segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Desinvestimento

A ascensão social faz-se essencialmente através do ensino. O investimento na educação é genericamente considerado fundamental para o desenvolvimento das sociedades. Estes são dois pontos de difícil contestação.
O Governo prepara-se para introduzir o famigerado cheque-ensino. A ideia, colocada de forma simplista, até pode parecer interessante, na medida em que se afirma que cada um escolherá a escola que entender, seja ela pública ou privada.
É claro que nada decorrerá de forma tão simplista. O desinvestimento no ensino público será uma evidência.
Não se pode descurar a ideologia que subjaz às políticas deste governo. Trata-se, no caso particular, de uma ideologia que não contempla a ascensão social, pelo menos uma ascensão social que não redunde num darwinismo tantas vezes mal aplicado; nem tão-pouco faz a apologia dos serviços públicos, como é o caso do ensino.
Seja como for, e talvez consequência directa de passarmos pela silly season, desta feita contaminada por swaps, esta é uma discussão que não existe. Melhor para quem governa sem obstáculos de maior.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Taxa de desemprego

Esta semana o INE anunciou uma redução da taxa de desemprego. Este decréscimo é tímido e prende-se desde logo com a sazonalidade que sempre contribui para a redução do número de desempregados.
Segundo o INE, tem-se registado uma destruição de postos de trabalho, afectando todos os escalões de rendimento. Todos excepto um: o escalão de rendimentos mais baixos, menos de 310 euros líquidos. Neste particular, verifica-se um aumento na ordem dos cinco por cento.
De facto, estes números  não causam qualquer surpresa na precisa medida em que a elevadíssima taxa de desemprego dos últimos dois anos pressiona os salários para mínimos inauditos. Se a oferta de emprego é demasiado reduzida; se existe uma acentuada destruição de postos de trabalho, contribuindo assim para níveis de desemprego nunca vistos, os trabalhadores vêem-se forçados a aceitar condições salariais e condições de trabalho próprios de países de terceiro mundo.
Por outro lado, os níveis de precariedade e o emprego não declarado atingem dimensões pouco consonantes com o que se deseja para uma sociedade desenvolvida.
Em suma, hoje aceita-se quase tudo e o retrocesso social é um pormenor de somenos para quem dirige os destinos do país.
De resto, cumpre-se assim um dos desígnios do Governo de Passos Coelho e de Paulo Portas: a desvalorização salarial.
As férias, a praia, o sol, a eterna apatia, outras distracções e a descrença vão tornando os salários de 310 euros líquidos, a precariedade, o retrocesso social e a miséria possíveis.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Demasiado comprometidos


Nos últimos dois anos tem vindo a ser notório o compromisso do Governo com determinados sectores da sociedade. Sem rodeios, é visível que o Governo está muito longe de se comprometer com os cidadãos. Ao invés, o Executivo de Passos Coelho mostra que o seu compromisso é, no essencial, com o sector financeiro e com algumas grandes empresas do regime, sobretudo as monopolistas.
O Compromisso do Governo com o sector financeiro revela-se quer através de escolhas para o Executivo - a demissão do secretário de Estado do Tesouro não chega sequer para atenuar a força desse compromisso -, quer através da prossecução de políticas extraordinariamente vantajosas para este sector.
Quanto ao compromisso com os cidadãos - os que em democracia elegem representantes políticos -, a história é incomensuravelmente diferente.
A redução de pensões a pagamento é um dos exemplos mais reveladores da ausência desse compromisso.
De resto, este Governo nunca escondeu com quem está comprometido. Demasiado comprometido, preferindo manter um compromisso com aqueles que estão na origem desta crise.
Na verdade, o Executivo de Passos Coelho sempre demonstrou de que lado é que está. Veja-se quem compõe o Executivo e atente-se nas suas políticas.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Partidos políticos e democracia

