quarta-feira, 31 de julho de 2013

Brincar aos pobrezinhos


A frase é de Cristina Espírito Santo, da mesma família que se pendurou no Estado há largas décadas. Por ocasião das suas férias na sua herdade da comporta referiu que estar por lá é como brincar aos "pobrezinhos". Esta é uma daquelas afirmações que dispensaria comentários, desde logo porque de algumas mentes não se pode esperar pensamentos muito elaborados.
Todavia, a afirmação é particularmente ofensiva para muitos portugueses que não podem brincar aos "riquinhos" e que lutam diariamente para sobreviver.
Por outro lado, qualquer tentativa de análise deste género de pensamento é um exercício penoso: não vale a pena empreender esforços no sentido de procurar o que não existe. E por aqui me deixo ficar. De resto, os três minutos que levei para elaborar este texto sobre o assunto em epígrafe já foi tempo desperdiçado.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Funcionários públicos

Os funcionários públicos são indubitavelmente um dos alvos da austeridade em dose cavalar ou da reforma do Estado baseada em mais cortes.
Pedro Passos Coelho, no passado fim-de-semana, visou com particular impetuosidade os funcionários públicos. A ideia não é nova e já foi adoptada pelos seus antecessores: dividir para reinar, relembrando a trabalhadores do sector privado as pretensas benesses próprias do funcionalismo público. Este é um discurso que colhe.
Porém, importa não esquecer que a ambição deste governo, aproveitando a boleia da troika, prende-se com o enfraquecimento do Estado Social. Esse enfraquecimento e eventualmente destruição passa pela redução dos seus funcionários, enfraquecendo também as condições de trabalho, os vínculos laborais, aumentando, por exemplo, a carga horária - sinónimo de destruição de postos de trabalho, desvalorização salarial. Claro que há quem ganhe com o já referido enfraquecimento, até porque estas mexidas fazem pressão sobre o valor do trabalho que se estende a todos os trabalhadores.
Fala-se da existência de funcionários públicos a mais. Mas não estamos acima da média europeia. Da discussão fica de fora a existência de uma excessiva ingerência dos partidos políticos no funcionalismo público. Da discussão fica de fora a forma como alguns partidos políticos se apropriaram de parte da administração pública.
Quando se fala em reforma do Estado, na necessidade de mais cortes e até nas pretensas benesses de funcionários públicos, deixa-se, deliberadamente, de fora da equação todos aqueles que vivem à sombra de partidos políticos; fica de fora da equação, competência e exigência - elementos essenciais para uma administração pública eficaz.
Quando se fala em reforma do Estado e na necessidade de mais cortes, os alvos são funcionários públicos - a esmagadora maioria - essenciais para o funcionamento da Administração Pública, incluindo hospitais, escolas, serviços sociais. Estes são os alvos. E desengane-se quem pense que o Governo pretende melhorar os serviços públicos. Pelo contrário, pretende enfraquecê-los, atingindo não só funcionários públicos, mas também todos os outros cidadãos que assistem à degradação dos serviços públicos. Como já foi referido, haverá quem tenha muito a ganhar com esse dito enfraquecimento.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

União nacional

Pedro Passos Coelho, depois de uma semana de remodelações e escolhas contestadas, apelou à "união nacional". O primeiro-ministro referiu que as pessoas percebem o significado das suas palavras.
O fim-de-semana serviu essencialmente para o primeiro-ministro procurar fazer esquecer a semana atribulada que marcou o "novo ciclo". Entre mentiras, omissões, escolhas menos acertadas (ou acertadas mas na perspectiva de um casta que está à frente dos destinos do país) e outras trapalhadas, Passos Coelho procurou dar um ar da sua graça. Para tal, recorreu a conceitos como "novo rumo" e "união nacional", não esquecendo de relembrar a necessidade de mais austeridade, referindo que num país moderno a constituição não pode ser um óbice.
O país está muito longe de qualquer espécie de união, muito menos em torno deste governo e das suas políticas. De buraco em buraco, o Governo vai fazendo o seu caminho, um caminho diametralmente oposto ao que se devia seguir, pelo menos para a maior parte de nós.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Um bom começo

A remodelação do Governo já está a produzir os seus frutos. Primeiro, a demissão do ministro Vítor Gaspar e a subsequente escolha de Maria Luís Albuquerque para o seu lugar. A escolha foi desde logo polémica, consequência do envolvimento pouco claro da agora ministra nos contratos swaps - ruinosos para o Estado. Quando todos esperavam um afastamento da secretária de Estado, a senhora é promovida a ministra.
Mais recentemente, a escolha de Rui Machete para ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros veio relembrar o caso BPN . Agora a ministra das Finanças não terá dito bem a verdade relativamente aos tais contratos de alto risco, os ditos swaps.
Não restam dúvidas, o Governo moribundo de Passos Coelho e Paulo Portas tem um futuro auspicioso.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Um novo rumo

