terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Protestos


Os membros do Governo mostram dificuldades crescentes em fazer aparições públicas. O primeiro-ministro já perdeu a conta das vezes em que se deparou com um protesto. O ministro Relvas tem tido dias recheados de manifestações de desagrado, mas a que se verificou ontem num debate em Gaia permite-nos tirar uma miríade de ilações.
A primeira prende-se com os dotes musicais de Miguel Relvas. Já sabíamos muito sobre este ministro, mas desconhecíamos por completo a sua total incapacidade de cantar. Miguel Relvas canta manifestamente mal. Espera-se, no futuro, que o ministro não repita a experiência.
A segunda ilação a retirar do pequeno protesto de ontem - pequeno, mas que causou mais do que simples incómodos - é que muita gente anda com os nervos à flor da pele, a começar no moderador do debate.
Uma terceira ilação está intimamente relacionada com o descontentamento que se apoderou dos cidadãos. Já não há vontade para debates ou trocas de ideias. Muitos querem simplesmente a saída deste governo. As razões para este descontentamento são mais do que compreensíveis, embora se possa discutir as formas de protesto.
De qualquer modo, estão reunidas as condições para que no próximo dia 2 de Março, proezas de um passado recente se possam repetir.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Seguro escreve à Troika

É tempo de dizer basta, assegura o líder do maior partido da oposição numa carta dirigida à Troika. António José Seguro fala em "tragédia social". O significado político da carta é forte, o que não quer dizer que o seja do ponto de vista prático. O PS, agarrado ao memorando enquanto foi Governo e depois de o ser, procura assim distanciar-se das políticas do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia, do Fundo Monetário Internacional e do Governo de Passos Coelho.
Não se trata de uma ruptura, nem é essa a intenção de Seguro. Procura-se, isso sim, um distanciamento de políticas que estão, indubitavelmente, a destruir o país. A posição do líder do PS tem sido inconstante - ora está dentro ora esta fora (ou quer parecer que está fora) das receitas prescritas pela Troika e executadas com deleite pelo Governo.
A carta de Seguro tem como objectivo ajudar a clarificar a posição do PS. Por um lado mostra-se insatisfeito com a austeridade em doses cavalares, mas mostra-se igualmente incapaz de dar um murro na mesa. Escrever "basta" não chegará.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Fome

Com a miséria vem a fome. Portugal, para além de ter entrado numa espiral recessiva, entrou numa espiral de miséria. O primeiro-ministro, sorrindo perante versos de Zeca Afonso, conserva, perante esta e outras realidades, uma insensibilidade social gritante. O primeiro-ministro e o seu séquito mantêm-se irredutíveis nas políticas de empobrecimento. Não há equívocos - o país é para empobrecer, a miséria instala-se e com ela a fome.
Na semana passada vimos imagens de gente faminta num país que abriu as hostilidades em matéria de austeridade. Por aqui, quem dirige o país, prefere outros exemplos, designadamente o da Irlanda, embora seja difícil encontrar paralelos entre as duas situações.
Por aqui, quem nos governa, ignora o facto de haver quem passe fome, uma fome que só não é maior devido a instituições que conseguem atenuar o problema e à solidariedade familiar. A fome é o resultado directo das políticas deste governo, em nome de uma dívida que ninguém conhece em detalhe; em nome de uma consolidação orçamental a todo o custo; em nome de uma ideologia que tomou conta de Portugal e de boa parte da Europa.
A fome foi chegando, sorrateiramente. A fome foi fazendo o seu caminho, até se apoderar da alma. No fim sobra um corpo faminto e uma alma vazia. Amanhã e dia 2 de Março são bons dias para dizer "basta!".

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Desemprego

Os números divulgados ontem dão conta de uma situação insustentável para milhares de famílias e de cidadãos. Os 16,9 por cento de taxa de desemprego estão ainda assim longe de mostrar toda a realidade. De qualquer modo, é quase um milhão de pessoas que se encontra sem emprego, sendo que a maior parte já não conta com o subsídio de desemprego.
Ora, a situação torna-se mais gravosa quando o mercado de trabalho está revestido de uma exiguidade sem precedentes. Quem cai numa situação de desemprego dificilmente voltará a sair da mesma, no breve e no médio prazo. Por outro lado, quem é desempregado de longa duração sabe que o tempo conta a seu desfavor, inviabilizando o regresso ao mercado de trabalho - ou ao que resta dele.
O primeiro-ministro reagiu sem surpresa aos números do desemprego, referindo que esses números encontram-se na margem prevista pelo Governo. Ainda se espera uma aumento do número de desempregados. Não se esperaria outra coisa do primeiro-ministro.
O desemprego é consequência directa do enfraquecimento da economia resultado das políticas tão ferozmente seguidas pelo Executivo de Passos Coelho. A destruição da economia, em nome do défice, tem custos, esses custos consubstanciam-se nos rostos de quase um milhão de desempregados. Espera-se que esses desempregados não se esqueçam do próximo dia 2 de Março, sendo certo que já não há nada a perder.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Esperança, a última a morrer

