segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Bode expiatórios

Os imigrantes voltam a ser o bode expiatório da Europa, se é que alguma vez deixaram de o ser. Agora é a vez da Suíça, um país aparentemente longe de tudo, mas que contém em sim mesmo uma boa parte da Europa. E agora ainda mais longe da Europa.
Ganhou o sim contra "contra a emigração em massa", colocando também em causa a imigração oriunda do espaço comunitário. Aguarda-se uma reacção de Bruxelas. A taxa de participação foi considerável.
Toda a Europa, mesmo aqueles que estão fora do espaço da União Europeia, deixou de constituir um espaço de bem-estar e até de alguma inclusão. Os países, dentro e fora da UE, fecham-se sobre si próprios, procurando bodes expiatórios que expliquem os seus falhanços e o falhanço abissal do capitalismo na sua forma financeira. A culpa, dizem ou insinuam, é dos imigrantes. A História insiste em repetir-se
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sorte


Neste malfado país, a sorte que outrora protegia os audazes, esbarra em contradições. A audácia transformou-se em cumprimento das obrigações fiscais. O Governo vai sortear automóveis topo de gama aos audazes que pedirem factura.
Uma contradição desta medida, cujo carácter rídiculo é indelével, prende-se com o facto de se tratar do mesmo Governo que insiste que os Portugueses vivem acima das suas possibilidades. Ora, é a esses mesmos Portugueses incautos e irresponsáveis que o Governo pretende oferecer automóveis topo de gama - um luxo, uma ideia que para alguns contribuirá para contrariar toda a espécie de miséria.
Por outro lado, não se percebe bem, e o secretário de Estado preferiu respostas evasivas, se aqueles que mais gastarem mais probabilidades têm de ganhar o dito automóvel topo de gama. Se isso se confirmar, a tal ideia de que o automóvel poderá contrariar toda a espécie de misérias perde força. É evidente que quem mais gasta - quem faz compras de elevado valor - é quem mais tem dinheiro.
De um modo geral, a ideia é bacoca, resultado de mentes exíguas que pretendem copiar o que se faz em alguns países, não se dando conta do rídiculo e das contradições que a medida acarrata. E se, de facto, têm essa noção, ignoram-na. Simplesmente ignoram-na.
É também evidente que a mera possibilidade de ganhar um automóvel de luxo, a mera posse de automóvel de luxo agradará a alguns. Mas também é óbvio que a realidade de um país empobrecido levará a que muitos desses mesmos automóveis regressem ao mercado para serem vendidos. Seja como for, a cenoura à frente do burro pode mesmo resultar.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Um passeio na praia


Os americanos têm uma expressão que é (mesmo que inconscientemente) familiar a Pedro Passos Coelho e ao seu séquito: "just a walk on the beach", o que numa tradução literal dá origem a qualquer coisa como "apenas um passeio na praia" - quaquer coisa que será fácil, muito fácil.
É essa facilidade que se tornou indissociável da governação de Passos Coelho: é fácil cortar salários, pensões, vender o país aos pedaço, cortar na saúde, educação, ciência, até vender Mirós, não tivessem sido uns chatos a levantarem problemas. Mas ainda assim será fácil: os quadros são para vender e mais nada.
O passeio na praia de Passos Coelho é o resultado directo da inacção quer dos partidos da oposição, quer dos sindicatos (a CGTP acaba por ser uma excepção), quer dos cidadãos.
Com tanta facilidade tudo é permitido. Não existindo qualquer oposição, o que parecia inexequível deixa de o ser. Toda a governação tem-se pautado por essa facilidade, com a ajuda, claro está, de toda a espécie de chantagens e de processos de culpabilização colectiva. O mais recente exemplo é o de Poiares Maduro que ainda ontem num canal de televisão voltou a reiterar a necessidade de cortes nas pensões para salvaguardar as pensões daqueles que hoje são jovens. Fora da questão da sustentabilidade da segurança social ficam todas as saídas de dinheiro e outras manobras contabilísticas que nada têm a ver com a segurança social. Meros detalhes. Afinal de contas, isto de governar o país pode parecer difícil, mas também pode ser apenas um passeio na praia.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Retrocessos

