O Governo de Passos Coelho
enfrenta nova moção de censura, desta feita pela mão do Partido
Socialista. Já vamos para a quarta moção de censura.
A moção de
censura afasta ainda mais o Governo do maior partido da oposição,
embora esse afastamento seja visto amiúde como sendo insuficiente.
A
dificuldade do Partido Socialista prende-se com a indefinição do seu
próprio ideário. O milagre de conjugar políticas não muito díspares
daquelas que têm sido levadas a cabo pelo actual Governo - sob os
auspícios da Troika - e o crescimento económico continua a fazer parte
do discurso do Partido Socialista.
Hoje já se critica com maior
veemência o acordo com a Troika, mas ainda assim as críticas continuam a
ser tímidas e as alternativas insuficientes.
Percebe-se a
dificuldade do Partido Socialista - quer distanciar-se dos partidos da
coligação que formam o Governo e, simultaneamente, não se quer aproximar
dos restantes partidos de esquerda com assento parlamentar - anda por
ali à procura de um meio-termo cada mais difícil de encontrar.
Hoje
o PS apresenta a sua moção de censura, uma forma de mostrar o seu
distanciamento em relação às políticas do Governo, mas como se afirmou
ao longo deste texto, esse distanciamento ainda é insuficiente. De
resto, o Partido Socialista faz parte integrante de um sistema político
que tem vindo a liderar os destinos do país; um sistema caracterizado
pela partidocracia, pela promiscuidade entre poder político e poder
económico, caracterizado pela corrupção, por uma mentalidade serôdia,
pela inépcia. Durante a liderança de António José Seguro, o PS não
mostrou afastar-se um milímetro desse tal sistema.
Para a construção de uma sociedade justa e equitativa é necessário que a política e que os políticos se centrem na consolidação de três elementos: o bem-estar social, a eficácia económica e a salvaguarda do Estado democrático. Todavia, poucos percebem este objectivo enquanto outros esquecem-no rapidamente.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
terça-feira, 2 de abril de 2013
Impostos
Um desempregado vai entregar uma
carta ao provedor onde afirma que vai deixar de pagar impostos,
invocando para tal o artigo 21 da Constituição da República Portuguesa -
direito à resistência.
Não é difícil perceber as dificuldades que este homem, pai de dois filhos, atravessa. O rendimento familiar de 600 euros reduz-se a 200, depois da renda de casa paga.
Por muito demagógico que a comparação possa ser, a verdade é que este cidadão, a par de tantos outros, não tem como fugir aos seus encargos fiscais - não podem colocar dinheiro em off-shores, não pode socorrer-se de outros Estados-membros da UE para evitar uma tributação elevada e não tem direito a isenções. Tem de pagar, é a lei. Por conseguinte, socorre-se do artigo 21 - direito à resistência.
A carga fiscal, depois de isenções (veja-se o Orçamento de Estado) e de outro género de subterfúgios, recai sobretudo em cima daquilo que foi outrora a classe média. Ora, a classe média, em consequência do elevado desemprego, da precariedade, dos cortes nos rendimentos, do aumento da electricidade e de outros serviços, não pode responder a tamanhas exigências. A resposta do Governo tem se traduzido num aumento da carga fiscal que recai, mais uma vez, sobre a classe média.
Portugal transforma-se de dia para dia na soma de demasiados dramas. Este homem decidiu resistir porque resistir faz parte da sobrevivência. Não posso deixar de o compreender.
Não é difícil perceber as dificuldades que este homem, pai de dois filhos, atravessa. O rendimento familiar de 600 euros reduz-se a 200, depois da renda de casa paga.
Por muito demagógico que a comparação possa ser, a verdade é que este cidadão, a par de tantos outros, não tem como fugir aos seus encargos fiscais - não podem colocar dinheiro em off-shores, não pode socorrer-se de outros Estados-membros da UE para evitar uma tributação elevada e não tem direito a isenções. Tem de pagar, é a lei. Por conseguinte, socorre-se do artigo 21 - direito à resistência.
