terça-feira, 7 de maio de 2013

Eleições, a quanto obrigas

Paulo Portas conseguiu sair quase ileso dos efeitos do anúncio de sexta-feira de Pedro Passos Coelho.
É escusado recordar que na passada sexta-feira, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho voltou a anunciar medidas de austeridade, com especial impacto nos funcionários públicos e pensionistas.
Paulo Portas, parceiro de coligação, reagiu 48 horas depois. No domingo, Paulo Portas mostrou a sua perícia, conseguindo transformar um partido aparentemente demasiado comprometido com as políticas anunciadas por Passos Coelho, num partido que não esquece as pessoas e Paulo Portas é exímio em mostrar que não esquece as pessoas. No passado domingo, o líder do CDS fez aquilo que faz melhor. Mostrou ser um indefectível defensor dos pensionistas e reformados, manifestando o seu total desagrado com políticas que afectem este sector da sociedade.
A razão para esta defesa é, em larga medida, evidente. O CDS corre o risco de erosão e, em última instância, arrisca-se a desaparecer caso este segmento do eleitorado se afaste do partido.
As autárquicas estão à porta e não se pode excluir a possibilidade de novas eleições legislativas antes do tempo previsto. As eleições, as previstas e as imprevistas, obrigam o líder do CDS a afastar-se (embora ainda muito longe do que seria desejável) do PSD.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O que dizer de mais austeridade?

O primeiro-ministro voltou a brindar o país com mais medidas de austeridade, visando novamente funcionários públicos e pensionistas. Todo o discurso de Pedro Passos Coelho voltou a assentar na divisão. A ideia é invariavelmente a mesma: tentativa de aproximar público do privado; tentativa de uniformizar; tentativa de aproximar um sistema a outro. Aparentemente são medidas de justiça.
O anterior primeiro-ministro e outros antes dele utilizaram o mesmo recurso: dividir para reinar, passando a mensagem que deste modo se acabará com as injustiças.
De qualquer forma, o primeiro-ministro limitou-se a fazer o mesmo de sempre: anunciar mais austeridade, isto não obstante os maus resultados até hoje obtidos; não obstante todos os casos de insucesso. Com efeito, já não há muito mais a dizer sobre uma política que tem destruído o país e nada mais.
O parceiro de coligação, Paulo Portas, critica as medidas que atingem os reformados e pensionistas e encontrou uma frase que contém em si a palavra "grisalho" para descrever políticas negras. Paulo Portas não se  pode dar ao luxo de desiludir ainda mais o seu eleitorado.
O que dizer de mais austeridade? Não mais do que aquilo que já se sabe: este Governo está empenhado em fragilizar todas as funções do Estado; este Governo está comprometido com o empobrecimento; este Governo está comprometido com o sector financeiro, as grandes empresas e com os interesses do núcleo duro de Bruxelas.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A receita

A receita de austeridade falhou. O Governo insiste na aplicação de medidas de austeridade em doses cada vez maiores. Desta feita, caminha-se para o maior corte jamais feito na despesa social, no sentido de corrigir os erros do Governo: os erros nas previsões; os erros subjacentes à inconstitucionalidade das medidas orçamentais; os erros resultantes de negociações bacocas e tristes com as instâncias internacionais.
A receita, todavia, serve os intentos de um Governo que pretende mudar a face do país, despindo-o de apoio social. O alvo é o Estado Social e esse, graças a uma crise que se agudiza, vai conhecendo o seu fim.
As medidas em concreto ainda não são conhecidas. Depois da comemoração do 25 de Abril e do 1º de Maio serão anunciadas. Cortes no Estado Social, mais desemprego, mais precariedade, mais miséria - o resultado de mais austeridade, em mais um exercício de sadismo que merece ser veementemente combatido.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Islândia...