Os últimos três anos têm vindo a ser marcados por um retrocesso justificado por alegados excessos do passado e pela subsequente necessidade do país recorrer a "ajuda" externa.
O retrocesso começou por ser (e continua) a ser social. Cortes nos salários, aumentos da carga fiscal sobre o trabalho, redução de pensões, aumento da precariedade, cortes nas funções sociais do Estado.
O retrocesso continua a fazer o seu caminho, na ciência, na cultura. O Governo tolhido por um conjunto de conceitos vagos e absurdos que degenaram na mais gritante exiguidade mental, desinveste na ciência e na investigação. Sob pretextos economicistas o país vai perder o pouco que não se pode dar ao luxo de perder. No que diz respeito à cultura, imperam os mesmos princípios alegadamente economicistas. Toda a trapalhada relativa às obras de Miró são disso exemplo,
Todavia, a questão é mais complexa e ultrapassa os meros critérios economicistas. É uma questão de princípio que norteia toda a a governação: o empobrecimento generalizado; empobrecimento dos corpos e dos espíritos.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Ainda as obras de Miró

A Direcção-Geral do Património, através da sua directora geral, alega que as obras de Miró sairam ilegalmente do país. Uma providência cautelar procura impedir a venda das obras. A decisão do tribunal será conhecida hoje.
Entretanto, da parte do Governo nem uma palavra. O silêncio é de ouro, sobretudo quando impera a opacidade.
Já por aqui se escreveu que a venda das obras de Miró vinham na sequência de uma exiguidade mental assustadora. Já por aqui se escreveu e já todos percebemos quais as intenções do Governo: um empobrecimento não apenas material, mas também no que toca à educação, ciência e cultura. O que torna tudo muito mais fácil para quem se dedica ao manejo de rebanhos.
Acresce agora a pretensa ilegalidade da própria saída das obras. A pressa também pode ser inimiga da transparência e é precisamente a palavra "transparência" que aparenta ser desconhecida do Governo, mais dado a palavras como "sacrifício", "défice", "resultados animadores em matéria de taxa de desemprego", "despesismo dos outros" e "irrevogável", por exemplo.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Referendar direitos

Parece mentira, mas não é. O deputado do PSD e líder da JSD, Hugo Soares, afirmou num programa de televisão que "todos os direitos das pessoas podem ser referendados". Não se sabe se Hugo Soares, o autor da brilhante proposta de se referendar a co-adopção queria mesmo proferir aquelas palavras, ou se o seu discernimento decidiu tirar férias sem avisar.
O facto é que a frase foi proferida, o que demonstra qual a linha de pensamento deste ilustre deputado que, como já foi referido, nos brilhou com a proposta de referendo da lei da co-adopção.
Hugo Soares talvez não tenha percebido que ao dizer que "todos os direitos podem ser referendados" está a abrir um perigoso precedente. Ou talvez até perceba, o que torna tudo ainda mais inquietante.
Pena não termos visto esta ânsia por formas mais directas de democracia em matérias como os tratados europeus que comprometeram de forma indelével o país. Pena não vermos a mesma atitude em matérias como uma auditoria à dívida que pagamos e que, simultaneamente, desconhecemos.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Miró

Escusado será enaltecer o que já é grandioso: Joan Miró foi um dos expoentes máximos do surrealismo. O pintor catalão deixou uma obra que merece ser vista e revista.
Não é este o entendimento do Governo que pretende vender 85 obras do pintor que resultaram da nacionalização do BPN.
Depois de uma petição e de vários requerimentos, o PS avança agora com uma providência cautelar com o objectivo de travar a venda das obras.
A questão que se impõe é a seguinte: o que leva um governo a vender obras que para além de seu valor inestimável para o enriquecimento cultural do país, poderiam muito bem contribuir para o também enriquecimento dos cofres do Estado, através da realização de exposições e consequente fortalecimento da oferta cultural para o turismo?
Pequenez, ignorância, chico-espertismo, obscurantismo são palavras que poderão contribuir para esse esclarecimento.
A venda das obras de Miró enquadra-se no mesmo princípio que norteia este Governo: o empobrecimento a vários níveis. O empobrecimento a nível material, mas também cultural e científico. Os senhores que governam o país adoptam a velha máxima de quanto mais ignorante o povo, melhor. Menos exigência, menos abrangência de pensamento, menos aborrecimentos para quem governa para si e para a sua casta de interesses. Na verdade, interessa apenas um povo que se sujeite letargicamente a baixos salários, à perda de direitos e ao retrocesso social. É evidente que pensamento e letargia não combinam na perfeição.