carga fiscal sobre o trabalho, redução de pensões, aumento da precariedade, cortes nas funções sociais do Estado.
O retrocesso continua a fazer o seu caminho, na ciência, na cultura. O Governo tolhido por um conjunto de conceitos vagos e absurdos que degenaram na mais gritante exiguidade mental, desinveste na ciência e na investigação. Sob pretextos economicistas o país vai perder o pouco que não se pode dar ao luxo de perder. No que diz respeito à cultura, imperam os mesmos princípios alegadamente economicistas. Toda a trapalhada relativa às obras de Miró são disso exemplo,
Todavia, a questão é mais complexa e ultrapassa os meros critérios economicistas. É uma questão de princípio que norteia toda a a governação: o empobrecimento generalizado; empobrecimento dos corpos e dos espíritos.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Ainda as obras de Miró

A Direcção-Geral do Património, através da sua directora geral, alega que as obras de Miró sairam ilegalmente do país. Uma providência cautelar procura impedir a venda das obras. A decisão do tribunal será conhecida hoje.
Entretanto, da parte do Governo nem uma palavra. O silêncio é de ouro, sobretudo quando impera a opacidade.
Já por aqui se escreveu que a venda das obras de Miró vinham na sequência de uma exiguidade mental assustadora. Já por aqui se escreveu e já todos percebemos quais as intenções do Governo: um empobrecimento não apenas material, mas também no que toca à educação, ciência e cultura. O que torna tudo muito mais fácil para quem se dedica ao manejo de rebanhos.
Acresce agora a pretensa ilegalidade da própria saída das obras. A pressa também pode ser inimiga da transparência e é precisamente a palavra "transparência" que aparenta ser desconhecida do Governo, mais dado a palavras como "sacrifício", "défice", "resultados animadores em matéria de taxa de desemprego", "despesismo dos outros" e "irrevogável", por exemplo.