Para a construção de uma sociedade justa e equitativa é necessário que a política e que os políticos se centrem na consolidação de três elementos: o bem-estar social, a eficácia económica e a salvaguarda do Estado democrático. Todavia, poucos percebem este objectivo enquanto outros esquecem-no rapidamente.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Os arautos do regime
Nenhum governo pode desempenhar as suas funções, sobretudo quando é posta em causa a sua legitimidade e quando empreende transformações profundas na sociedade, sem os arautos.
Este governo não é excepção e não o foi desde o princípio, ainda antes de ser eleito, socorrendo-se de bloggers e afins para arrepiar caminho, como é descrito pela revista Visão.
João César das Neves é um dos mais acérrimos defensores das profundas transformações que estão a ter lugar. João César das Neves é apologista do "ir mais longe". João César das Neves acredita ou quer fazer acreditar que pensionistas são fingidores, só a título de exemplo.
Com efeito, há uma característica transversal a uma boa parte dos arautos, característica que se destaca em César das Neves: uma profunda aversão por pensionistas, funcionários públicos, desempregados (na melhor das versões tratados com uma piedade condescendente). Estes arautos vivem o melhor dos seus sonhos que se consubstancia na concretização de transformações no Estado Social, na desvalorização salarial, restando um Estado mínimo para os cidadãos e refém da promiscuidade reinante com empresas e sector financeiro dominante. Curiosamente, a maior parte dos arautos tem também relações com essas empresas e com o sector financeiro. A comunicação social, conivente, é a plataforma ideal para a propagação de barbaridades como aquelas proferidas por César das Neves.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Irlanda, nem que seja à força
O Governo de Passos Coelho tem mostrado acentuadas
dificuldades no que diz respeito à fundamentação das suas medidas. Esgotada a tese da inevitabilidade pela inevitabilidade; ou
seja, esgotada a tese de que as medidas têm de ser aplicadas por
imposição externa, o Governo vê-se obrigado a ir buscar exemplos que
ajudem a fundamentar as suas politicas.
É evidente que o Executivo de Passos Coelho não pode dizer toda a verdade: empobrecemos o país, por imperativo ideológico, mas também por razões mais pragmáticas - o dinheiro tem de se concentrar mais na casta dos negócios, com reduções de impostos, isenções fiscais, negócios obscuros e outras excelentes oportunidades de negócios.
Assim, chegamos à Irlanda. Este país que mantém elevados níveis de competitividade há algumas décadas passou a ser o exemplo por excelência.Os irlandeses até fizeram mais em matéria de cortes nos salários e nas pensões do que nós, afirma Passos Coelho. Não será bem assim. Não interessa, passa-se à frente. Nós somos a Irlanda: não precisamos de programas cautelares, vamos conseguir ultrapassar as dificuldades. Já o outro dizia: antes celta do que grego. Nem que seja à força.
Esquecem-se contudo de um pormenor muito importante: os investidores preferem investir em países com economias dinâmicas como o caso irlandês e não tanto em países pobres e cuja mão-de-obra, apesar de barata, tem dificuldades em competir com outros mercados; os mercados, apesar de tudo, preferem economias dinâmicas que atraiam investimentos.
Antes celta do que grego. Nem que seja à força.
É evidente que o Executivo de Passos Coelho não pode dizer toda a verdade: empobrecemos o país, por imperativo ideológico, mas também por razões mais pragmáticas - o dinheiro tem de se concentrar mais na casta dos negócios, com reduções de impostos, isenções fiscais, negócios obscuros e outras excelentes oportunidades de negócios.
Assim, chegamos à Irlanda. Este país que mantém elevados níveis de competitividade há algumas décadas passou a ser o exemplo por excelência.Os irlandeses até fizeram mais em matéria de cortes nos salários e nas pensões do que nós, afirma Passos Coelho. Não será bem assim. Não interessa, passa-se à frente. Nós somos a Irlanda: não precisamos de programas cautelares, vamos conseguir ultrapassar as dificuldades. Já o outro dizia: antes celta do que grego. Nem que seja à força.
Esquecem-se contudo de um pormenor muito importante: os investidores preferem investir em países com economias dinâmicas como o caso irlandês e não tanto em países pobres e cuja mão-de-obra, apesar de barata, tem dificuldades em competir com outros mercados; os mercados, apesar de tudo, preferem economias dinâmicas que atraiam investimentos.
Antes celta do que grego. Nem que seja à força.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Sucesso
A semana foi pródiga em alegadas boas notícias. Depois das notícias
esperançosas sobre o desemprego, as mesmas que ignoram os efeitos
sazonais aliados ao número sem precedentes de pessoas que abandonaram o
país. Seguiram-se as notícias sobre o crescimento económico, anódino e
em termos homólogos inquietante, mas ainda assim cresimento; o aumento
das exportações e mesmo a questão da recusa irlandesa na aceitação de um
programa cautelar, o Governo vê boas notícias e mesmo similitudes
(futuras?) com o caso irlandês.
