segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Juízo

Rui Machete, o inamovível, um pouco na mesma linha de Portas, o irrevogável, afirma que Portugal só evitará um segundo resgate se juros descerem para 4,5 por cento a dez anos.
Dos lados do Partido Socialista discute-se o juízo dos ministros do Governo. O certo é que estas declarações vão muito para além da falta de juízo. Estas declarações farão sentido quando o segundo resgate se tornar uma evidência; a designação será outra, os efeitos, esses, serão os conhecidos: mais austeridade.
O Tribunal Constitucional, a oposição e até os sacrossantos mercados serão os responsáveis pelo segundo resgate. Essa responsabilidade não será do Governo.
De resto, um eventual (mais do que certo, na minha opinião) segundo resgate não é forçosamente negativo para a casta superior do país, desde que continue a existir dinheiro para justificar a solvência da banca e desde que os grupos económicos priveligiados não vejam esses privilégios serem cerceados. O número de multimilionários portugueses está a aumentar e estes estão cada vez mais ricos. Afinal, quem é que precisa de ter juízo?

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Greves


Esta semana foi marcada por greves: primeiro do sector dos transportes e hoje há greve da Função Pública.
O descontentamento relativamente ao Orçamento de Estado para 2014 alastra e muitos trabalhadores da Função Pública recorrem a um instrumento de protesto: a greve.
Existe, contudo, uma outra espécie de descontentamento, relativamente às greves. O prejuízo para quem necessita de utilizar os transportes públicos e serviços do Estado (hoje) não deve ser descurado. Infelizmente, é descurado pelos responsáveis pelas medidas que subjazem às greves.
A revolta que se instala contra quem faz greve esmorece no que toca às políticas do Governo, protegido pelo Presidente da República e pela ditadura da inevitabilidade.
É inquestionável que as greves causam transtornos e prejuízos. No entanto, não nos devemos esquecer que quem está a provocar uma verdadeira tragédia social não são os trabalhadores, muito pelo contrário - a luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho, por salários dignos, e pelo respeito por direitos que hoje estão a ser destruídos é uma luta que tem implicações na vida de todos nós: daqueles que trabalham e que vêem os seus direitos serem postos em causa, nada ganharão com o nivelamento por baixo, muito pelo contrário; e de todos os cidadãos que necessitam de serviços públicos de qualidade que são uma impossibilidade a partir do momento em que se desinveste nesses serviços públicos, despedindo, destruindo direitos, abrindo as portas àqueles que apenas se importam com o lucro.
O nosso silêncio representa uma carta branca para um inquestionável retrocesso social.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Falta de chá


O vice-primeiro ministro Paulo Portas, em deslocação a Macau, foi acusado pela comunicação social de falta de chá. A razão: um atraso de duas horas.
Todos erramos, é um facto e não será este deslize de Paulo Portas a comprometer a sua integridade moral, até porque ela já estará comprometida. Ficou-lhe mal e deixou mal os portugueses, sobretudo a comunidade portuguesa em Macau.
Todavia, Paulo Portas já conseguiu muito pior. E nem vou discutir aquilo que já foi designado por guião para a reforma do Estado. Paulo Portas já conseguiu e fez pior: desde o irrevogável, passando pelo cisma grisalho, Portas já fez pior.
A comunicação social macaense tem razão quando acusa o vice-primeiro ministro de falta de chá. Eu acrescento que a Paulo Portas falta-lhe muito mais do que chá, a começar, desde logo, por honestidade intelectual e coerência. Está indiscutivelmente no governo certo, não tresmalha, tem quem lhe faça companhia e não destoa.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Mais austeridade

Más notícias. Notícias expectáveis, mas ainda assim inquietantes: o país vai necessitar de mais austeridade. Quem o diz é a Comissão Europeia, a mesma que descobriu novo buraco nas contas públicas, um buraco deixado pela injecção de dinheiro no Banif, ainda assim um buraco que não parece preocupar a troika porque, afinal de contas, há buracos e buracos.
De qualquer modo, há duas questões a reter: por um lado as previsões da Comissão no que toca a taxa de desemprego, evolução da dívida e défice estão muito londe de ser concomitantes com a realidade; por outro, serão necessárias mais medidas de austeridade para 2015.
Resta saber onde fica o milagre económico anunciado pelo ministro da Economia.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Trabalhar um ano... sem comer

