quinta-feira, 4 de julho de 2013

Estabilidade


Em nome da estabilidade pretende-se manter uma coligação de governo puramente artificial. Com a demissão irrevogável do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, líder do parceiro de coligação, todos esperavam a demissão do Governo.
O volte-face acontece no dia de ontem, com a possibilidade do partido de Paulo Portas encontrar um novo entendimento com o PSD.

Quando se pensava que o Governo poderia, finalmente, cair, tudo parece indicar a manutenção do Executivo de Passos Coelho, mantendo a coligação. Quanto ao futuro de Portas, parece haver mais dúvidas.
A estabilidade terá sido uma das palavras mais utilizadas nos últimos dias. A queda da bolsa, a resposta dos sacrossantos mercados e a inquietação de Merkel que tem em Passos Coelho o melhor parceiro possível, contribuíram para que o medo latente se manifestasse. A comunicação social faz o resto.
De resto é graças a esse medo que se traduz na possibilidade de nos transformamos numa nova Grécia, na possibilidade de um novo resgate, na possibilidade de não haver dinheiro para salários e pensões, na possibilidade da chegada dos sete anjos do Apocalipse munidos dos sete selos, que o Governo se poderá manter.
Por muito que alguns apregoem a necessidade de se convocarem eleições antecipadas - outro medo evidente é o da própria democracia -, a verdade é que tudo se fará para garantir a manutenção do Governo, seja ele mais ou menos artificial.
O Presidente da República é um dos principais apologistas da manutenção do actual estado de coisas. Os partidos da oposição vêm a sua margem limitada pela permanência da coligação e o povo sucumbe ao medo.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O rídiculo

A semana tem sido pródiga em demissões no Governo. Começou com Vítor Gaspar, depois Paulo Portas e, em consequência, todos os ministros e secretários de Estado do CDS-PP.
Pedro Passos Coelho decidiu falar ao país. Em vez do anúncio da sua demissão, o primeiro-ministro preferiu abordar o assunto da demissão do Presidente do partido que suporta o partido da coligação, mostrando que não aceita a demissão, discursando num tom de quase condescendência, diminuindo Paulo Portas, ministro demissionário, diminuindo-se a si próprio e diminuindo o país. Os interesses partidários, com eleições à porta, não serão alheios à decisão do primeiro-ministro. O país, esse, é a última das suas preocupações.
A comunicação de Pedro Passos Coelho ao país é um sinal de como a obstinação pode redundar numa situação ridícula. O que país assistiu ontem às 20h foi ao exercício penoso e ridículo de um primeiro-ministro que insiste em manter-se em funções quando tudo, rigorosamente tudo, indica que não haver condições para essa manutenção.
O Governo não tem condições para continuar em funções. É urgente que se convoquem eleições antecipadas, o quanto antes. Recorde-se que este também é o ano de eleições na Alemanha, o que poderá representar uma janela de oportunidade para quem negoceia com as instâncias europeias subservientes ao diktat alemão. A chanceler Angela Merkel necessita de bons exemplos - a Irlanda entrou em recessão, a Grécia é que se sabe e Portugal poderia ser, com recurso a muita imaginação, o tal bom exemplo de como as políticas advogadas por Merkel funcionam. Essa é uma oportunidade que não deve ser desperdiçada.
De qualquer modo, terá de ser outro Governo a encetar negociações. Este que se mantém incrivelmente em funções, para além de ser mais papista do que o Papa, não tem credibilidade e não tem condições para encabeçar quaisquer negociações com as instâncias internacionais. Este Governo está liquidado. Só Passos Coelho e, até ver, o Presidente da República é que ainda não aceitaram esta verdadeira inevitabilidade. Ridículo.

terça-feira, 2 de julho de 2013

A saída

Desgastado, cansado da ausência de coesão no próprio Governo e provavelmente da sua própria incapacidade de acertar uma única previsão, Vítor Gaspar demitiu-se do cargo de ministro das Finanças. Pedro Passos Coelho, por sua vez, aposta na continuidade, escolhendo para o lugar a secretária de Estado, Maria Luís Albuquerque. A mesma envolvida na intrincada e opaca história dos contratos de alto risco - Swap.
O parceiro de coligação, Paulo Portas, passa para número dois. Isto numa coligação que se encontra num eterno estado titubeante.
A saída de Vítor Gaspar não muda o rumo das políticas do Governo, tanto mais que não se regista nenhum episódio de inquietação nas instâncias europeias.
Todavia, a saída de Gaspar, pelas razões apontadas pelo mesmo, contribui para a fragilização de um Governo que só se mantém no poder graças ao apoio do Presidente da República, longe dos cidadãos, mas no coração de Cavaco Silva.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

