sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Estica a corda

Passos Coelho está determinado em esticar a corda e pouco preocupado com a possibilidade de a mesma se partir. Com efeito, não há sinais muito fortes que indiquem precisamente a quebra da corda. Porém, também pode acontecer o seguinte: ela simplesmente partir-se sem que anteriormente tenha dado esses sinais.
Agora são os salários dos funcionários públicos. A comunicação social, o veículo das más notícias, anunciou cortes de dez por cento. Não vale a pena explanar sobre as consequências desses mesmos cortes, não só para cada família como para a própria economia.
Por outro lado, sejamos realistas: as coisas não têm corrido bem para o Governo, por muito que se tente propalar o contrário. Os indicadores económicos não são os melhores, as metas estão por cumprir, a dívida é um gigante impagável e a crescer.
Ainda, importa encontrar dinheiro para cobrir a descida do IRC, os malabarismos que têm sido feitos com fundos da Segurança Social, as negociatas com a banca, mantendo os privilégios dos donos do país. Para tal é necessário dinheiro, a fonte, essa, já se sabe qual é.
Pelo caminho, a desvalorização social associada às altas taxas de desemprego continuam a fazer as delícias de alguns, os mesmos que criticam o Tribunal Constitucional; o Estado Social sai enfraquecido, um enfraquecimento vantajoso para os donos do país, a casta, o bloco central de interesses, a corja de oportunistas, o que lhe quiserem chamar,
Finalmente, procede-se às privatizações - elemento muito apreciado pela Troika que também aprecia criticar o Tribunal Constitucional.
Estica-se a corda. O Orçamento de Estado corresponderá a mais um esticão sem precedentes. A corda acabará por partir. Mesmo que Passos Coelho não dê por isso. E quando esta se partir, o primeiro a saltar fora do barco será o vice, Paulo Portas.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Triste

Triste. O espectáculo de ontem na RTP1 não merece outro adjectivo. Um programa, um primeiro-ministro, um país na miséria, um conjunto de perguntas incipientes, um triste exercício. Já conhecíamos o sermão de Santo António aos peixes e começamos a conhecer o sermão de Passos Coelho aos moluscos, sem pretender ofender quem se prestou ao exercício de ontem.
Passos Coelho repete até à exaustão o famoso acrónimo utilizado noutros tempos e noutros contextos: TINA (There is no alternative) e disto não passamos.
Lamento apenas que quando Passos Coelho criticou os dinheiros públicos gastos com empresas sem viabilidade, ninguém tenha ousado referir o seu tão conhecido exemplo da Tecnoforma.
Triste. Tão triste quando se perceber que se empobrece milhões de pessoas para salvar um sector cuja viabilidade social é, no mínimo, duvidosa e que tem os seus dias contados1, Passos Coelho será o último a percebê-lo. Triste.

1 - (a conjectura é de Mark Blyth e merece reflexão).

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O Presidente da Comissão

Estou certa que, por cá, Durão Barroso, ex-primeiro ministro e actual Presidente da Comissão Europeia, estará muito longe de ter uma imagem positiva. O abandono extemporâneo do cargo de primeiro-ministro, o desempenho de funções de Presidente da Comissão Europeia - um desempenho marcado pela pusilanimidade - serão elementos necessários para que Durão Barroso não tenha deixado saudades em Portugal.
Por terras italianas, designadamente em Lampedusa, Durão Barroso ainda teve pior sorte. Foi-lhe colocado o epíteto: "assassino". Recorde-se que Lampedusa foi palco de uma tragédia de dimensões incomensuráveis e que a resposta europeia a este problema tem sido invariavelmente anódina.
Por outro lado, o descrédito das instituições europeias espelha-se no rosto dos seus responsáveis. A resposta à crise através de um misto de neoliberalismo e  ordoliberalismo, e o subsequente o aumento das desigualdades e o cerceamento do futuro não permitem que Durão Barroso possa cultivar uma imagem positiva. A Europa anda pelas ruas da amargura, há responsáveis e os cidadãos sabem-no.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Vale tudo