A carga fiscal, depois de isenções (veja-se o Orçamento de Estado) e de outro género de subterfúgios, recai sobretudo em cima daquilo que foi outrora a classe média. Ora, a classe média, em consequência do elevado desemprego, da precariedade, dos cortes nos rendimentos, do aumento da electricidade e de outros serviços, não pode responder a tamanhas exigências. A resposta do Governo tem se traduzido num aumento da carga fiscal que recai, mais uma vez, sobre a classe média.
Portugal transforma-se de dia para dia na soma de demasiados dramas. Este homem decidiu resistir porque resistir faz parte da sobrevivência. Não posso deixar de o compreender.
quinta-feira, 28 de março de 2013
Demissão
A palavra aparece nos sonhos de muitos portugueses, invariavelmente
acompanhada por Pedro Passos Coelho e pelo seu séquito. O próprio
primeiro-ministro, numa clara tentativa de pressionar o Tribunal
Constitucional, já fez saber que pode ter de se demitir.
De forma mais directa e frontal, Passos Coelho relembrou ontem que todos temos as nossas responsabilidades, incluindo o Tribunal Constitucional. Podemos criticar muita coisa em Passos Coelho, mas a sua clarividência é sem qualquer dúvida singular.
De qualquer modo, o cenário de demissão do Governo, embora funcione como instrumento de pressão e que, de momento, não me pareça que passe disso mesmo, é colocado em cima da mesa. Por conseguinte, importa analisar o que poderá se seguir a essa mesma demissão, tão almejada por tantos.
A marcação de novas eleições seria a solução mais consonante com o sistema democrático, mas também é a solução que o Presidente da República, CDS e PSD querem evitar. Os próximos dias serão interessantes com o chumbo mais do que provável por parte do Tribunal Constitucional e aí veremos se o tal cenário de demissão se pode concretizar ou não passava de mais uma forma de exercer pressão sobre o Tribunal Constitucional.
De forma mais directa e frontal, Passos Coelho relembrou ontem que todos temos as nossas responsabilidades, incluindo o Tribunal Constitucional. Podemos criticar muita coisa em Passos Coelho, mas a sua clarividência é sem qualquer dúvida singular.
De qualquer modo, o cenário de demissão do Governo, embora funcione como instrumento de pressão e que, de momento, não me pareça que passe disso mesmo, é colocado em cima da mesa. Por conseguinte, importa analisar o que poderá se seguir a essa mesma demissão, tão almejada por tantos.
A marcação de novas eleições seria a solução mais consonante com o sistema democrático, mas também é a solução que o Presidente da República, CDS e PSD querem evitar. Os próximos dias serão interessantes com o chumbo mais do que provável por parte do Tribunal Constitucional e aí veremos se o tal cenário de demissão se pode concretizar ou não passava de mais uma forma de exercer pressão sobre o Tribunal Constitucional.
quarta-feira, 27 de março de 2013
O regresso
Hoje a RTP poderá seguramente contar com bons níveis de audiência.
Goste-se ou não, o ex-primeiro-ministro José Sócrates regressa, desta
vez ao comentário político.
Em bom rigor, não se trata do primeiro ex-governante a ocupar tempo de antena, mas seja como for, o seu regresso é talvez o mais polémico dos últimos tempos.
Quem acompanha o que por aqui se escreve, sabe que os anos de José Sócrates foram alvo de acentuadas críticas, mas vejo-me incapaz de criticar a presença do ex-primeiro-ministro num canal de televisão, mesmo sendo esse canal a RTP. José Sócrates tem direito a expressar as suas opiniões e se a direcção da RTP vê na sua presença uma mais-valia, melhor para eles.