Todavia, o sucesso do Governo mede-se no dia-a-dia. Sublinho até que o Governo tem sido bem sucedido. Senão vejamos: a crise, a vinda das entidades externas, impulsionada por quem nos governa hoje, a pretensa hecatombe provocada por José Sócrates, a perda de soberania, a ameaça com a saída de Portugal do Euro e tudo o mais que redunda na tese da inevitabilidade abriram as portas para a aplicação de uma cartilha ideológica que de outra forma não seria possível aplicar.
Assim, com o contexto ideal, o Governo mostra-se exímio no cumpriemento de metas, ao contrário do que se diz. É exímio na desvalorização salarial, no enfraquecimento do Estado Social, na venda de parte do país, no fortalecimento da casta superior e no empobrecimento de uma boa parte da sociedade.
Por conseguinte, não é justo falar-se em falhanços, incompetências e afins. O Governo tem sido bem sucedido, pelo menos no que realmente interessa - naquilo que se coaduna com a cartilha que o rege.
Todavia, o sucesso do Governo mede-se no dia-a-dia. Sublinho até que o Governo tem sido bem sucedido. Senão vejamos: a crise, a vinda das entidades externas, impulsionada por quem nos governa hoje, a pretensa hecatombe provocada por José Sócrates, a perda de soberania, a ameaça com a saída de Portugal do Euro e tudo o mais que redunda na tese da inevitabilidade abriram as portas para a aplicação de uma cartilha ideológica que de outra forma não seria possível aplicar.
Assim, com o contexto ideal, o Governo mostra-se exímio no cumpriemento de metas, ao contrário do que se diz. É exímio na desvalorização salarial, no enfraquecimento do Estado Social, na venda de parte do país, no fortalecimento da casta superior e no empobrecimento de uma boa parte da sociedade.
Por conseguinte, não é justo falar-se em falhanços, incompetências e afins. O Governo tem sido bem sucedido, pelo menos no que realmente interessa - naquilo que se coaduna com a cartilha que o rege.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Vale tudo
O Governo está disposto a ir ainda mais longe para evitar um
segundo resgate. A hipótese desse segundo resgate abre as portas a mais
austeridade, isto depois do FMI mostrar relutância quanto à aplicação de
algumas medidas do Governo português, sobretudo aquelas que passarão
pelo crivo do Tribunal Constitucional - o maior dos vilões.
Ora,
o FMI diz ser necessária mais austeridade (maior desvalorização
salarial e mais cortes no Estado Social), o FMI diz ainda não encontrar
alternativas às medidas eventualmente chumbadas pelo TC.
O
Governo português munido de um irrevogável Paulo Portas não conseguiu
renegociar a meta dos 4,5 por cento de défice, pelos vistos os
argumentos dessa grande instituição que já arruinou tantos países foram
mais fortes e convenceram o ja referido irrevogável Paulo Portas.
A
tese da inevitabilidade ganha força com a ideia de que se não
adoptarmos mais austeridade teremos um segundo resgate - uma
eventualidade (do meu ponto de vista é mais do que uma mera
eventualidade) que seria catastrófica para o país. Vale tudo e, como
tal, a morte lenta também vale.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
As analogias de Moedas
Carlos Moedas, secretário de Estado-adjunto, tem-se mostrado exímio
na elaboração de analogias. Ontem, Moedas afirmou que nenhum Governo
"impõe austeridade por imperativo ideológico". Carlos Moedas não é só
exímio no que toca à elaboração de analogias, mas é também pródigo na
criatividade semântica.
Ora, o Governo a que pertence tem uma ideologia e serve-se precisamente da austeridade (resultado de uma crise cuja origem já todos esqueceram) para impor uma transformação na sociedade que de outra forma não seria possível. Só assim se explica a aceitação de cortes no Estado Social e a subsequente abertura de novas oportunidades de negócio aos privados; só assim se explica a aceitação de uma desvalorização salarial; só assim se aceita o retrocesso social de tantos em benefício de alguns.
Moedas, parcimonioso em matéria de honestidade intelectual, mas generoso no que diz respeito a analogias de trazer por casa, comparou ainda o país a um automóvel que tinha o travão de mão activado, acelerando e gastando combustível. Agora, diz Moedas, o mesmo automóvel já desactivou o travão de mão e está em andamento - com isto Moedas pretende demonstrar que o país está em recuperação. Até posso concordar com a pretensa circulação do automóvel, mas não posso deixar de referir que o mesmo embateu contra um qualquer muro e por aí permanece nos últimos dois anos.
Ora, o Governo a que pertence tem uma ideologia e serve-se precisamente da austeridade (resultado de uma crise cuja origem já todos esqueceram) para impor uma transformação na sociedade que de outra forma não seria possível. Só assim se explica a aceitação de cortes no Estado Social e a subsequente abertura de novas oportunidades de negócio aos privados; só assim se explica a aceitação de uma desvalorização salarial; só assim se aceita o retrocesso social de tantos em benefício de alguns.
