quarta-feira, 24 de julho de 2013

Remodelação


Ontem ficámos a conhecer os novos ministros do moribundo governo de Passos Coelho e Paulo Portas. Entre eles, conta-se Rui Machete, ministro dos Negócios Estrangeiros. E de negócios e negociatas percebe o dito senhor, cuja passagem pelo BPN e pelo BPP são conhecidas, embora convenientemente omitidas da sua biografia.
É claro que não há pudor quando se exige o corte de quase 5 mil milhões de euros em pensões, salários, postos de trabalho e Estado Social, depois de se ter nacionalizado os prejuízos do BPN que nos custaram 5, 6,7 8 mil milhões de euros (?); depois de se saber que a venda do BPN aos Angolanos do BIC por uns meros 40 milhões, afinal contém contrapartidas que podem custar mais 800 milhões ao erário público, e quando o ministro dos Negócios Estrangeiros  é alguém que teve uma posição importante no grupo envolvido na burla que tanto nos custou a todos nós que vivemos acima das nossas possibilidades.
O Presidente da República tudo tem feito para manter o actual governo mais ou menos remodelado.
Todavia, a possibilidade de eleições antecipadas não é tão improvável quanto isso, sobretudo se estivermos perante a eminência de um segundo resgate. Perante tudo isto, nós cidadãos, preferimos continuar a assistir  ao que se passa na qualidade de espectadores e enquanto assim for, a tal ausência de pudor continuará a recrudescer e nós, os tais que temos vivido acima das nossas possibilidades, os mesmos que não podem estar sempre a contar com os países do norte da Europa para pagar os nossos vícios, vamos continuar a pagar.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Os indefectíveis

Não obstante as últimas semanas conturbadas, com pedidos de demissão, mudanças no significado de palavras e negociações condenadas à nascença, os indefectíveis defensores da receita entretanto reconhecida como sendo um fracasso pelo também outrora indefectível Vítor Gaspar, continuam, naturalmente, a fazer o seu caminho. Estes indefectíveis entre os quais se contam o primeiro-ministro o próprio vice-primeiro ministro, primeiro ministro dos negócios estrangeiros cuja demissão era irrevogável, depois vice-primeiro ministro, têm agora uma nova oportunidade de mostrarem aos Portugueses o que valem. E ainda dizem que a ascensão social anda pelas ruas da amargura. Perguntem a Paulo Portas. Ele sabe muito do assunto.
A receita falhou, mas como não há alternativas - para os tais indefectíveis defensores da receita para o desastre nunca haverá alternativas -, aguente-se.
Entre os indefectíveis há aqueles que surgem invariavelmente de rosto sério, a condizer com a seriedade do momento e os outros cujos rostos são menos conhecidos ou até desconhecidos. E entre esses conta-se uma miríade de indefectíveis entre PSD e CDS. Estes vivem da existência do partido no poder. Contrariamente, a Vítor Gaspar, cuja ideologia veio ele próprio a reconhecer como sendo caduca, mas ainda assim, mostrando sempre existir uma ideologia, esses indefectíveis são mais pragmáticos e menos ideológicos. A procura da salvaguarda do lugar que ocupam é a grande prioridade, sobretudo em alturas de tanto desemprego.
Finalmente, não podemos deixar de referir outros indefectíveis: banqueiros, os que misturam onanismo com mercados, grandes empresários, notáveis empreendedores. Estes são quem mais lucra com a receita aplicada pelos outros indefectíveis.
Todos estes indefectíveis passaram umas semanas um pouco diferentes, caracterizadas por uma muito ligeira apreensão. Esse incomodo acabou ultrapassado. Os outros, os que não pertencem ao grupo dos indefectíveis, continuarão a ser vítimas da receita. E serão vítimas até ao dia em que abandonarem a (aparente?) letargia

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Na periferia da Europa, nada de novo

Em ano de eleições, Angela Merkel insiste na tese de tudo está a correr bem, sobretudo nos países alvo de intervenção. De certa forma, Merkel tem razão. Senão, vejamos: A Irlanda, apesar da recessão, continua a seguir a receita da troika, com maior ou menor fervor; a Grécia, apesar do enfraquecimento político do primeiro-ministro Samaras consequência da saída de um partido da coligação, vai-se afundando na miséria, mas insiste na mesma receita; as economias espanhola, italiana e até a francesa já conheceram melhores dias, mas finge-se que com a tal austeridade tudo se resolve; e, finalmente, Portugal que fugiu das eleições como o Diabo da cruz e cujo Presidente preferiu manter um governo a cheirar a podre. Na periferia da Europa faz-se troça da democracia; na periferia da Europa, nada de novo.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A escolha do PS

