segunda-feira, 4 de março de 2013

Ainda o 2 de Março

As notícias sobre a manifestação que teve lugar em quarenta cidades, em Portugal e no estrangeiro, acabou resumida à guerra dos números - uma boa parte da comunicação social colocou em causa os números avançados pela organização.
A guerra dos números - se esta foi ou não uma manifestação que juntou mais de um milhão de pessoas nas ruas - acaba por ser uma questão de somenos se a compararmos com as razões que levaram tanta gente a mostrar o seu descontentamento nas ruas.
A discussão sobre o dia 2 de Março deve incidir sobretudo sobre essas razões e sobre a incapacidade do Governo de retirar as devidas ilações. Para o Executivo de Passos Coelho o dia 2 não merece mais do que um comentário de circunstância (ainda por fazer). Na verdade, não há aqui qualquer surpresa - trata-se afinal do mesmo conjunto de pessoas que, além de tudo, têm demonstrado uma insensibilidade social absolutamente ignóbil.
Quanto às razões que levaram tantos a saírem às ruas no passado sábado, estas são sobejamente conhecidas: desemprego, cortes salariais e nas reformas, aniquilação do Estado Social, cerceamento de quaisquer perspectivas de futuro. Quem saiu à rua no dia 2 de Março, na sua maioria, pede uma mudança de rumo que, sejamos realistas, só será possível com outro Governo.

sexta-feira, 1 de março de 2013

2 de Março

O dia que antecede a manifestação a ter lugar em várias cidades portuguesas e noutras estrangeiras é também marcado pelo anúncio da taxa de desemprego de Janeiro de 17,6%, uma subida 0,3 pontos percentuais em relação ao mês anterior. O anúncio foi feito pelo Eurostat. Estes números estão longe de mostrar uma realidade dramática que ainda assim pouco parece incomodar Passos Coelho e o seu séquito.
Amanhã esse número incomensurável de desempregados tem uma oportunidade de mostrar o seu descontentamento. A eles juntam-se trabalhadores que têm assistido a uma significativa desvalorização dos seus salários e pensionistas fortemente penalizados com cortes nas pensões. A estes juntam-se estudantes que energicamente começam a mostrar o seu descontentamento.
A manifestação de amanhã destaca-se das restantes por ser a que mais causa incómodo ao Governo, mesmo antes de a mesma se realizar. Pedro Passos Coelho vai procurando manter as aparências que transmitem uma imagem de tranquilidade.
Todavia, o facto é que o mesmo Pedro Passos Coelho não diz onde vai afinal cortar os quatro mil milhões de euros. Provavelmente só o dirá depois da manifestação, a tal que não lhe causa qualquer incómodo, visto se tratar de uma expressão legítima do povo. É assim em democracia, dirá o primeiro-ministro. Vamos ver o que os cidadãos têm para dizer no dia de amanhã. Quase que adivinhamos. 

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Protestos II

Continuam os protestos contra membros do Governo, ainda antes da manifestação de 2 de Março. Desta feita foi o primeiro-ministro a ser recebido com protestos de alunos na Faculdade de Direito. A conferência, com o objectivo de discutir a reforma do Estado, foi organizada pela JSD.
Todavia, nem os organizadores conseguiram conter mais um protesto contra o Executivo de Passos Coelho. De resto, o professor Marcelo, apesar de ontem não ter sido domingo, deixou a ideia de que o protesto acabou por não ser maior precisamente por se tratar de uma conferência organizada pela JSD, num auditório estrategicamente preenchido por quem ainda apoia este Governo.
Estas últimas semanas mostram claramente que os membros do Governo não têm a capacidade de sair dos gabinetes sem que se deparem com protestos. Ora, resta muito pouco a um Governo que já não pode sair à rua. Noutros contextos, o primeiro-ministro já se teria demitido.
Dir-se-á que se trata de um número ainda reduzido de pessoas; aliás, o próprio Passos Coelho já emitiu opinião sobre o assunto, deixando a sua convicção de que estas manifestações de descontentamento não são representativas do sentimento do povo português. Vamos ver que opinião terá Passos do dia 2 de Março.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Stéphane Hessel

Stéphane Hessel, autor de Indignai-vos - uma verdadeira inspiração - faleceu na noite de terça-feira. Stéphane Hessel foi durante largas décadas uma voz activa que sempre se levantou contra as injustiças. O seu livro Indignai-vos serviu de inspiração a todos aqueles que vêem nos dias de hoje o crescendo dessas injustiças.
Stéphane Hessel desapareceu, mas deixa um legado importante. O seu pensamento e a sua voz activa inspiraram milhões. Um homem que sentiu na pele a desumanidade dos campos de concentração, sempre pensou no colectivo, vivendo para combater as injustiças.
No fundo Stéphane Hessel sempre foi um homem que acreditou no seu semelhante, uma qualidade rara, e com base nessa crença, o também diplomata contribuiu para que este mundo fosse um sítio um pouco mais agradável. Ontem desapareceu um homem singular e connosco fica o seu pensamento e o seu empenho que jamais esmoreceu.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Eleições em Itália