Diz-se que a esperança é a última a morrer. Infelizmente, em Portugal, muitos já lhe fizeram o funeral. As crises que se sucederam durante mais de uma década e esta crise cuja génese já todos esqueceram foram decisivas para esse funeral.
Não se sabe muito bem o que resta a um povo desprovido de esperança.
O Governo não vê como sua função o reestabelecimento da esperança. A sua acção assenta em três frentes: desvalorização salarial, venda de sectores estratégicos do país e consequente abertura da economia portuguesa e desmantelamento do Estado Social - tudo em nome de uma dívida cujos contornos permanecem opacos. A verdade vai muito além da dívida, desaguando nos desígnios ideológicos que todos conhecemos.
Tudo o resto é desencorajador: os números (irreais, ainda assim) do desemprego, a precariedade galopante, a inexistência de vida na própria economia, em suma, o retrocesso social.
Uns parece que conseguem suportar uma vida desprovida de esperança, vivendo um dia de cada vez, pelo menos por enquanto; outros procuraram recuperar essa esperança noutras paragens; outros ainda não cessam de lutar para que a esperança seja de facto a última a morrer. Para esses - e para os outros, espera-se - o dia 2 de Março que se aproxima é mais um dia de luta - uma luta sobretudo pelo futuro.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Discurso político

Há quem acuse o Governo de falhar no que diz respeito ao discurso político, sobretudo no que toca à discussão sobre a "reforma" ou "refundação" do Estado - designadamente do Estado Social.
O domingo costuma ser pródigo em declarações sobre uma multiplicidade de assuntos. A refundação do Estado não podia ter ficado de fora das análises habituais.
Ora, crítica-se a incapacidade do Governo de explicar aos cidadãos as medidas que se avizinham, apontam-se falhas no discurso político mas reforça-se a ideia de inevitabilidade que recai também sobre a refundação do Estado. Ou seja, o essencial não é passível de ser criticado, o problema está antes na forma como se explica o que é alegadamente inevitável. Não se discute a substância, fica-se apenas pela forma.
Quanto à tibieza do discurso político, este resulta de duas situações: a primeira passa pelo facto de o Governo, envolto na sua arrogância, não ver a necessidade de encetar uma discussão séria sobre o assunto; a segunda situação prende-se com a própria incapacidade do Governo, nesta como noutras matérias. Com efeito, não há muito a dizer sobre a inépcia do Governo.
Assim, não se percebe tanta razão para espanto. Discuta-se a substâncias intrínsecas às políticas que vão destruir o Estado Social, ao invés de se lamentar as capacidades de comunicação do Governo. Essa discussão pode, apesar de tudo, ficar para depois.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A fotografia do desespero

A fotografia corre o mundo, em particular através das redes sociais. Centenas de Gregos, em desespero, a procura de comida. Agricultores que numa acção de protesto distribuíram vegetais, razão suficiente para centenas de Gregos se dirigirem aos camiões em busca de comida. Como de resto é sobejamente afirmado, uma imagem vale mais do que mil palavras - http://www.publico.pt/mundo/noticia/o-desespero-por-comida-na-grecia-fixado-numa-fotografia-1583713#/0.
A fotografia foi tirada num país europeu, num Estado-membro da União Europeia cuja miséria já se confunde com aquele que tem marcado países fora da esfera europeia. A fome instalou-se na Grécia e começa a fazer o seu caminho noutros países europeus, subitamente assolados por uma crise que começou por ser financeira e passou rapidamente a ser designada por crise das dívidas soberanas. Nenhuma daquelas pessoas pode ser responsabilizada por esta crise.
Na verdade, as fotografias que espelham este desespero não podem deixar ninguém indiferente. Infelizmente, é a indiferença a marcar as instituições europeias e muitos Estados-membros.Paralelamente impõe-se a aplicação das políticas mais contraproducentes e draconianas que se possa imaginar.
A fotografia que expõe ao mundo este desespero será sempre escamoteada por tentativas de responsabilização dos Gregos por todo o mal que se abateu sobre o seu país. Há uma multiplicidade de argumentos e de factos já por aqui explanados que permitem refutar essa ideia tantas vezes explorada.
No cômputo geral, a questão que se impõe é a seguinte: o que é que aconteceu ao projecto europeu que visava, entre outras coisas, combater as assimetrias sociais entre os diferentes Estados-membros para que a paz fosse uma realidade? Como é que a Europa, no alto da sua altivez e ignorância, olha para a preponderância de partidos como a Aurora Dourada no cenário político grego? São estes partidos que fazem o seu caminho lado a lado com o desespero de um povo.