segunda-feira, 13 de maio de 2013

Cisma grisalho III

Como é que ficou o cisma grisalho de Portas, depois do CDS ter aprovado "excepcionalmente" taxa sobre pensões?
Diz-se que a medida é facultativa e só entrará em vigor caso o Governo não encontre soluções alternativas. Diz-se.
O facto é que o cisma grisalho de Portas sai reforçado paradoxalmente por ele próprio. Recorde-se que num domingo Portas manifesta-se, em comunicação ao país, contra mais ataques aos pensionistas, e no domingo seguinte aprova, "excepcionalmente" uma taxa sobre pensões. Se o caso não fosse tão sério até daria para rir.
A desculpa de Portas passará pelo carácter facultativo na medida. Num bom jogo de retórica, dir-se-á que Portas conseguiu defender os reformados e pensionistas. Podia ter sido pior. Pode sempre ser pior. A ver vamos se a medida não será de facto levada a avante, sobretudo quando se verificar que não é possível cortar na despesa para compensar a não aplicação da medida.
Portas ficou mal na fotografia; o Governo fica mal da fotografia. Um dos oráculos de domingo (o mais antigo) diz que o Governo é "fraquinho, fraquinho, fraquinho" e que "já não é levado a sério por ninguém".

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Cisma grisalho II


O ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, Luís Marques Guedes, afirmou ontem que as declarações do secretário de Estado da Administração Pública sobre a retroactividade da diminuição das pensões se insere "no plano das hipóteses".
Assim, voltamos ao "cisma grisalho" denunciado por Paulo Portas - no campo das hipóteses, mantém-se o "cisma grisalho".
Paralelamente ao "cisma" denunciado por Paulo Portas, coloca-se a questão da constitucionalidade da medida. Será que o Governo vai insistir na aplicação de políticas inconstitucionais? Se o fizer, sobram poucos adjectivos para além de "incompetente".
E o cisma de Portas? Esse cisma pode muito bem ser a gota de água; de facto, não se pode excluir a forte possibilidade de ser o tal "cisma" a deitar por terra a coligação. Pode ser que Paulo Portas, finalmente, acabe por apostar numa consonância entre o que diz e o que faz. Eleições, a quanto obrigas?

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Cisma grisalho


Paulo Portas, no passado domingo, afirmou que não queria que em Portugal se instalasse uma "espécie de cisma grisalho", demonstrando assim estar contra mais cortes nas pensões. Escassos dias depois, o secretário de Estado da Administração Pública, insiste na possibilidade de se proceder a alterações na fórmula de cálculo das pensões - espante-se! - com efeitos retroactivos.
Assim, o cisma grisalho tão criticado por Portas continua a fazer o seu caminho. Esperamos pelas reacções do líder do CDS que, numa tentativa de voltar a cativar boa parte do seu eleitorado, criticou mais cortes nas pensões e nas reformas.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Acossados

A história dos acossados do Sul da Europa conta-se em poucas linhas. A União Europeia prometia atenuar as assimetrias sociais e económicas entre Estados-membros, como parte integrante do projecto europeu. Para atingir esse pretenso objectivo, os países do sul - longe de conhecerem os níveis de desenvolvimento dos países do centro e do norte da Europa - receberam apoios comunitários. Em simultâneo acentuou-se a desindustrialização, agrava-se a iniquidade das políticas agrícolas e de pescas.
Primeiro Maastricht, depois a União Económica e Monetária e o euro. Taxas de juros baixas, ilusões, consolidação de um mercado no sul da Europa para escoar os produtos do centro e norte. Pelo caminho, a banca que tudo financiou, regozijava.
Os mercados - essa panaceia - e o Banco Central Europeu, uma relação favorável para uma ínfima minoria.
A Alemanha. Hoje já ninguém fala do tão famigerado eixo franco-alemão. A Alemanha consolida a sua hegemonia económica e política.
O sistema intergovernamental, versus o federalismo. Por ora prefere-se o sistema intergovernamental que na prática se traduz num exercício constante de poder por parte de um país.
A crise, primeiro dos bancos, depois dos países. Esquece-se a origem, aplicam-se políticas económicas duras nos países que se portaram mal.
A culpa. Os processos de culpabilização. Os países do sul viveram acima das suas possibilidades.
A revolta. Comedida, controlada, cantada em alguns casos. Se as mesmas políticas fossem aplicadas nos países do centro e do norte da Europa teríamos "uma rebelião social". As palavras não são minhas - uma humilde cidadã europeia (ou da Europa do sul?); as palavras são de Jean-Claude Juncker.
Com efeito, se os acossados vivessem no norte da Europa, a história deste continente seria seguramente outra. Ou talvez os acossados do sul ainda venham a mostrar que a história do velho continente pode ainda ser outra.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Eleições, a quanto obrigas