Moedas, parcimonioso em matéria de honestidade intelectual, mas generoso no que diz respeito a analogias de trazer por casa, comparou ainda o país a um automóvel que tinha o travão de mão activado, acelerando e gastando combustível. Agora, diz Moedas, o mesmo automóvel já desactivou o travão de mão e está em andamento - com isto Moedas pretende demonstrar que o país está em recuperação. Até posso concordar com a pretensa circulação do automóvel, mas não posso deixar de referir que o mesmo embateu contra um qualquer muro e por aí permanece nos últimos dois anos.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Escola pública
Este Governo tem uma agenda ideológica de cariz
neoliberal. Não haverá como negar esse facto, nem tão-pouco a
incompetência que norteia o Executivo de Passos Coelho pode disfarçar
esse mesmo facto,
O ensino público é também um alvo a abater por quem está à frente dos destinos do país. Se dúvidas existirem, analise-se o Orçamento de Estado e veja-se o desinvestimento que está previsto para o ensino público, ao mesmo tempo em que se aumenta o investimento no ensino privado.
O cheque-ensino - um sonho comum a muitos neoliberais - é mais um passo no sentido do desinvestimento no ensino público; um mecanismo de aparente liberdade de escolha. Este mecanismo agudizará as já por demais evidentes diferenças entre público e privado, agudizando também as diferenças entre os diferentes estratos sociais, inviabilizando, claro está, a ascensão social.
Simultaneamente, abre-se uma oportunidade de negócio apetecível. Recomenda-se vivamente o visionamento da reportagem da TVI - Verdade Inconveniente, a verdade sobre os colégios privados.
O Governo tem uma ideologia que, embora sufragada, não me parece que seja concomitante com a opinião da maioria dos portugueses. Talvez se tivesse existido maior transparência e verdade antes das eleições, o resultado acabaria por ter sido outro.
O ensino público é também um alvo a abater por quem está à frente dos destinos do país. Se dúvidas existirem, analise-se o Orçamento de Estado e veja-se o desinvestimento que está previsto para o ensino público, ao mesmo tempo em que se aumenta o investimento no ensino privado.
O cheque-ensino - um sonho comum a muitos neoliberais - é mais um passo no sentido do desinvestimento no ensino público; um mecanismo de aparente liberdade de escolha. Este mecanismo agudizará as já por demais evidentes diferenças entre público e privado, agudizando também as diferenças entre os diferentes estratos sociais, inviabilizando, claro está, a ascensão social.
Simultaneamente, abre-se uma oportunidade de negócio apetecível. Recomenda-se vivamente o visionamento da reportagem da TVI - Verdade Inconveniente, a verdade sobre os colégios privados.
O Governo tem uma ideologia que, embora sufragada, não me parece que seja concomitante com a opinião da maioria dos portugueses. Talvez se tivesse existido maior transparência e verdade antes das eleições, o resultado acabaria por ter sido outro.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Juízo
Rui Machete, o inamovível, um pouco na mesma linha de
Portas, o irrevogável, afirma que Portugal só evitará um segundo resgate
se juros descerem para 4,5 por cento a dez anos.
Dos lados do Partido Socialista discute-se o juízo dos ministros do Governo. O certo é que estas declarações vão muito para além da falta de juízo. Estas declarações farão sentido quando o segundo resgate se tornar uma evidência; a designação será outra, os efeitos, esses, serão os conhecidos: mais austeridade.
O Tribunal Constitucional, a oposição e até os sacrossantos mercados serão os responsáveis pelo segundo resgate. Essa responsabilidade não será do Governo.
De resto, um eventual (mais do que certo, na minha opinião) segundo resgate não é forçosamente negativo para a casta superior do país, desde que continue a existir dinheiro para justificar a solvência da banca e desde que os grupos económicos priveligiados não vejam esses privilégios serem cerceados. O número de multimilionários portugueses está a aumentar e estes estão cada vez mais ricos. Afinal, quem é que precisa de ter juízo?
Dos lados do Partido Socialista discute-se o juízo dos ministros do Governo. O certo é que estas declarações vão muito para além da falta de juízo. Estas declarações farão sentido quando o segundo resgate se tornar uma evidência; a designação será outra, os efeitos, esses, serão os conhecidos: mais austeridade.
O Tribunal Constitucional, a oposição e até os sacrossantos mercados serão os responsáveis pelo segundo resgate. Essa responsabilidade não será do Governo.
De resto, um eventual (mais do que certo, na minha opinião) segundo resgate não é forçosamente negativo para a casta superior do país, desde que continue a existir dinheiro para justificar a solvência da banca e desde que os grupos económicos priveligiados não vejam esses privilégios serem cerceados. O número de multimilionários portugueses está a aumentar e estes estão cada vez mais ricos. Afinal, quem é que precisa de ter juízo?
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