quinta-feira, 11 de julho de 2013

Amarrar o PS

O Presidente da República, surpreendendo tudo e todos, não aceitou a solução proposta pelo PSD e CDS e que contava com a anuência da Alemanha. Ao invés, Cavaco Silva, propôs um compromisso de salvação nacional, chamando para o efeito os três partidos que assinaram o memorando de entendimento.
A pressão maior fica do lado do Partido Socialista que tem defendido eleições antecipadas. Se, porventura, aceitar a proposta do Presidente, vai seguir um caminho contrário a tudo o que tem defendido nos últimos meses. Se recusar, será acusado de contribuir decisivamente para a tão temida instabilidade.
Cavaco Silva amarrou, ou está a tentar amarrar, o PS  uma solução que dificilmente agradará aos socialistas e que encosta o maior partido da oposição à parede.
Relativamente aos partidos do Governo, a surpresa também parece ter tido o seu lugar. Aparentemente, há receptividade por parte dos dois partidos. Sabendo de antemão que ficam até Junho de 2014 - data que faz parte do tal compromisso de salvação nacional.
Os próximos dias serão marcados pela associação constante do PS à assinatura do memorando. Ficará seguramente por relembrar um elemento decisivo: a pressão de PSD e do CDS-PP para a inviabilização das propostas do então partido socialista. Essa inviabilização empurrou o país para uma situação indesejável até para as próprias instâncias europeias, com todas as consequências conhecidas.
Quanto às eleições, a comunicação do Presidente da República veio corroborar a tese da sua impossibilidade no actual momento. Por fim, não se vê como é que esta solução, que dificilmente contará com o apoio dos socialistas, poderá contribuir para debelar a tão temida instabilidade política.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A luz verde da Alemanha


Enquanto Cavaco Silva, Presidente da República Portuguesa, ouvia partidos da oposição, Governador do Banco de Portugal e parceiros sociais, a Alemanha dava a sua anuência à solução saída das mentes de Passos Coelho e de Paulo Portas, tornando o Presidente da República uma figura meramente decorativa.
O jornal I noticia que estas diligências do Presidente são uma mera formalidade e que a decisão já terá sido tomada. A antecipação da Alemanha revela isso mesmo e muito mais: revela a pequenez de quem nos governa, os tais que adoptaram agora, como no passado, uma postura de total subserviência que nos envergonha a todos. A democracia não é isto. Aliás, o que se tem passado nas últimas semanas é a antítese do que deve ser a democracia.
A nossa qualidade de devedor (não se sabe bem ao certo de que dívida é que realmente estamos a falar) não pode ser sinónimo de humilhações que mais não são do que a consequência de uma postura que tem sido invariavelmente subserviente. Lamentável e vergonhoso. Com a actual configuração política saída daquelas duas mentes brilhantes, a vergonha, para além de tudo o mais, será transversal a uma boa parte dos cidadãos deste país.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Recebida de braços abertos


Foi assim que a comunicação social descreveu a primeira reunião de Maria Luís Albuquerque em contexto europeu. A imagens da reunião de ministros das Finanças, a primeira, na qualidade de ministra, de Maria Luís Albuquerque são elucidativas: abraços, beijinhos, sorrisos e elogios de um grupo de ministros que ficará na História como coveiros da União Europeia.
É evidente que a recepção não podia ser outra coisa que não aquele espectáculo deprimente que as televisões mostraram.
O ministro das Finanças alemão já elogiou a aposta na continuidade e disso mesmo que se trata: de continuidade. A continuidade das políticas que arrasaram os países periféricos que arrastarão consigo toda a Europa.
Maria Luís Albuquerque vai seguir indefectivelmente a linha do seu antecessor, dando a tal continuidade às políticas de uma Europa em declínio. Esse é um facto.
É também importante sublinhar que a recepção de braços abertos seria feita até no caso de um macaco ter sido escolhido para ministro das Finanças, desde que esse macaco estivesse comprometido com a linha de austeridade e liquidação dos países periféricos.
Talvez seja um problema exclusivamente meu, mas as imagens de rostos sorridentes e o ambiente festivo na reunião de ministros das Finanças da zona euro não se coaduna com o ambiente negro que se vive em boa parte da Europa.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Afinal há Governo

Depois de uma semana marcada por decisões não tão irrevogáveis quanto isso, o Governo mantém-se em funções, com alterações em várias pastas ministeriais e com um novo peso do parceiro de coligação CDS-PP.
Desde logo, confesso a dificuldade em escrever sobre os últimos acontecimentos, tendo em consideração o rídiculo que os caracteriza. Primeiro, a demissão de Paulo Portas, depois a rejeição dessa demissão por parte do primeiro-ministro e, finalmente, o regresso de Paulo Portas com poderes reforçados, esvaziando de sentido a palavra "irrevogável". De resto, Paulo Portas não só maltratou o país, como a própria língua portuguesa.
Hoje o El País noticia que Bruxelas prepara um segundo resgate, numa linha mais branda... O FMI volta a dar conta dos erros da austeridade e o próprio Vítor Gaspar, com a sua demissão, faz esse reconhecimento ao mesmo tempo que se queixa da solidão.
O Governo é para continuar, a realidade um problema dos povos que sofrem as consequências de tanta cegueira. O país convence-se cada vez mais da inutilidade e, em casos mais graves, do carácter ignominioso de quem exerce cargos políticos. Mais uma machada na democracia. E será que ainda existe alguém a prestar atenção? Ou que se inquiete?