28

Numa altura em que a União Europeia atravessa a sua mais grave crise, assiste-se a um novo alargamento. O novo Estado-membro é a Croácia. Um sinal da desunião que se vive no seio europeu é, segundo muitas opiniões, a ausência da Chanceler alemã, Angela Merkel, que não compareceu a Zagreb para as comemorações, alegando razões de agenda.
O facto da mensagem de boas-vindas ter sido proferida por Durão Barroso é desde logo um mau prenúncio.
Hoje passamos a ser 28. Muitos cidadãos, sobretudo dos países alvo de intervenção (pertencentes à Zona Euro), olham para a União Europeia com grande cepticismo, alguns anseio pela saída.
A festa em Zagreb contrasta com a imagem de uma União Europeia triste, apagada, desunida, egoísta. A ausência de Merkel é paradigmática de uma UE que no fundo é controlada pelo seu país, sobretudo a moeda única que se tornou um calvário para uma boa parte dos países que integram a zona euro.
A Sérvia será o próximo a entrar? Demorará alguns anos. Como estará a União Europeia passarmos a ser 29.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A lei


A greve geral, esta como outras recentes, acabou ofuscada por episódios que visam desviar a atenção do essencial. Esses episódios têm como protagonistas manifestantes e a policia.
Em tempos não assim tão remotos, a polícia depois do discurso do líder da CGTP, e depois de algumas pedras arremessadas por meia-dúzia de pessoas, carregou indiscriminadamente sobre todos os que se manifestavam.
Ontem, um grupo de mais de 200 pessoas que alegadamente teria a intenção de bloquear um acesso à ponte 25 de Abril, foi retido, identifico e notificado. Repito: alegadamente. São acusados de manifestação ilegal e atentado à segurança de transporte rodoviário. Da greve pouco mais se discutiu. Hoje, como no passado mais recente. Ficam imagens deploráveis de manifestantes encurralados pela polícia, retidos, arrebanhados.
A velha máxima dura lex sed lex aplica-se com particular contundência a estes e a outros manifestantes. Isto num país cuja Constituição é permanentemente atropelada por quem a jurou cumprir e fazer cumprir.
A lei é dura para quem ousa manifestar-se. A lei é branda, ao ponto de se anular a si própria quanto à sua aplicação, para quem despreza a Constituição, para quem chafurda na promiscuidade entre poder político e poder económico e para quem se apropria do bem comum para servir os seus interesses e os da sua casta.
A lei e os seus executantes manifestam um desprezo pelo próprio Estado de Direito, base de qualquer democracia digna desse nome. A lei e os seus executantes prestam-se ao triste espectáculo de reter para identificação e notificação, duas centenas de manifestantes que se viram privados de comida e de acesso aos sanitários durante largas horas.
O espectáculo a que assistimos ontem é próprio de um regime que apodrece a cada dia que passa; próprio de um país governado por quem está disposto a tudo para se conservar no poder; próprio de um país em que o fosso entre instituições e cidadãos é incomensurável; de um país que precisa de sair urgentemente do seu estado de letargia.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Quando a democracia falha

O neoliberalismo que atinge o seu auge, paradoxalmente depois da crise de 2008, conhecendo uma renovada força desde os áureos tempos de Tatcher e de Reagan, tem vindo a enfraquecer a democracia. A democracia coloca entraves à disseminação da ideologia que também por cá se instalou. Veja-se a forma como este Governo lida com o Tribunal Constitucional e com as suas deliberações. Veja-se a forma como o próprio Presidente da República lida com a Constituição. Trata-se apenas de um exemplo. Em Portugal, à semelhança do que acontece com outros países, as democracias são indissociáveis de pactos sociais que estão a ser genericamente desrespeitados. Quem governa, representa interesses alheios ou contrários ao interesse comum, deixando o povo de ser soberano, para no seu lugar, as grandes empresas e a alta finança, através de representantes, tomarem as decisões. Esvazia-se o conceito de democracia. Hoje o perigo da democracia ser substituída por regimes déspotas, xenófobos, fascistas é uma realidade. Curiosamente será através de mecanismos democráticos que esses regimes contrários à própria democracia conseguirão chegar ao poder. Atente-se ao caso francês.

terça-feira, 25 de junho de 2013

E depois das manifestações?


Uma das perguntas mais pertinentes a ser colocada a propósito dos mais recentes protestos no Brasil prende-se com as consequências desses mesmos protestos. E depois das manifestações?
Dilma Rousseff dá a resposta, propondo um referendo sobre a reforma do Estado, a par do combate à corrupção, melhorias na saúde, educação e transportes.
Dilma propõe uma forma mais directa de democracia - o referendo -, e em simultâneo, promete mais investimento no Estado Social, e um combate mais cerrado à corrupção.
As manifestações que marcaram as últimas semanas no Brasil surpreenderam o mundo e o próprio Brasil político. Uma sociedade considerada pouco politizada deu afinal uma lição ao mundo.
De resto, não esqueçamos que as manifestações não apontavam o dedo especificamente à Presidente Dilma Rousseff, o que deixava antever que não era a queda de Dilma que os manifestantes pediam. A presidente já se reuniu com manifestantes e agora apresenta propostas que vão ao encontro das necessidades dos Brasileiros.
Quem afirma, tantas vezes com uma convicção inabalável, que a rua não traz soluções, poderá ter de rever a sua posição.