Paulo Portas conseguiu sair quase ileso dos efeitos do anúncio de sexta-feira de Pedro Passos Coelho.
É escusado recordar que na passada sexta-feira, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho voltou a anunciar medidas de austeridade, com especial impacto nos funcionários públicos e pensionistas.
Paulo Portas, parceiro de coligação, reagiu 48 horas depois. No domingo, Paulo Portas mostrou a sua perícia, conseguindo transformar um partido aparentemente demasiado comprometido com as políticas anunciadas por Passos Coelho, num partido que não esquece as pessoas e Paulo Portas é exímio em mostrar que não esquece as pessoas. No passado domingo, o líder do CDS fez aquilo que faz melhor. Mostrou ser um indefectível defensor dos pensionistas e reformados, manifestando o seu total desagrado com políticas que afectem este sector da sociedade.
A razão para esta defesa é, em larga medida, evidente. O CDS corre o risco de erosão e, em última instância, arrisca-se a desaparecer caso este segmento do eleitorado se afaste do partido.
As autárquicas estão à porta e não se pode excluir a possibilidade de novas eleições legislativas antes do tempo previsto. As eleições, as previstas e as imprevistas, obrigam o líder do CDS a afastar-se (embora ainda muito longe do que seria desejável) do PSD.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O que dizer de mais austeridade?

O primeiro-ministro voltou a brindar o país com mais medidas de austeridade, visando novamente funcionários públicos e pensionistas. Todo o discurso de Pedro Passos Coelho voltou a assentar na divisão. A ideia é invariavelmente a mesma: tentativa de aproximar público do privado; tentativa de uniformizar; tentativa de aproximar um sistema a outro. Aparentemente são medidas de justiça.
O anterior primeiro-ministro e outros antes dele utilizaram o mesmo recurso: dividir para reinar, passando a mensagem que deste modo se acabará com as injustiças.
De qualquer forma, o primeiro-ministro limitou-se a fazer o mesmo de sempre: anunciar mais austeridade, isto não obstante os maus resultados até hoje obtidos; não obstante todos os casos de insucesso. Com efeito, já não há muito mais a dizer sobre uma política que tem destruído o país e nada mais.
O parceiro de coligação, Paulo Portas, critica as medidas que atingem os reformados e pensionistas e encontrou uma frase que contém em si a palavra "grisalho" para descrever políticas negras. Paulo Portas não se  pode dar ao luxo de desiludir ainda mais o seu eleitorado.
O que dizer de mais austeridade? Não mais do que aquilo que já se sabe: este Governo está empenhado em fragilizar todas as funções do Estado; este Governo está comprometido com o empobrecimento; este Governo está comprometido com o sector financeiro, as grandes empresas e com os interesses do núcleo duro de Bruxelas.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A receita

A receita de austeridade falhou. O Governo insiste na aplicação de medidas de austeridade em doses cada vez maiores. Desta feita, caminha-se para o maior corte jamais feito na despesa social, no sentido de corrigir os erros do Governo: os erros nas previsões; os erros subjacentes à inconstitucionalidade das medidas orçamentais; os erros resultantes de negociações bacocas e tristes com as instâncias internacionais.
A receita, todavia, serve os intentos de um Governo que pretende mudar a face do país, despindo-o de apoio social. O alvo é o Estado Social e esse, graças a uma crise que se agudiza, vai conhecendo o seu fim.
As medidas em concreto ainda não são conhecidas. Depois da comemoração do 25 de Abril e do 1º de Maio serão anunciadas. Cortes no Estado Social, mais desemprego, mais precariedade, mais miséria - o resultado de mais austeridade, em mais um exercício de sadismo que merece ser veementemente combatido.