A democracia não se esgota nos partidos políticos, porém, os partidos políticos são pilares da democracia. Ora, o esvaziamento e descrédito dos partidos políticos resulta no enfraquecimento dos sistemas democráticos.
Com efeito, assiste-se a um afastamento de cidadãos relativamente aos seus representantes, sobretudo em relação àqueles organizados em partidos políticos.
Assim, ou os partidos procuram recuperar terreno perdido ou corre-se o sério risco de se comprometer irreversivelmente os próprios sistemas democráticos.
O anterior Governo pouco ou nada fez em prol da consolidação democrática. O actual governo vai mais longe e faz do descrédito uma das suas principais características. O BPN e as swaps fazem parte do código genético dos membros do Governo.
Paralelamente, cresce a noção de que os representantes dos cidadãos não os representam, demasiado comprometidos que estão com interesses alheios ao bem comum; comprometidos que estão com interesses político-partidários, amiúde resultantes da promiscuidade entre poder político e poder económico.
A título de exemplo, veja-se a forma como o sector financeiro é tratado pelo Governo e a forma, diametralmente oposta, como o comum do cidadão é tratado. Por outras palavras: nas relações com a banca não há margem para qualquer género de prejuízo; para os pensionistas e trabalhadores cortes nas pensões e nos salários.
Ora, até que ponto o povo ainda é soberano? Quando se tem medo de eleições ou quando os representantes eleitos defendem interesses que não são os cidadãos? Ainda se poderá falar de democracia quando o povo perde a sua soberania?
Desde modo, cabe aos cidadãos mostrarem aos partidos políticos que estes insistem em cavar a sua própria sepultura, arrastando consigo a própria democracia.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

País da inconsequência


Portugal é indiscutivelmente o país da inconsequência. Se dúvidas existem, veja-se o caso do actual Governo. Enquanto o país anda a banhos, ministros e secretários de Estado, apesar de tantas dissimulações, mostram ser desprovidos de qualquer idoneidade para desempenhar os cargos que exercem.
Primeiro terá sido a ministra das Finanças, a mulher que não mente, uma secretária de Estado desgastada que é subitamente e inexplicavelmente promovida a ministra. Depois o secretário de Estado Pais Jorge, possuidor de uma memória anódina, que terá encetado esforços no sentido de incentivar o Governo de José Sócrates a esconder dívida. Rui Machete, actual ministro dos Negócios Estrangeiros e Franquelim Alves, ex-secretário de Estado deste Governo fizeram as suas passagens pelo BPN/SLN.
Consequências? Nenhumas, como é habitual.
Entretanto, depois de contratos de alto risco ruinosos, depois do crime do BPN, e depois ainda de vermos a desfaçatez destes senhores, é notícia a intenção do Governo de aplicar cortes em pensões a partir dos 600 euros. A inconsequência tem destas coisas.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Da podridão

Da podridão escrevo. De um país refém de interesses alheios ao interesse comum escrevo, em que os desprovidos de vergonha reinam. De um país empobrecido escrevo. De um país adormecido escrevo.
A podridão . Palavra escolhida por Rui Machete, agora ministro dos Negócios Estrangeiros, é uma evidência. O jornal Público avança que Rui Machete vendeu acções da SLN ao BPN com lucros de 150 por cento. Talvez seja esta a podridão referida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros. Aliás, numa altura em que tanto se fala de peritos (a ministra das Finanças é perita em swaps e um secretário de Estado deste Governo também será entendido na matéria, desde logo por ter tentado vender produtos de altíssimo risco ao Estado português), Rui Machete poderá ser considerado um perito em podridão. Pelo menos terá muitas histórias de podridão para contar. E por que não organizar tertúlias sobre o assunto? Certamente seria possível reunir um vasto conjunto de pessoas que andam pelos corredores do poder há largas décadas com o intuito de dissertarem sobre a essência da putrefacção.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Agarrados ao poder


Mariano Rajoy, presidente do governo espanhol, admitiu finalmente ter recebido pagamentos extra no âmbito do Partido Popular. A existência de uma contabilidade paralela não será exclusiva do Partido Popular espanhol, nem tão-pouco exclusiva do sistema político no país vizinho.
Rajoy já tinha sido acusado de ter recebido pagamentos ilegais. Agora, fez esse reconhecimento.
Rajoy, à semelhança de outros políticos, muito em particular na Europa, mostram estar agarrados ao poder. Com efeito, existe um projecto que está a levar o seu curso e que ainda está longe de atingir o seu término; um projecto que está a transformar a Europa, tornando incomensuráveis as suas diferenças sociais; um projecto que serve de suporte ao sistema financeiro e que abre, em simultâneo, as portas para uma verdadeira transformação no modelo social europeu.
Rajoy é um dos executantes desse projecto. Por cá, Pedro Passos Coelho, coadjuvado por Paulo Portas, faz as vezes da casa. E também o primeiro-ministro, embora sem similitudes com o caso de Rajoy, também se mostra agarrado ao poder. Também aqui há muito trabalho para ser feito, precisamente no âmbito do já referido projecto: ainda há um Estado Social, ainda sobram alguns direitos dos trabalhadores; ainda há salários para desvalorizar; ainda há sectores estratégicos para privatizar; ainda existe um sector financeiro que precisa de viver sob a protecção do Estado.