terça-feira, 30 de abril de 2013

Islândia...

A Islândia, país que conheceu uma inaudita recuperação depois da bancarrota, exemplo para muitos que pugnam por um modelo diferente daquele que está em marcha no seio da União Europeia, conheceu agora, em tempo de eleições, uma reviravolta. Os partidos de direita, a mesma direita que criou as mesmas condições para que o país entrasse em bancarrota, voltaram ao poder.
O facto, quase bizarro, explica-se com o sentimento euro-céptico que desses partidos. De facto, esse euro-cepticismo - a recusa em entrar no clube da UE - explica a reviravolta islandesa.
Os partidos de esquerda acabaram por perder perto de metade dos seus deputados. A receita do FMI foi aplicada na Islândia, embora as negociações entre o então governo islandês e a o Fundo Monetário Internacional não sejam comparáveis àquilo que por aqui se viu.
Com efeito, o desemprego foi reduzido e o país saiu da recessão. Ficaram no entanto muitos agregados familiares fortemente endividados, o que poderá ajudar a explicar o regresso ao poder dos mesmos partidos que liberalizaram selvaticamente o sector financeiro islandês, originando a sua falência e a falência do país.
Todavia, terá sido o euro-cepticismo a explicar estes resultados - poucos serão aqueles que quererão entrar num barco a afundar.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A mão

Depois da mão invisível, surge agora, pela mão de José Sócrates, a mão que "sai detrás do arbusto", referindo-se à uma das mãos do Presidente Cavaco Silva.
Em bom rigor, o carácter insidioso do discurso de Cavaco Silva faz precisamente jus à analogia apresentada pelo ex-primeiro-ministro José Sócrates.
Acresce à analogia de Sócrates uma adjectivação que merece também comentário; José Sócrates acusa o Presidente da República de ser "manipulador".
Não considero que José Sócrates tenha um passado impoluto, muito pelo contrário, mas também não posso deixar de ver sentido nas palavras do ex-primeiro-ministro.
Com efeito, o Presidente da República mostrou no último discurso proferido por altura da comemoração do 25 de Abril que está longe de ser o Presidente de todos os Portugueses, mas antes o Presidente da maioria que governa o país. Um Presidente que adopta uma conduta longe de qualquer isenção não serve o país; serve apenas a maioria que governa o país.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Grécia

Era expectável escolher outro tema, designadamente o discurso do Presidente por ocasião do 39º aniversário do 25 de Abril. Porém, prefiro não comentar o que de facto não merece comentários. Paralelismo por paralelismo prefiro comentar o final da temporada da série Walking Dead, uma série repleta de seres que não estão nem vivos, nem propriamente mortos; paralelismo por paralelismo, prefiro comentar esses seres que caminham sobre a terra e que emitem sons característicos das bestas ao invés de outros seres que caminham igualmente sobre a terra, mas ao invés de sons próprios das bestas, optam por esporádicos discursos insidiosos.
Escolho a Grécia como tema de hoje, Grécia que volta a ser notícia por avançar com pedido de reparações de guerra à Alemanha.
Recorde-se que a Grécia tem-se mantido fora do centro das atenções da comunicação social. Depois de imagens de acentuada instabilidade social, depois de um período de instabilidade política, a Grécia deixou de estar no centro das atenções da comunicação social.
A Grécia representa o exemplo do maior falhanço das políticas económicas da Troika e, como tal, não interessa dar visibilidade a um caso de grosseiro insucesso. Irlanda e Portugal, por outro lado, com ou sem laivos de verdade, serão casos de sucesso. Serão forçosamente casos de sucesso.
A Grécia, longe dos holofotes da comunicação social, mostra temeridade num mundo onde grassa a cobardia e a pequenez. Exigirá reparações de guerra. Faça-se justiça.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