A Islândia, país que conheceu uma inaudita recuperação depois da bancarrota, exemplo para muitos que pugnam por um modelo diferente daquele que está em marcha no seio da União Europeia, conheceu agora, em tempo de eleições, uma reviravolta. Os partidos de direita, a mesma direita que criou as mesmas condições para que o país entrasse em bancarrota, voltaram ao poder.
O facto, quase bizarro, explica-se com o sentimento euro-céptico que desses partidos. De facto, esse euro-cepticismo - a recusa em entrar no clube da UE - explica a reviravolta islandesa.
Os partidos de esquerda acabaram por perder perto de metade dos seus deputados. A receita do FMI foi aplicada na Islândia, embora as negociações entre o então governo islandês e a o Fundo Monetário Internacional não sejam comparáveis àquilo que por aqui se viu.
Com efeito, o desemprego foi reduzido e o país saiu da recessão. Ficaram no entanto muitos agregados familiares fortemente endividados, o que poderá ajudar a explicar o regresso ao poder dos mesmos partidos que liberalizaram selvaticamente o sector financeiro islandês, originando a sua falência e a falência do país.
Todavia, terá sido o euro-cepticismo a explicar estes resultados - poucos serão aqueles que quererão entrar num barco a afundar.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A mão

Depois da mão invisível, surge agora, pela mão de José Sócrates, a mão que "sai detrás do arbusto", referindo-se à uma das mãos do Presidente Cavaco Silva.
Em bom rigor, o carácter insidioso do discurso de Cavaco Silva faz precisamente jus à analogia apresentada pelo ex-primeiro-ministro José Sócrates.
Acresce à analogia de Sócrates uma adjectivação que merece também comentário; José Sócrates acusa o Presidente da República de ser "manipulador".
Não considero que José Sócrates tenha um passado impoluto, muito pelo contrário, mas também não posso deixar de ver sentido nas palavras do ex-primeiro-ministro.
Com efeito, o Presidente da República mostrou no último discurso proferido por altura da comemoração do 25 de Abril que está longe de ser o Presidente de todos os Portugueses, mas antes o Presidente da maioria que governa o país. Um Presidente que adopta uma conduta longe de qualquer isenção não serve o país; serve apenas a maioria que governa o país.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Grécia

Era expectável escolher outro tema, designadamente o discurso do Presidente por ocasião do 39º aniversário do 25 de Abril. Porém, prefiro não comentar o que de facto não merece comentários. Paralelismo por paralelismo prefiro comentar o final da temporada da série Walking Dead, uma série repleta de seres que não estão nem vivos, nem propriamente mortos; paralelismo por paralelismo, prefiro comentar esses seres que caminham sobre a terra e que emitem sons característicos das bestas ao invés de outros seres que caminham igualmente sobre a terra, mas ao invés de sons próprios das bestas, optam por esporádicos discursos insidiosos.
Escolho a Grécia como tema de hoje, Grécia que volta a ser notícia por avançar com pedido de reparações de guerra à Alemanha.
Recorde-se que a Grécia tem-se mantido fora do centro das atenções da comunicação social. Depois de imagens de acentuada instabilidade social, depois de um período de instabilidade política, a Grécia deixou de estar no centro das atenções da comunicação social.
A Grécia representa o exemplo do maior falhanço das políticas económicas da Troika e, como tal, não interessa dar visibilidade a um caso de grosseiro insucesso. Irlanda e Portugal, por outro lado, com ou sem laivos de verdade, serão casos de sucesso. Serão forçosamente casos de sucesso.
A Grécia, longe dos holofotes da comunicação social, mostra temeridade num mundo onde grassa a cobardia e a pequenez. Exigirá reparações de guerra. Faça-se justiça.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

25 de Abril

Amanhã comemora-se mais um 25 de Abril. A cada ano que passa cresce a sensação de que as promessas de Abril ficaram por cumprir.
O retrocesso social imposto ao país, sobretudo nos últimos anos, traz à colação essas mesmas promessas. O pacto social resultante da revolução tem vindo a sofrer reveses, uns atrás dos outros.
É por demais evidente que o espírito de Abril não vive neste Governo; aliás o espírito do Governo é diametralmente oposto ao espírito de Abril.
Em vésperas do 25 de Abril, o Governo apresentou um programa de crescimento económico, adiando para mais tarde o anúncio concreto de medidas que permitam compensar o chumbo do Tribunal Constitucional, já para não esquecer do anúncio de medidas que permitam uma poupança de quatro mil milhões de euros.
Contudo, o fantasma de mais austeridade paira sobre o país e ensombra as comemorações de mais um 25 de Abril.
Para muitos o 25 de Abril ainda está por cumprir. Para Pedro Passos Coelho e para os seus acólitos, o 25 de Abril é um feriado que se espera que passe depressa, o mais indolor possível.