terça-feira, 22 de outubro de 2013

Ausência de pobres


Paulo Portas, embora tenha salvaguardado os direitos relativos às manifestações, não teve a contenção que se impõe a um vice (?) primeiro-ministro e que lhe impeça de proferir comentários mais adequados a um néscio.
Ora, Paulo Portas, a propósito da manifestação da CGTP, acredita que os pobres não marcaram presença em manifestações; os pobres nem tão-pouco aparecem na televisão.
Paulo Portas não deve ter participado na manifestação, pelo menos a julgar pelas tolices ofensivas que profere. Compreende-se a ideia, embora esta gente se comporte como iluminados, a verdade é que vivem na mais abjecta alienação. A ideia é associar manifestações como a da CGTP a grupos de pretensos priveligiados, como sejam os que têm pensões acima dos 300 euros e funcionários públicos. Engana-se Paulo Portas, ou melhor: Paulo Portas já não consegue enganar, e é esse o seu maior drama.
De qualquer modo, Paulo Portas deverá participar noutras manifestações para ver em primeira mão a ausência de pobres. Tem uma oportunidade já no próximo sábado - trata-se de uma manifestação dos que deram as voltas à comunicação social, alegando ser amigos da troika e dessa forma conseguindo a atenção de uma comunicação social que mais não faz do que coadjuvar os que estão empenhados em levar o retrocesso para as nossas vidas.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Não há alternativas

A ideia de que não há alternativas às políticas do Governo é essencial para a viabilidade dessas mesmas políticas. A comunicação social até pode abordar o tema da contestação, mas até nesse particular impera a tese de que não há alternativas. Ou seja, há contestação sem alternativas que é o mesmo do que viabilizar as políticas do Governo. Veja-se o vasto rol de comentadores, arautos do sistema, que por vezes até tecem críticas ao Governo, críticas que acabam invariavelmente por esbarrar na tese que postula a inexistência de alternativas.
De resto, existem várias formas de se conseguir implementar uma cartilha radical: uma prende-se precisamente com a tese da inevitabilidade e a do carácter inexorável das alternativas; outra prende-se com o enfraquecimento dos pilares da democracia, no caso, o Tribunal Constitucional; outro ainda, está relacionada com a instrumentalização do medo - medo de falir, medo de não haver dinheiro para pagar salários e pensões, medo de sair do euro...
Ora, estes constrangimentos toldam o pensamento e inviabilizam a acção. Entre a morte lenta e uma hipotética morte súbita, nós estamos claramente a escolher a morte lenta.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Relações promiscuas

Mário Soares colocou uma questão sobre a razão que subjaz ao facto do actual Presidente da República não estar a ser julgado no caso BPN. Cavaco Silva respondeu, através de uma declaração escrita, reiterando não ter tido nenhuma relação com o banco em questão para além daquela de mero depositante. Reitera, portanto, a mentira.
Ora, segundo documentação veiculada pela comunicação social, as afirmações do Presidente da República não correspondem à verdade, nem tão-pouco a sua relação com o BPN pode ser considerada como sendo singela. Cavaco Silva esquece-se, convenientemente, da questão das acções, por exemplo.
O BPN/SLN representa um crime financeiro de dimensões incomensuráveis, com custos dramáticos para o país. Ora, a ligeireza com que Cavaco Silva fala do banco (pertencente aos seus amigos) com quem manteve uma relação de proximidade, talvez até um banco com quem manteve relações próximas, promiscuas, relações essas que lhe garantiu lucros pornográficos é inquietante.
Paralelamente, a mentira, a dissimulação e o prejuízo para um país já não podem ser aceites como têm sido até então. Basta de sermos o país da inconsequência. Basta de aceitarmos relações promiscuas entre poder político e poder económico financeiro como se se tratasse de uma situação normal.
Em suma, esta gente fez mal ao país e insiste em continuar a fazê-lo. Basta.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Cortes na subserviência

