terça-feira, 29 de outubro de 2013

Migalhas

Depois do anúncio de um Orçamento de Estado devastador para uma boa parte dos portugueses, os partidos da maioria oferecem agora algumas migalhas, ou pelo menos mostram essa intenção.
PSD e CDS anunciaram a intenção de mitigar os efeitos do Orçamento de Estado, procurando subir os valores a partir dos quais haverá corte.
Pensões e salários sofrerão cortes. Ainda assim, procurar-se-á, segundo os iluminados dos partidos da maioria, torná-los menos abrangentes. Tentar-se-á compensar essa menor abrangência com renegociações com as parcerias público-privadas. o valor não deverá chegar a 50 milhões de euros.
Migalhas. A maior parte dos cidadãos afectados continuará a sê-lo, de forma devastadora. A economia pagará a sua factura com uma ainda maior exiguidade do consumo interno. O desemprego continuará a sua escalada. A pobreza e a miséria continuarão a fazer parte de um país apático, suspenso, à espera da próxima pancada.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Antes ser celta do que grego


Já se percebeu que vivemos tempos do "vale tudo". Vale tudo nas acções, como vale tudo nas palavras.
A propósito das pretensas vantagens de um programa cautelar (e não de um segundo resgate, é favor não confundir), Paulo Portas afirmou que "antes ser celta do que grego", mas em "qualquer caso português". A ideia passa por associar a situação portuguesa à irlandesa e não à grega. Esquece-se Portas que as negociações entre Irlanda e troika foram substancialmente diferentes das negociações entre Portugal e troika.
A situação irlandesa não se deteriorou como a grega: são economias diferentes, com problemas distintos. Todavia, é importante não esquecer que a austeridade no caso irlandês teve consequências graves para a economia celta, consequências essas ainda não totalmente conhecidas.
De qualquer modo, vivem-se tempos em que impera o "vale tudo" e o "salve-se quem puder". Portas prefere ser celta a grego. Eu prefiro um macaco a qualquer um dos membros deste Governo. E gostos não se discutem.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Dizem-me... do imponderável

Dizem-me que só há uma caminho seguro. Quantos aos outros caminhos... falam-me do imponderável, do que não se pode prever, como se as previsões deles tivessem algum rigor.

Dizem-me que vivi acima das minhas possibilidades...

Dizem-me para me sentir culpada...

Culpada sim! Dívida é culpa...

Dizem-me que tenho de pagar.
- O quê?
- A dívida.
- Qual?
- Toda.
- Mas de que dívida é que estamos a falar?
- A que resultou do facto de teres vivido acima das possibilidades.
- Mas eu....
- Não interessa. O outro, o que regressou de Paris, é culpado, mas tu também és.

Dizem-me para aceitar o retrocesso, a miséria e até a fome, imagine-se!

Dizem-me que a democracia não tem uma dimensão social...

Dizem-me que não há alternativa... e se por mero acaso houvesse... falam-me do imponderável, do inevitável, da insustentabilidade e da competitividade...

Fazem-me acreditar que o futuro não existe, que é coisa do passado...

Impingem-me verdades absolutas...

Já nem se esforçam na mentira, já nem procuram alimentar a ideia de que vai tudo valer a pena...

Querem-me pacífica, resignada...

Querem que esqueça o significado da palavra "resistir"....

Amanhã, dia 26 de Outubro, volto a dar a minha resposta: não aceito, não cruzo os braços, não me vergo nem tão-pouco tenho medo do imponderável. Lutarei.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sobre a amizade

Pedro Passos Coelho tem razão quando diz não ter amigos, em resposta a afirmações da bancada do PCP precisamente em sentido contrário, dando conta de uma pretensa amizade entre o primeiro-ministro e o sector financeiro juntamente com as empresas de maior dimensão, essencialmente monopolistas.
Passos Coelho tem razão. Não tem amigos, não tem relações de amizade com os protagonistas desses sectores. A relação de Passos Coelho e do seu governo não é de amizade. São interesses, é a defesa desses interesses, é o pragmatismo de relações cujos alicerces são precisamente os interesses que degeneram na mais abjecta promiscuidade. Nada mais.
A amizade não existe. Não há compreensão mútua, não existe um sentimento de pertença, não existe espaço para a dor da ausência, nem tão-pouco para a alegria de um abraço há muito desejado. De resto, não há qualquer desafio ao tempo: a amizade é para sempre; estas relações duram enquanto durar a necessidade.
Pedro Passos Coelho afirma não ter amigos. Acredito que não tenha de facto amigos, não os terá certamente no contexto referido pela oposição. Quanto ao resto, quem é despido de humanidade dificilmente consegue consolidar relações de verdadeira amizade. Talvez seja o seu caso.
Pelo sim pelo não e caso Passos Coelho ainda se sinta na dúvida quanto a hipotéticas relações de amizade, deixo aqui um poema de Vinicius de Morais para ajudá-lo ao esclarecimento de eventuais dúvidas, apesar da veemência das suas afirmações no Parlamento.