25 de Abril

Amanhã comemora-se mais um 25 de Abril. A cada ano que passa cresce a sensação de que as promessas de Abril ficaram por cumprir.
O retrocesso social imposto ao país, sobretudo nos últimos anos, traz à colação essas mesmas promessas. O pacto social resultante da revolução tem vindo a sofrer reveses, uns atrás dos outros.
É por demais evidente que o espírito de Abril não vive neste Governo; aliás o espírito do Governo é diametralmente oposto ao espírito de Abril.
Em vésperas do 25 de Abril, o Governo apresentou um programa de crescimento económico, adiando para mais tarde o anúncio concreto de medidas que permitam compensar o chumbo do Tribunal Constitucional, já para não esquecer do anúncio de medidas que permitam uma poupança de quatro mil milhões de euros.
Contudo, o fantasma de mais austeridade paira sobre o país e ensombra as comemorações de mais um 25 de Abril.
Para muitos o 25 de Abril ainda está por cumprir. Para Pedro Passos Coelho e para os seus acólitos, o 25 de Abril é um feriado que se espera que passe depressa, o mais indolor possível.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O endeusamento dos mercados

O Estado há muito que se havia rendido às pretensas virtudes dos mercados, das aplicações financeiras, do financiamento de risco. Esse endeusamento do mercado não é um exclusivo do actual governo.
O Partido Comunista já tinha chamado a atenção para os perigos óbvios do financiamento de risco. Há anos que o faz. As consequências são desconhecidas. Até agora.
Sabe-se agora que o afastamento de dois secretários de Estado do actual Governo está relacionado com o financiamento de alto risco, designadamente através da utilização de swaps que deixaram novo buraco no metro do Porto. Sabe-se que esse tipo de financiamento não é um exclusivo do metro do Porto e que há um potencial perigo de surgirem novos buracos de dimensões abismais.
Este tipo de financiamento é recorrente nas empresas de transportes, porém importa saber se noutras áreas tuteladas pelo Estado são utilizadas formas de financiamento de risco, com a Segurança Social à cabeça.
O endeusamento dos mercados tem os seus custos, infelizmente estes recaem invariavelmente sobre os mesmos que terão de pagar o buraco do metro do Porto e todos os outros que se avizinham.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A triste realidade

A realidade pode ser triste, mas nem por isso deixa de ser realidade e como tal não merece ser ignorada. Contudo, o Governo vive alheio a essa realidade; vive alheio à realidade do país.
De resto, a Europa diz esfola e o Governo contrapõe com o "mata". Todas as negociações do Executivo de Passos Coelhos assentam nesta premissa. A realidade essa vai sendo ignorada.
Diz-se que as dificuldades que vivemos são consequência das políticas impostas pelos credores. Todavia, não podemos ignorar a importância das negociações e o facto de quem negoceia ser ou não capaz de analisar a realidade. Ora, este Governo negoceia procurando ir mais longe do que os credores, ignorando totalmente a realidade - essa parece ser uma variável que não entra na equação de Vítor Gaspar.
Numa negociação quem aparentemente se encontra numa posição mais fragilizada encontra, se tiver essa capacidade e se for esse o seu desejo, argumentos a seu favor - em última instância argumentos que advogam rupturas. Não é esta a posição do Governo.
Por outro lado, o silêncio - o silêncio de todos nós, intercalado por episódios raros em que se grita "basta", invalida qualquer solução. O silêncio. Terá sido sob a égide do silêncio que foram cometidas verdadeiras atrocidades ao longo da História. Por falar em História, não esquecer que esta é simplesmente esquecida por todos - pelo Governo, pela Europa.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Rumo ao desastre

Depois da reunião do Governo com o Partido Socialista, e depois de ser evidente que se tratava de uma mera encenação levada a cabo por Pedro Passos Coelho, o grau de isolamento do Governo também se torna cada vez mais acentuado.
A política de austeridade, deitada por terra depois de ser ter posto em causa o próprio fundamento económico que justificava as doses cavalares de um remédio fatal, leva os países ao desastre económico e social. Já todos perceberam isso, menos Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar e os seus acólitos.
Dir-se-á que não há alternativa, que há um memorando (o inicial? qual exactamente?) e que é necessário  ser-se responsável. Dir-se-á que temos de fazer tudo o que os nossos credores entenderem necessário.
Ora, toda esta argumentação cai por terra quando a realidade nos bate à porta; toda esta argumentação se torna falaciosa quando o Governo jura querer ir mais longe e, claro está, nada fará para negociar condições mais favoráveis.
Caminha-se rumo ao desastre. O Governo está cada vez mais isolado e, no entanto, consegue a proeza de levar mais de dez milhões para o abismo, com o claro beneplácito do Presidente da República.