A frase brilhante é de Nuno Crato, o mesmo que anda a desmantelar a escola pública, ao mesmo tempo que alimenta generosamente os negócios do privado.
O ministro da Educação procurou dar uma aula de economia. Uma frase a retirar dessa memorável aula de economia é: "os portugueses teriam de trabalhar mais de um ano sem comer e sem utilizar transportes só para pagar dívida".
Para início de conversa seria interessante averiguar de que dívida é que Crato fala. Quem a contraiu? Em nome de quem? Que contratos lhe subjazem? A dívida cujo pagamento exige o desrespeito pela Carta das Nações Unidas? Trata-se efectivamente de uma dívida legítima? Não sabemos, nem vamos saber, mas o ministro da Educação - o que altera programas de disciplinas sem dar cavaco, o que engorda negócios chorudos no privado - anda com ela na boca.
Crato antes de vir mandar postas de pescada repletas de demagogia, deveria, primeiro, ter a decência de dizer aos portugueses de que dívida é que se trata. Sim, porque qualquer auditoria à dívida (auditoria independente e idónea) está fora de questão.
"Trabalhar um ano... sem comer" é o resultado da passividade de um país que aceita tudo sem reflectir, sem questionar, sem reagir, sem agir.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O caminho mais fácil

O caminho mais fácil, mas paradoxalmente o mais penoso, é o da inevitabilidade - uma inevitabilidade que se reveste das mais diversas formas.
Por aqui já se discutiu, com particular veemência, a inevitabilidade das medidas. Importa também discutir a inevitabilidade que resulta da perda de soberania, que resulta da nossa pretensa pequenez, que resulta das nossas escolhas políticas.
É certo que a perda de soberania nos enfraquece nas mesas de quaisquer negociações: é certo que a posição de devedor (não interesse agora discutir de que dívida se trata, não interessa agora, nem nunca interessará) não é a mais confortável; assim como também é verdadeiro que quando se pensa pequeno age-se em conformidade. Por outro lado, é bem verdade que as nossas escolhas políticas reforçam as posições enfraquecidas de subserviência e de salvaguarda de interesses que não são os dos cidadãos.
Todavia, é mais fácil e mais confortável pensar que não há muito a fazer, tendo em consideração que as decisões são tomadas fora de portas. Assim, inviabiliza-se qualquer outro caminho diferente daquele que tem sido trilhado.
Segundo este pensamento, pouco interessa as escolhas internas, sobretudo em matéria de cortes. Assim, como pouca relevância terá o facto de países como a Irlanda, Espanha e até a Grécia não estarem a aceitar tudo aquilo que lhes é imposto externamente. Nós somos pequenos, pouco relevantes, subservientes e à mercê dos credores. E assim que nos deparamos com um caminho, para alguns mais fácil e mais confortável, mas que nos leva para um beco sem saída. Um caminho que também resulta de escolhas ideológicas internas.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Exiguidade

Os acontecimentos dos últimos anos - dívida pública, sobre a dívida privada nem uma palavra, défice, UE, Zona Euro, mercados, capitalismo financeiro - são assoberbantes.
Por cá, lembramo-nos e somos relembrados, incessantemente, da nossa pretensa pequenez: dirigentes políticos, elite económica, comentadores e comunicação social prestam esse serviço. E nós, pelo menos uma boa parte, assimilamos essa ideia.
A ideia da pequenez já é pré-existente, mas ganha nova e incomensurável dimensão quando confrontados com acontecimentos assoberbantes que nos dominam, que cerceiam o pensamento e que coarctam a acção.
O sentimento de revolta existe; está lá: nas palavras, nos gestos do dia-a-dia, nos olhares. Todavia, o marasmo, sobretudo visível na acção, tem levado a melhor. Impera a ideia de que é tudo demasiado intrincado e que são todos mais fortes, mais inteligentes e mais competitivos do que nós.
Se somos pequenos é porque pensamos pequeno e tudo indica que continuaremos a sê-lo.
Só num contexto de manifesta exiguidade é que é possível que o Presidente da República possa fazer aquela espécie de pedagogia pedante e condescendente como a que a fez há uns dias: sejam normais, subservientes, olhem para a Irlanda e portem-se bem.