Os tempos assim o exigem, em nome da dívida, dos excessos, da União Europeia; em consequência do nosso mau comportamento, passamos a viver sob a égide do "vale tudo", sendo que esse "vale tudo" diz respeito exclusivamente aos cidadãos.
Uma crise, o ressurgimento de uma ideologia com ideias anacrónicas, com frases repetidas há quase cem anos; uma ideologia que serve um conjunto muito restrito de interesses.
A consequência é o "vale tudo": vale tudo em matéria de desvalorização salarial; vale tudo no que diz respeito às pensões; vale tudo relativamente à venda de empresas estratégicas; vale tudo no que toca ao enfraquecimento do Estado Social.
Tudo se tem agravado com o predomínio de partidos políticos muito pouco centrados na defesa dos interesses dos cidadãos, partidos esses que contam, paradoxalmente, com o apoio desses mesmos cidadãos.
Com efeito, a esquerda - a que ainda não se rendeu aos mercados - continua por não fazer o seu trabalho. A desunião, a ausência de audácia, a tibieza dos seus líderes, a inexistência de projectos políticos claros e, como não posso deixar de referir, o desinteresse da comunicação social resultam também no "vale tudo".
Na verdade, o dito "vale tudo" só é possível graças às fragilidades da própria esquerda no âmbito europeu.
Vivemos asfixiados por medidas de austeridade, sem vislumbrar no horizonte qualquer resquício de esperança. Só voltaremos a respirar quando nos cargos políticos representativos estiver quem, de facto, defenda os nossos interesses, quem se lembre do objectivo da política: o bem comum.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Pensões de sobrevivência

Depois de na quinta-feira, o ministro Paulo Portas ter afirmado que não havia lugar a mais austeridade, no domingo subsequente sabe-se que o Governo se prepara para cortar nas pensões de sobrevivência.
Já todos percebemos que este Governo tem uma vocação para atacar os mais fracos. Já todos percebemos que a mentira tem perna curta e que, no caso em apreço, vai de quinta-feira a domingo.
Mesmo se tratando de uma medida que visa pensionistas que acumulam pensões, é importante relembrar que muitos pensionistas (uma vasta maioria) somam um pensão de miséria a outra pensão de miséria. Assim como importa recordar que esta é mais uma medida retroactiva, com o objectivo de poupar de cem milhões de euros.
Com efeito, estas medidas já não raiam a imoralidade; mas antes se afundam na mais abjecta e profunda imoralidade.
Registe-se o seguinte paradoxo: para quem evoca a moralidade, ou a falta dela, associada à culpa - "vivemos acima das nossas possibilidades" ou "temos de trabalhar mais", pressupondo que no passado fomos uns indolentes  -, as medidas adoptadas pelo Executivo de Passos Coelho ficam a dever e muito à "atitude e actuação em matéria de moral de um indivíduo ou de uma sociedade".

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Empobrecimento e mentira

Não obstante o desastre nas eleições autárquicas, o Governo mantém o rumo do empobrecimento.
Ontem o país pode assistir a um exercício de cinismo protagonizado por Paulo Portas e pela senhora mais conhecida pelas Swaps, Maria Luís Albuquerque. Apregoou-se que o rumo é o certo e que já avistamos uma conclusão; a TSU para pensionistas não avança, mas avançam cortes de 10 por cento nas pensões da CGA; as medidas extraordinárias, deixaram de o ser; a desvalorização salarial de funcionários públicos acentuar-se-á no próximo ano. Em suma, a austeridade mantém-se e, em muitos casos, acentua-se. Isto apenas foi o que se soube ontem. Veremos se não estarão algumas surpresas guardadas para o orçamento de Estado.
O empobrecimento acentuar-se-á. A pressão sobre o Tribunal Constitucional manter-se-á, agora com a novidade da própria Troika exercer essa mesma pressão.
Tal como a cenoura à frente do burro, acena-se com pretensas vitórias e com um regresso aos mercados. Se continuarmos a empobrecer não será necessário um segundo resgate. Se o Tribunal Constitucional se portar bem, não será necessário um segundo resgate. O empobrecimento continua e a mentira também.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Masoquismo

Cavaco Silva, em entrevista na Suécia, afirmou que muitos analistas e até políticos portugueses são masoquistas no que toca à sustentabilidade da dívida. Segundo o Presidente da República esses analistas e políticos são masoquistas quando afirmam que a dívida portuguesa não é sustentável.
Pessoalmente, prefiro outro termo: "sadismo". De facto, as políticas levadas a cabo pelo Governo e apoiadas pelo Presidente da República representam, amiúde, exercícios de sadismo como sinónimo de crueldade. Crueldade patente nas políticas atrozes que ambicionam (dizem-nos) pagar a dívida que segundo Cavaco Silva é sustentável, corroborado por Barroso e afins.
Pena que o Marquês de Sade já não esteja entre nós para elucidar Cavaco Silva sobre masoquismo e sadismo. De qualquer forma, um dicionário ajudará a um esclarecimento sobre parafilias. A palavra que procura Sr. Presidente é "sadismo". "Masoquismo" só encontramos na nossa inércia colectiva que, apesar de tudo, não durará para sempre.