O que me parece passível de ser criticado prende-se mais com a presença deste género de comentadores nos canais de televisão - todos eles figuras que passaram por cargos políticos de maior ou menor relevo. Com franqueza não vejo que essas mesmas figuras acrescentem seja o que for de interessante ao já triste panorama televisivo. José Sócrates é mais um que usa do espaço televisivo para fazer opinião desinteressante e enviesada.
Por outro lado, critico a presença avultada de comentadores pertencentes aos principais partidos políticos em detrimento de outros comentadores, ligados ou não a partidos políticos.
Em suma, o fraco sentido crítico dos principais órgãos de comunicação social, a multiplicidade de comentadores de pacotilha com opiniões que carregam em si mesmas o peso da inevitabilidade e que utilizam o espaço mediático para lavarem as suas próprias imagens são assinaláveis.
Em bom rigor, não se trata do primeiro ex-governante a ocupar tempo de antena, mas seja como for, o seu regresso é talvez o mais polémico dos últimos tempos.
Quem acompanha o que por aqui se escreve, sabe que os anos de José Sócrates foram alvo de acentuadas críticas, mas vejo-me incapaz de criticar a presença do ex-primeiro-ministro num canal de televisão, mesmo sendo esse canal a RTP. José Sócrates tem direito a expressar as suas opiniões e se a direcção da RTP vê na sua presença uma mais-valia, melhor para eles.
O que me parece passível de ser criticado prende-se mais com a presença deste género de comentadores nos canais de televisão - todos eles figuras que passaram por cargos políticos de maior ou menor relevo. Com franqueza não vejo que essas mesmas figuras acrescentem seja o que for de interessante ao já triste panorama televisivo. José Sócrates é mais um que usa do espaço televisivo para fazer opinião desinteressante e enviesada.
Por outro lado, critico a presença avultada de comentadores pertencentes aos principais partidos políticos em detrimento de outros comentadores, ligados ou não a partidos políticos.
Em suma, o fraco sentido crítico dos principais órgãos de comunicação social, a multiplicidade de comentadores de pacotilha com opiniões que carregam em si mesmas o peso da inevitabilidade e que utilizam o espaço mediático para lavarem as suas próprias imagens são assinaláveis.
terça-feira, 26 de março de 2013
Europa dos egoísmos
As medidas aplicadas no Chipre, Estado-membro da União Europeia e país
que abraçou a moeda única, é apenas mais um exemplo da prevalência do
egoísmo na Europa sobre tudo o resto. Para além das medidas que têm
claras implicações na forma como se olha para o sistema bancário, a
pressão que é exercida sobre este pequeno país ultrapassa todos os
limites do que é aceitável.
Outros países sofrem com os egoísmos europeus, como tão bem sabemos, e todos sofremos colectivamente com a destruição do projecto europeu, destruição essa que mais não é do que o resultado directo da prevalência desses mesmos egoísmos.
A moeda única é posta em causa. É uma constância. Diferentes graus de competitividade das economias, ausência de um orçamento comunitário relevante, Banco Central ao serviço exclusivo da banca, inexistência de um verdadeiro banco de investimento, assimetrias sociais cada vez mais aprofundadas caracterizam os países que partilham a mesma moeda.
Paralelamente, o desnorte das instituições europeias é completo. Ainda ontem o Presidente do Eurogrupo primeiro falou em modelos de resgate, deixando a ideia de que o caso cipriota poderia não ser único, depois recuou, afirmando exactamente o contrário.
A última vez que a Europa conheceu o egoísmo e a cegueira, o resultado foi desastroso. Ironicamente o projecto europeu visava precisamente combater esse egoísmo e essa cegueira.
Outros países sofrem com os egoísmos europeus, como tão bem sabemos, e todos sofremos colectivamente com a destruição do projecto europeu, destruição essa que mais não é do que o resultado directo da prevalência desses mesmos egoísmos.
