quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Sobre as alternativas


O cenário político-partidário provoca exasperação até aos espíritos mais incautos. A ideia que persiste é a da exiguidade das alternativas. Por um lado, para além das divergências ideológicas (creio que a maior parte dos cidadãos não se revê nas actuais orientações ideológicas), sobra um mal-estar colectivo perante um Governo absolutamente afastado dos cidadãos.
Por outro lado, os partidos da oposição: um Partido Socialista letárgico, sem ideias, que se adapta, que não contraria, que sobrevive, que apenas procura sobreviver. Aliás, PS e PSD fazem lembrar a frase de Guerra Junqueiro referindo-se aos dois partidos monárquicos: "dois partidos iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero". A isto soma-se o apêndice do costume: o CDS.
Os partidos mais à esquerda têm pouca visibilidade, sendo que o seu contributo, sobretudo no que diz respeito precisamente a propostas, é amiúde ignorado pela comunicação social.
O panorama político-partidário não é dramático, é trágico. Sem alternativas credíveis, o país continuará a ser adiado. Sem alternativas não há esperança e a questão que se impõe é precisamente a seguinte: como construir um país sem esperança?

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Confiança


Depois de um período conturbado em que a palavra "irrevogável" mudou o seu sentido, o Governo parece mais confiante. Nem a polémica em torno do referendo sobre a co-adopção pareceu abalar essa confiança.
E de onde vem a tal confiança? Dir-se-á que é o resultado directo dos famigerados bons resultados no que diz respeito à economia, aos números do desemprego e à saída da troika.
De qualquer modo, quem oiça o primeiro-ministro (não sei se serão muitos) dirá que Passos Coelho está confiante numa reeleição. Talvez. Muito provavelmente.
As eleições europeias, pouco apelativas, infelizmente, são, no entanto, importantes para os partidos políticos. Por um lado, podem mostrar o sentimento dos eleitores - no caso do Governo uma derrota expressiva faz os seus estragos; por outro lado, há lugares a serem distribuídos e ninguém quer ficar de fora.
Até às eleições europeias de Maio e provavelmente depois desse período eleitoral, continuaremos a ver um primeiro-ministro cheio de confiança, vangloriando-se dos pretensos resultados e alertando, simultaneamente, para a necessidade de não regressarmos ao passado "esbanjador". A referida confiança é também essencial para uma hipotética reeleição. O nosso silêncio colectivo só reforça a confiança do Governo de Pedro Passos Coelho e de Paulo Portas.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

As presidênciais, hipóteses...

O fim-de-semana acabou marcado pelo não apoio de Passos Coelho, por razões de perfil, a Marcelo Rebelo de Sousa na qualidade de candidato à presidência da República. Marcelo Rebelo de Sousa deixou entender que, sem esse apoio, não se candidata ao mais alto cargo da nação.
O PSD perde assim o mais forte candidato, mas o facto é que o candidato em questão não se enquadra no perfil almejado por Passos Coelho que prefere alguém inócuo, como até certo ponto tem sido o actual Presidente da República.
Talvez o Presidente do PSD e primeiro-ministro prefira Durão Barroso para o lugar de Presidente da República, duvido porém que os Portugueses partilhem a mesma preferência.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

As jotas


Os partidos políticos, com o aparente enfraquecimento das ideologias, deixaram de ser centros de pensamento e debate de ideias. As votações na Assembleia da República vivem sob o jugo da disciplina de voto; a vida interna nem sempre se coaduna com os melhores princípios democráticos; os partidos vivem alheados da realidade; os partidos são centros de emprego e de interesses. Tudo isto é verdade, salvaguardando algumas honrosas excepções. E depois há a jotas, sobretudo as do CDS e do PSD, verdadeiros antros de inanidade. É claro que também neste particular encontraremos excepções, mas de um modo geral as jotas não passam dos tais antros de inanidade.
Porém, o pior é quando a mediocridade não vive apenas nas jotas e reina também nos próprios partidos políticos, como é o caso do PSD. O que dizer da proposta do PSD, que nasceu na jota, e que pretende referendar a co-adopção? O CDS, e bem, distanciou-se do assunto, deixando o PSD refém da sua própria inépcia. E por que razão se levanta esta questão agora e não na altura da discussão no Parlamento? Trata-se de uma manobra de diversão para desviar as atenções de outros assuntos? Ou é pura incompetência? Conservadorismo? Seja o que for, a proposta é demasiado nefasta para merecer explicações mais elaboradas. O PSD ficou mal, desrespeitou os cidadãos e o Parlamento. O CDS, com o recurso uma argumentação pouco crível, ainda assim conseguiu sair de cena, deixando o PSD isolado. Este é um exemplo máximo da mediocridade da JSD e do PSD.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