O Governo moribundo e ainda assim remodelado procura agora mostrar-se empenhado em seguir um novo rumo, não abandonando, claro está, a austeridade que tanta excitação provoca em Passos Coelho e nos seus superiores hierárquicos.
O novo rumo centrar-se-á no investimento, na criação de emprego e no crescimento económico. Paralelamente, os cortes no Estado Social, nos salários e pensões continuarão a ser apanágio deste Governo, mesmo com Paulo Portas à frente dos destinos do Governo - o representante do "protectorado".
Quando se fala de investimento, de criação de emprego e de crescimento económico (crescimento que beneficia quem exactamente?) espera-se encontrar um determinado contexto favorável à concretização dessas ambições. Ora, o actual Governo nada fez em prol de captação de investimento, da criação de emprego e do crescimento económico. O contexto fiscal português é marcado pela incerteza, já para não falar das assimetrias fiscais que prejudicam muito a classe média e os pequenos e médios empresários; a justiça é morosa e inoperante; a burocracia é endémica; o jogo é desleal fruto da corrupção e da promiscuidade entre poder político e poder económico. Estamos, portanto, longe, muito longe, de reunir condições favoráveis às agora propaladas ambições do Governo. Por outro lado, o investimento público que arrasta consigo investimento privado é inexistente e a concessão de crédito às empresas, sobretudo às pequenas e médias, é manifestamente escassa.
Por outro lado ainda, a austeridade veio para ficar. Este Governo mostra-se indisponível para adoptar uma postura contundente em matéria de negociações, preferindo encostar-se à tese da inevitabilidade.
Finalmente, os últimos anos, sobretudo os últimos dois, foram dramáticos para o país: não obstante os sacrifícios pedidos, nenhum indicador é particularmente favorável. O país está de rastos e continua rumo ao abismo. A saída de Gaspar, como se sabe, não foi propriamente fruto do acaso.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Remodelação


Ontem ficámos a conhecer os novos ministros do moribundo governo de Passos Coelho e Paulo Portas. Entre eles, conta-se Rui Machete, ministro dos Negócios Estrangeiros. E de negócios e negociatas percebe o dito senhor, cuja passagem pelo BPN e pelo BPP são conhecidas, embora convenientemente omitidas da sua biografia.
É claro que não há pudor quando se exige o corte de quase 5 mil milhões de euros em pensões, salários, postos de trabalho e Estado Social, depois de se ter nacionalizado os prejuízos do BPN que nos custaram 5, 6,7 8 mil milhões de euros (?); depois de se saber que a venda do BPN aos Angolanos do BIC por uns meros 40 milhões, afinal contém contrapartidas que podem custar mais 800 milhões ao erário público, e quando o ministro dos Negócios Estrangeiros  é alguém que teve uma posição importante no grupo envolvido na burla que tanto nos custou a todos nós que vivemos acima das nossas possibilidades.
O Presidente da República tudo tem feito para manter o actual governo mais ou menos remodelado.
Todavia, a possibilidade de eleições antecipadas não é tão improvável quanto isso, sobretudo se estivermos perante a eminência de um segundo resgate. Perante tudo isto, nós cidadãos, preferimos continuar a assistir  ao que se passa na qualidade de espectadores e enquanto assim for, a tal ausência de pudor continuará a recrudescer e nós, os tais que temos vivido acima das nossas possibilidades, os mesmos que não podem estar sempre a contar com os países do norte da Europa para pagar os nossos vícios, vamos continuar a pagar.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Os indefectíveis

Não obstante as últimas semanas conturbadas, com pedidos de demissão, mudanças no significado de palavras e negociações condenadas à nascença, os indefectíveis defensores da receita entretanto reconhecida como sendo um fracasso pelo também outrora indefectível Vítor Gaspar, continuam, naturalmente, a fazer o seu caminho. Estes indefectíveis entre os quais se contam o primeiro-ministro o próprio vice-primeiro ministro, primeiro ministro dos negócios estrangeiros cuja demissão era irrevogável, depois vice-primeiro ministro, têm agora uma nova oportunidade de mostrarem aos Portugueses o que valem. E ainda dizem que a ascensão social anda pelas ruas da amargura. Perguntem a Paulo Portas. Ele sabe muito do assunto.
A receita falhou, mas como não há alternativas - para os tais indefectíveis defensores da receita para o desastre nunca haverá alternativas -, aguente-se.
Entre os indefectíveis há aqueles que surgem invariavelmente de rosto sério, a condizer com a seriedade do momento e os outros cujos rostos são menos conhecidos ou até desconhecidos. E entre esses conta-se uma miríade de indefectíveis entre PSD e CDS. Estes vivem da existência do partido no poder. Contrariamente, a Vítor Gaspar, cuja ideologia veio ele próprio a reconhecer como sendo caduca, mas ainda assim, mostrando sempre existir uma ideologia, esses indefectíveis são mais pragmáticos e menos ideológicos. A procura da salvaguarda do lugar que ocupam é a grande prioridade, sobretudo em alturas de tanto desemprego.
Finalmente, não podemos deixar de referir outros indefectíveis: banqueiros, os que misturam onanismo com mercados, grandes empresários, notáveis empreendedores. Estes são quem mais lucra com a receita aplicada pelos outros indefectíveis.
Todos estes indefectíveis passaram umas semanas um pouco diferentes, caracterizadas por uma muito ligeira apreensão. Esse incomodo acabou ultrapassado. Os outros, os que não pertencem ao grupo dos indefectíveis, continuarão a ser vítimas da receita. E serão vítimas até ao dia em que abandonarem a (aparente?) letargia