Numa altura em que se discutem cortes de diversa natureza, seria profícuo abordar-se o assunto dos cortes na subserviência que tem marcado as nossas relações externas.
Essa dita subserviência não é exclusivo deste Governo, mas agravou-se com o Executivo de Passos Coelho e agravou a situação de todos nós. Poucos saberão o que se passa nas negociações entre Governo português e credores, mas aposto que a subserviência é a presença mais notória.
O Executivo de Passos Coelho seja ele representado pelo próprio, pelo vice ou pela ministra das Finanças rebaixa-se externamente e rebaixa os portugueses. Enfim, impera a velha máxima: ser forte com os fracos e fraco os fortes.
É evidente que essa subserviência não é apenas mais um traço cultural e, no caso em apreço, a dita subserviência serve os interesses de um Governo apostado em transformar o país, transformações essas que são o resultado da sua ideologia, ao serviço de interesses que não se compadecem com o interesse comum.
No caso angolano, a subserviência de Rui Machete, incrivelmente ainda ministro dos Negócios Estrangeiros, para além de vexatória, acabou por ser contraproducente. O regime angolano diz que as coisas não vão bem com Portugal e o primeiro-ministro português diz que vai fazer tudo para repor as boas relações com o regime angolano. Tudo? O que representa esse "tudo"? Este país transformou-se, para alem de tudo, num embaraço de enormes proporções. Corte-se na subserviência.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Orçamento de Estado II

Às medidas de 2013, muitas delas alegadamente de natureza temporária, somam-se novas medidas que conferem à austeridade uma dimensão incomensurável, com consequências desastrosas.
Cortes nos salários dos funcionários públicos, cortes nas pensões, na saúde, educação (500 milhões), associados a um alívio fiscal em sede de IRC, mantendo-se isenções fiscais inadmissíveis, aliviando-se, do ponto de vista fiscal, também que tem rendimentos acima dos 80 mil euros, são algumas medidas que dizem muito sobre as prioridades do Governo.  Acresce a estas medidas, um novo aumento de (alguns) impostos, entre eles o referido aumento do imposto extraordinário sobre o sector bancário - uma perfeita ilusão se observarmos atentamente os benefícios e isenções que privilegiam este sector. Importa não esquecer o corte de perto de 100 milhões na área da justiça.
Ainda acerca de prioridades e da mais do que gasta tese da inevitabilidade, o que dizer das perdas potenciais em swaps do Santander - 1100 milhões - para 2014 e sobre a duplicação, também para o ano de 2014, com os custos das PPP's?
Não pretendendo arrogar o papel de profeta da desgraça, é difícil perceber como a repetição desta receita falhada pode produzir quaisquer resultados positivos para as metas a que o país se propõe cumprir.
Quanto às vítimas desta receita, são conhecidas: essencialmente uma classe média que de média já tem muito pouco.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Orçamento de Estado

Hoje é dia da entrega do Orçamento de Estado para 2014. Embora ainda não seja inteiramente conhecido, é possível perceber que a austeridade sai mais uma vez reforçada: cortes nos salários, cortes nas pensões, cortes nas áreas sociais, cortes no Estado Social. Ou dito por outras palavras: trata-se da repetição da mesma receita, a tal que falha reiteradamente.
Há, apesar de tudo, diferenças em relação aos anteriores orçamentos apresentados pelo Executivo de Passos Coelho: ainda mais austeridade e o homem na linha da frente deixou de ser Vítor Gaspar, o Crente, passando o testemunha à também inefável Maria Luís Albuquerque.
O resultado é conhecido: mais desemprego, mais pobreza. Tudo em nome de uma dívida longe de ser conhecida pelos cidadãos e por um compromisso sempre negociado nas costas desses mesmos cidadãos. Lá para meados do próximo ano regressaremos aos mercados, um regresso tão provável como aquele que apontava para uma data passada há umas semanas atrás.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Afinal, podia ter sido pior


O lema do Governo parece ser "afinal até podia ter sido pior". Desde a TSU (a que incidia sobre o trabalhadores e não a ideia peregrina de aplicar a TSU a pensionistas) que se assiste a este género de estratégia pueril e que só ilude os mais incautos.
Agora verifica-se o mesmo com os polémicos cortes nas pensões de sobrevivência. Depois de mais de uma semana de polémica, Paulo Portas veio sossegar as hostes, mostrando que a medida, afinal, nem é assim tão negativa, sendo que as vítimas andam na casa dos 25 mil.
Em mais um exercício penoso para quem assiste, Paulo Portas aproveitou a ocasião para desempenhar o papel de vítima. De resto, foi tudo uma manobra de desinformação e difamação. As viúvas e viúvos estão a salvo, excepto 25 mil. Paulo Portas continua a fazer a defesa dos mais velhos e com mais um bocadinho de esforço até já poderá regressar às lotas. E fica tudo na mesma, até porque não se esqueçam: podia ser muito pior e só não é graças a homens providenciais como Paulo Portas.

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