O Partido Socialista foi encostado à parede pelo Presidente da República, entretanto mais entretido com cagarras.  O PSD procura fazer o mesmo ao PS: encostar os socialista à solução proposta pelo Presidente da República.
Neste momento, parece-me que são poucos os que procuram compreender estas guerras intestinas. Creio que a maior parte dos cidadãos já não tem tolerância para o que se está a passar. Tudo, em nome de uma pretensa salvação nacional; tudo em nome de uma pretensa estabilidade que não pode passar por eleições.
O Partido Socialista se alinhar com PSD e CDS, aceitando o repto do homem das cagarras, fragiliza as suas bases de apoio, desvirtua o seu alinhamento ideológico, por muito deturpado que este tenha vindo a ser e, à semelhança do que foi dito por Mário Soares, cria uma cisão no partido. O PS se alinhar com os cadáveres políticos Paulo Portas e Pedro Passos Coelho compromete as suas ambições eleitorais.
O Partido Socialista, em nome do que resta da sua ideologia e em nome da coerência, não pode alinhar com CDS e PSD, se o fizer, Seguro passará a fazer companhia aos cadáveres políticos Paulo Portas (este talvez ainda consiga rescuscitar, até porque também há milagres na política) e Pedro Passos Coelho.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Selvagens

O Presidente da República, pese embora, e provavelmente devido à crise política,  procurou refúgio nas Ilhas Selvagens. A bordo da fragata Vasco da Gama confessou aos jornalistas estar confiante nas negociações para a salvação nacional, referindo ver "sinais muito positivos" nos encontros dos três partidos.
As Ilhas Selvagens, um sub-arquipélago da Madeira, têm sido visitadas por vários Presidentes da República.
Num momento em que Portugal vive subjugado a uma verdadeira selvajaria, representado por um Governo que alinha no mais abjecto neoliberalismo, à mercê de interesses que estão muito longe de ser os interesses dos cidadãos, Cavaco Silva encontra-se no sítio certo: isolado, desabitado e que talvez lhe possa fazer lembrar a tal selvajaria que assola o país.
Por cá, no continente, discute-se a salvação nacional, mas não uma salvação - um resgate - dessa referida selvajaria, mas sim a perpetuação da mesma. Chamar-lhe salvação nacional é, no mínimo, uma afronta.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A resposta é não


A proposta do Bloco de Esquerda de se pensar numa solução à esquerda, solução essa que envolvesse o maior partido da oposição, foi recusada pelo Partido Socialista que sublinha que  o partido não entrará em processos de negociação paralelos.
Recorde-se que o PS encontra-se em negociações com PSD e CDS, a pedido do Presidente da República. De fora da equação ficaram Bloco de Esquerda, Partido Comunista e "Os verdes", embora o Partido Socialista tivesse a intenção de os trazer para a mesa das negociações.
Estrategicamente, a proposta do Bloco de Esquerda faz sentido. Numa altura em que a actualidade é marcada pelos partidos políticos que assinaram o memorando de entendimento e dias depois do Presidente mostrar ter pouco mais do que desprezo pelo BE, PCP e Verdes, o Bloco de Esquerda procura também marcar a actualidade.
A procura de uma solução à esquerda é legítima.  Como é a procura de outras soluções, congeminadas ou não por Cavaco Silva.
No cômputo geral, a liderança do Partido Socialista terá de demonstrar uma elevada destreza política para fazer face aos dias que ainda restam. Até ao momento, não se pode falar numa  acentuada destreza política. Com a recusa imediata dos socialistas, clarifica-se a posição do maior partido da oposição.

terça-feira, 16 de julho de 2013

A semana da salvação nacional

A semana que ainda agora começou será marcada por conversações entre os três partidos que assinaram o famigerado de entendimento com o objectivo de chegarem à salvação nacional - um compromisso proposto pelo Presidente da República.
É por demais evidente que o tal acordo ou compromisso de salvação nacional mais não é do que a perpetuação das políticas de austeridade que têm destruído o país, sem, paradoxalmente, se resolver os problemas das contas públicas.
O PSD e o CDS mostram-se empenhados na perpetuação dessas políticas de austeridade e não mostram menos empenho na garantia dos seus lugares. O Governo de Passos Coelho e de Portas está morto, apesar do não reconhecimento dessa morte.
O PS, embora tenha anunciado que votará favoravelmente a moção de censura do Partido Ecologista Verdes, insiste em negociar com um cadáver (Governo de Passos Coelho e de Paulo Portas).
Como se sabe, o cenário de eleições antecipadas é rejeitado por PSD, CDS e pelo próprio Presidente que prefere eleições a partir de Junho de 2014.
Espera-se que o PS, embora insista em negociar com um cadáver político, seja consonante com tudo que tem dito em relação ao Governo defunto e que pugne por eleições antecipadas. Até ao final da semana, espera-se uma decisão.