Soneto do amigo


Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Vinicius de Moraes

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Histórias

As histórias que se contam sobre os tempos que vivemos; a história que mais tarde se contará sobre os tempos idos e pesarosos.
Muitos de nós já se terão questionado como a história (para além da História) dos nossos dias será contada.
Um governo que se afundou num misto de subserviência e de salvaguarda de interesses dos grandes grupos económicos e financeiros. Um grupo de homens e mulheres que estão na segunda linha do Governo e que seguem caninamente as orientações do Governo apoiantes, quer por razões de interesse (seja emprego, seja perspectivas de emprego ou de negócios), quer por convicção, quer por medo de eventuais consequências que uma actuação diferente daquela que tem sido levada a cabo pelo Executivo possa originar. Colaboracionistas, em Portugal, ao serviço de interesses das instâncias europeias, dominadas, por sua vez, pela Alemanha. Cidadãos activos, combativos e diligentes que lutam contra as injustiças, que acreditam em alternativas à pobreza, à miséria e ao retrocesso. Cidadãos passivos, resinados, acabrunhados, deprimidos, confusos. Uma revolta contida, coarctada pelo medo, fruto da repetição de mentiras até à transformação em dogmas.
Estas são as personagens de uma história cujo desfecho é ainda um mistério. O enredo, esse, todos conhecemos: um país pobre, cada vez mais pobre. Um país na penumbra, apagado.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Ausência de pobres


Paulo Portas, embora tenha salvaguardado os direitos relativos às manifestações, não teve a contenção que se impõe a um vice (?) primeiro-ministro e que lhe impeça de proferir comentários mais adequados a um néscio.
Ora, Paulo Portas, a propósito da manifestação da CGTP, acredita que os pobres não marcaram presença em manifestações; os pobres nem tão-pouco aparecem na televisão.
Paulo Portas não deve ter participado na manifestação, pelo menos a julgar pelas tolices ofensivas que profere. Compreende-se a ideia, embora esta gente se comporte como iluminados, a verdade é que vivem na mais abjecta alienação. A ideia é associar manifestações como a da CGTP a grupos de pretensos priveligiados, como sejam os que têm pensões acima dos 300 euros e funcionários públicos. Engana-se Paulo Portas, ou melhor: Paulo Portas já não consegue enganar, e é esse o seu maior drama.
De qualquer modo, Paulo Portas deverá participar noutras manifestações para ver em primeira mão a ausência de pobres. Tem uma oportunidade já no próximo sábado - trata-se de uma manifestação dos que deram as voltas à comunicação social, alegando ser amigos da troika e dessa forma conseguindo a atenção de uma comunicação social que mais não faz do que coadjuvar os que estão empenhados em levar o retrocesso para as nossas vidas.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Não há alternativas

A ideia de que não há alternativas às políticas do Governo é essencial para a viabilidade dessas mesmas políticas. A comunicação social até pode abordar o tema da contestação, mas até nesse particular impera a tese de que não há alternativas. Ou seja, há contestação sem alternativas que é o mesmo do que viabilizar as políticas do Governo. Veja-se o vasto rol de comentadores, arautos do sistema, que por vezes até tecem críticas ao Governo, críticas que acabam invariavelmente por esbarrar na tese que postula a inexistência de alternativas.
De resto, existem várias formas de se conseguir implementar uma cartilha radical: uma prende-se precisamente com a tese da inevitabilidade e a do carácter inexorável das alternativas; outra prende-se com o enfraquecimento dos pilares da democracia, no caso, o Tribunal Constitucional; outro ainda, está relacionada com a instrumentalização do medo - medo de falir, medo de não haver dinheiro para pagar salários e pensões, medo de sair do euro...
Ora, estes constrangimentos toldam o pensamento e inviabilizam a acção. Entre a morte lenta e uma hipotética morte súbita, nós estamos claramente a escolher a morte lenta.