O resultado das eleições legislativas em Itália veio causar novo sobressalto nas hostes europeias e nos sacrossantos mercados. Das eleições resultou uma indefinição, não se podendo falar num "vencedor claro". A possibilidade de novas eleições é mais do que provável.
Todos se preocupam com a instabilidade política, a começar pelos mercados e por quem defende os seus interesses. Esses, antes de qualquer instabilidade política, temem desde logo a democracia.
E por falar em democracia, Mário Monti, o eleito pelos mercados, sofreu uma derrota que contribui para a tal sensação de instabilidade política - pelo menos na perspectiva dos mercados. Ao que tudo indica, o preferido dos mercados não foi o preferido dos Italianos.
Com efeito, estas eleições estão longe de oferecer aos Italianos uma solução. Porém, há um sinal positivo: estas eleições mostraram que os cidadãos não estão sentem particularmente interessados em subscrever as escolhas das instituições europeias alicerçadas nas escolhas dos mercados.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Sétima avaliação

Começa hoje a sétima avaliação da troika, por muitos considerada a mais importante. Os temas mais quentes prendem-se com os famigerados cortes na ordem dos quatro mil milhões de euros e a possibilidade de adiamento do cumprimento das metas. Há quem se convença que desta avaliação também poderá sair um reforço do investimento.
Esta sétima avaliação ocorre no momento em que o Governo mostrou ter falhado todas as previsões. A ver vamos como é que Vítor Gaspar compensará esses graves erros de avaliação que impedem o cumprimento das metas.
A sétima avaliação chega também na semana em que se prepara uma manifestação que poderá surpreender. É impossível prever a dimensão do evento marcado para dia 2 de Março, mas acredita-se que terá uma dimensão muito significativa.
Importa relembrar que os partidos da oposição passarem uma boa parte do seu tempo a sublinhar a necessidade de uma mudança de estratégia, também em relação ao tempo concedido para cumprir as metas, o Governo sempre recusou essa necessidade. As doses cavalares de austeridade resolveriam os problemas. Errado. Mais uma vez, errado.
Agora, mais uma vez, encolhidos e submissos, os senhores do Governo vão pedir mais tempo, mais investimento, mais qualquer coisa, a troco - espante-se! - de mais austeridade, com particular incidência na Administração Pública. Porém "renegociar" é palavra proibida.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Os desafios do PS


Miguel Relvas está convencido que o Governo de Passos Coelho está para durar - até 2015. Eu não teria tantas certezas, embora reconheça a probabilidade incrivelmente diminuta do Governo cair. Até lá os partidos da oposição têm de agir em conformidade, fazendo uma oposição com ideias e alternativas. Hoje discutiremos o PS que deixa muito a desejar no que diz respeito a ideias e alternativas.
E para piorar, Francisco Assis entusiasma-se com a ideia do partido a que pertence - no rescaldo de umas próximas eleições e sem garantir uma maioria absoluta - se juntar à direita, referindo-se ao CDS como um parceiro mais natural do que o Bloco de Esquerda ou o PCP.
O PS de António José Seguro passa grande parte do seu tempo a titubear, sendo essa a sua actividade predilecta. Ideias e alternativas escasseiam. A excepção terá sido a carta enviada pelo secretário-geral do partido, alertando a Troika para os riscos por demais evidentes de rupturas.
O PS ideologicamente quer estar longe do PSD (o próprio parceiro de coligação, o CDS, almeja pela distância do PSD) mas mostra-se incapaz de demonstrar que esse distanciamento é suficiente. Quanto aos partidos mais à esquerda, a divergência é óbvia: esses partidos encontram soluções fora do que é proposto pela  Troika e o PS encontra hipotéticas soluções dentro do espaço da Troika.
Até às eleições, sejam elas ainda este ano, em 2014, ou, no pior dos cenários, em 2015, o facto é que o PS vai continuar a titubear perante os enormes desafios que tem pela frente: apresentar um rumo diferente daquele que tem sido seguido e que tem levado o país à ruína. Até lá, o Partido Socialista manter-se-á infiel aos seus princípios, preferindo o deslumbramento, embora menor do que aquilo que se verifica nos partidos da coligação que forma o Governo, por ideias pouco consonantes com os ideais que são a sua matriz.