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Segundo resgate


O Presidente da República põe as coisas da seguinte forma: ou estabilidade política, assente numa coligação cujos líderes estão desavindos, ou o dilúvio (leia-se: segundo resgate). Cavaco dirá mais tarde que avisou.
Na verdade, esta novela de mau gosto a que alguns apelidam de crise política mais não é do que a justificação precisamente para um segundo resgate. Quando nos confrontarmos com essa realidade, dir-se-á então que a instabilidade política produzida nos últimos dias terá contribuído decisivamente para o tal segundo resgate. Até lá foi-se fingindo que um segundo resgate não era eminente.
A pretensa crise política servirá então para justificar o falhanço das políticas de Passos e Portas, invariavelmente coadjuvados pelo aparentemente letárgico Presidente da República.
Posteriormente e para que tudo não piore (a saída do euro, sempre o anátema da saída do euro), será necessário encontrar a tão apregoada estabilidade política, a tudo custo, custe o que custar, sempre em nome do interesse nacional. Todos já sabemos o que isto quer dizer.
Pelo caminho, vamos continuar a assistir ao senhor que avisa (Cavaco Silva) e às duas comadres que não se entendem e que ralham uma com a outra enquanto vêem o país a afundar.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Estabilidade


Em nome da estabilidade pretende-se manter uma coligação de governo puramente artificial. Com a demissão irrevogável do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, líder do parceiro de coligação, todos esperavam a demissão do Governo.
O volte-face acontece no dia de ontem, com a possibilidade do partido de Paulo Portas encontrar um novo entendimento com o PSD.

Quando se pensava que o Governo poderia, finalmente, cair, tudo parece indicar a manutenção do Executivo de Passos Coelho, mantendo a coligação. Quanto ao futuro de Portas, parece haver mais dúvidas.
A estabilidade terá sido uma das palavras mais utilizadas nos últimos dias. A queda da bolsa, a resposta dos sacrossantos mercados e a inquietação de Merkel que tem em Passos Coelho o melhor parceiro possível, contribuíram para que o medo latente se manifestasse. A comunicação social faz o resto.
De resto é graças a esse medo que se traduz na possibilidade de nos transformamos numa nova Grécia, na possibilidade de um novo resgate, na possibilidade de não haver dinheiro para salários e pensões, na possibilidade da chegada dos sete anjos do Apocalipse munidos dos sete selos, que o Governo se poderá manter.
Por muito que alguns apregoem a necessidade de se convocarem eleições antecipadas - outro medo evidente é o da própria democracia -, a verdade é que tudo se fará para garantir a manutenção do Governo, seja ele mais ou menos artificial.
O Presidente da República é um dos principais apologistas da manutenção do actual estado de coisas. Os partidos da oposição vêm a sua margem limitada pela permanência da coligação e o povo sucumbe ao medo.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O rídiculo

A semana tem sido pródiga em demissões no Governo. Começou com Vítor Gaspar, depois Paulo Portas e, em consequência, todos os ministros e secretários de Estado do CDS-PP.
Pedro Passos Coelho decidiu falar ao país. Em vez do anúncio da sua demissão, o primeiro-ministro preferiu abordar o assunto da demissão do Presidente do partido que suporta o partido da coligação, mostrando que não aceita a demissão, discursando num tom de quase condescendência, diminuindo Paulo Portas, ministro demissionário, diminuindo-se a si próprio e diminuindo o país. Os interesses partidários, com eleições à porta, não serão alheios à decisão do primeiro-ministro. O país, esse, é a última das suas preocupações.
A comunicação de Pedro Passos Coelho ao país é um sinal de como a obstinação pode redundar numa situação ridícula. O que país assistiu ontem às 20h foi ao exercício penoso e ridículo de um primeiro-ministro que insiste em manter-se em funções quando tudo, rigorosamente tudo, indica que não haver condições para essa manutenção.
O Governo não tem condições para continuar em funções. É urgente que se convoquem eleições antecipadas, o quanto antes. Recorde-se que este também é o ano de eleições na Alemanha, o que poderá representar uma janela de oportunidade para quem negoceia com as instâncias europeias subservientes ao diktat alemão. A chanceler Angela Merkel necessita de bons exemplos - a Irlanda entrou em recessão, a Grécia é que se sabe e Portugal poderia ser, com recurso a muita imaginação, o tal bom exemplo de como as políticas advogadas por Merkel funcionam. Essa é uma oportunidade que não deve ser desperdiçada.
De qualquer modo, terá de ser outro Governo a encetar negociações. Este que se mantém incrivelmente em funções, para além de ser mais papista do que o Papa, não tem credibilidade e não tem condições para encabeçar quaisquer negociações com as instâncias internacionais. Este Governo está liquidado. Só Passos Coelho e, até ver, o Presidente da República é que ainda não aceitaram esta verdadeira inevitabilidade. Ridículo.