As críticas do passado

Paulo Portas anunciou contratos com a Venezuela no valor de 1,6 mil milhões de euros. Não se sabe ainda se esses contratos são ou não irrevogáveis, provavelmente nem Portas o saberá.
De qualquer modo, não deixa de ser curioso o silêncio que agora paira sobre estes negócios com a Venezuela. No passado recente - durante os anos de José Sócrates - tantos criticaram as relações e negócios entre governo português e governo venezuelano. Dizia-se que o regime de Chávez ficava a dever muito à democracia e que as relações entre Portugal e a Venezuela eram vergonhosas. Todos nos lembramos dos computadores "Magalhães" e afins.
Então, o que mudou?
José Sócrates já não é primeiro-ministro e Chávez faleceu. Agora temos Portas e Passos de um lado e Maduro do outro e, eventualmente, o espírito de Chávez. Nada de substancial mudou - muitas das críticas que se aplicaram no passado não perderam exactamente o seu fundamento. Os protagonistas são outros e as críticas - tão acérrimas noutros tempos - deixaram simplesmente de existir.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Resultados


O Governo procura resultados. O Governo luta por resultados. O Governo apresenta resultados. Os números do défice; os números da dívda; os números do crescimento económico; os números do desemprego. Os números; sempre os resultados.
Todavia, há resultados que ficam de fora dos discurso do Governo:

- Os resultados desastrosos na área da Saúde, verificando-se um retrocesso sem precedentes na qualidade dos serviços e nas respostas a situações de acentuada gravidade. Importa no entanto referir que este é um resultado almejado pelo Governo e por todos aqueles que vão comer da mesma gamela, designadamente o sector privado.

- Os resultados alarmantes no que diz respeito à Educação e Ensino Superior, com a existência de alunos que não concluem os estudos por falta de capacidade económica, voltando Portugal a estar na cauda da Europa neste particular e com o CDS a insistir numa discussão sobre o ensino obrigatório, havendo mesmo quem defenda o fim do ensino obrigatório de 12 anos.

- Os resultados angustiantes nas vidas de pensionistas que, em escassos anos, assistiram a um retrocesso que seguramente nunca lhes havia passado pela cabeça; muitos destes pensionistas que para além de serem vítimas de roubo das suas reformas ainda têm de socorrer os filhos desempregados ou trabalhadores precários.

- Os desempregados que para além de viverem um verdadeiro paroxismo inerente à sua condição, ainda ouvem membros do Governo discutir o decréscimo da taxa de desemprego, como se esses números apresentassem alguma correlação com a realidade.

- Os resultados no que diz respeito à desvalorização salarial e ao aumento da precariedade.


Estes são os resultados que verdadeiramente contam para os que ficam e para os que partem. Estes são os resultados que ficam de fora das contas do Governo, resultados que representam um inquestionável retrocesso social, um país mais pobre sob todos pontos de vista.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Mais papista do que o Papa

Grécia e Irlanda têm tecido fortes críticas à troika e aos programas de "assistência". Portugal... merece reticências. Por cá o Governo insiste em ser mais papista do que o Papa. E porquê? Por uma razão muito simples: o caminho imposto (?) pela troika serve na perfeição os intentos do Governo, abrindo assim as portas a transformações que subjazem à cartilha e interesses do Executivo de Passos Coelho.
Os outros países, através dos seus representantes eleitos, não se coíbem de tecer fortes críticas à actuação da troika e aos programas de "assistência". Não será esse o entendimento do Governo português que pode continuar livremente na senda de desvalorização salarial, enfraquecimento do Estado social, empobrecimento generalizado e privatizações de tudo quanto seja possível.
Ser mais papista do que o Papa, a frase ganha outros contornos quando se percebe que o actual Papa está, quer em matéria de discernimento, quer no que diz respeito à sua actuação, a milhas de distância de pessoas como Passos Coelho e Paulo Portas.