A moeda única é posta em causa. É uma constância. Diferentes graus de competitividade das economias, ausência de um orçamento comunitário relevante, Banco Central ao serviço exclusivo da banca, inexistência de um verdadeiro banco de investimento, assimetrias sociais cada vez mais aprofundadas caracterizam os países que partilham a mesma moeda.
Paralelamente, o desnorte das instituições europeias é completo. Ainda ontem o Presidente do Eurogrupo primeiro falou em modelos de resgate, deixando a ideia de que o caso cipriota poderia não ser único, depois recuou, afirmando exactamente o contrário.
A última vez que a Europa conheceu o egoísmo e a cegueira, o resultado foi desastroso. Ironicamente o projecto europeu visava precisamente combater esse egoísmo e essa cegueira.
segunda-feira, 25 de março de 2013
Um mau princípio
A insistência na penalização de depósitos no caso cipriota é, por muitas
voltas que a troika dê, um mau princípio. Aparentemente chegou-se a um
acordo no sentido de proteger os pequenos depositantes (abaixo dos cem
mil euros). Chegou-se também a acordo com vista ao desmantelamento do
segundo maior banco cipriota. E com isto se evita a bancarrota do
pequeno país. Pelo menos é nestes termos que se tem colocado o problema.
Todavia, a ideia de se penalizar depósitos é um mau princípio que este acordo não elimina, muito pelo contrário. Dito por outras palavras, a confiança do sistema bancário - ideia tão cara à UE - continua a ser posta em causa.
Entre ameaças de bancarrota e até de saída do euro, "o futuro próximo dos Cipriotas será muito difícil" - palavras do inefável Olli Rehn, comissário europeu responsável pelos assuntos económicos e financeiros.
Todavia, a ideia de se penalizar depósitos é um mau princípio que este acordo não elimina, muito pelo contrário. Dito por outras palavras, a confiança do sistema bancário - ideia tão cara à UE - continua a ser posta em causa.
Entre ameaças de bancarrota e até de saída do euro, "o futuro próximo dos Cipriotas será muito difícil" - palavras do inefável Olli Rehn, comissário europeu responsável pelos assuntos económicos e financeiros.
sexta-feira, 22 de março de 2013
Crise política
Alguns órgãos de comunicação social tem noticiado a forte possibilidade
de duas medidas orçamentais não passarem no crivo do Tribunal
Constitucional. No mesmo dia, o Partido Socialista afirma ter a intenção
de apresentar uma moção de censura ao Governo, com base na situação de
pré-ruptura social.
Os comentadores do costume fazem críticas mais ou menos veladas ao Governo; os economistas do costume (os mesmos que competem com os comentadores do costume por tempo de antena ou por espaço em jornais) ou desapareceram ou fingem não ter defendido as mesmas políticas do Governo.
Uma boa parte dos cidadãos mostra-se descontente com o rumo que o país tem levado.
Ao Governo resta o isolamento.
Com a aproximação das eleições autárquicas e com os problemas daí resultantes para os partidos da coligação, o cerco aperta-se para o Governo.
Passos Coelho mostra ter intenção de cumprir a legislatura, infelizmente para ele esse desejo parece um exclusivo seu, talvez partilhado, na melhor das hipóteses, com Miguel Relvas e com Vítor Gaspar.
Os comentadores do costume fazem críticas mais ou menos veladas ao Governo; os economistas do costume (os mesmos que competem com os comentadores do costume por tempo de antena ou por espaço em jornais) ou desapareceram ou fingem não ter defendido as mesmas políticas do Governo.
Uma boa parte dos cidadãos mostra-se descontente com o rumo que o país tem levado.
Ao Governo resta o isolamento.
Com a aproximação das eleições autárquicas e com os problemas daí resultantes para os partidos da coligação, o cerco aperta-se para o Governo.
Passos Coelho mostra ter intenção de cumprir a legislatura, infelizmente para ele esse desejo parece um exclusivo seu, talvez partilhado, na melhor das hipóteses, com Miguel Relvas e com Vítor Gaspar.
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