segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Discurso político

Há quem acuse o Governo de falhar no que diz respeito ao discurso político, sobretudo no que toca à discussão sobre a "reforma" ou "refundação" do Estado - designadamente do Estado Social.
O domingo costuma ser pródigo em declarações sobre uma multiplicidade de assuntos. A refundação do Estado não podia ter ficado de fora das análises habituais.
Ora, crítica-se a incapacidade do Governo de explicar aos cidadãos as medidas que se avizinham, apontam-se falhas no discurso político mas reforça-se a ideia de inevitabilidade que recai também sobre a refundação do Estado. Ou seja, o essencial não é passível de ser criticado, o problema está antes na forma como se explica o que é alegadamente inevitável. Não se discute a substância, fica-se apenas pela forma.
Quanto à tibieza do discurso político, este resulta de duas situações: a primeira passa pelo facto de o Governo, envolto na sua arrogância, não ver a necessidade de encetar uma discussão séria sobre o assunto; a segunda situação prende-se com a própria incapacidade do Governo, nesta como noutras matérias. Com efeito, não há muito a dizer sobre a inépcia do Governo.
Assim, não se percebe tanta razão para espanto. Discuta-se a substâncias intrínsecas às políticas que vão destruir o Estado Social, ao invés de se lamentar as capacidades de comunicação do Governo. Essa discussão pode, apesar de tudo, ficar para depois.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A fotografia do desespero

A fotografia corre o mundo, em particular através das redes sociais. Centenas de Gregos, em desespero, a procura de comida. Agricultores que numa acção de protesto distribuíram vegetais, razão suficiente para centenas de Gregos se dirigirem aos camiões em busca de comida. Como de resto é sobejamente afirmado, uma imagem vale mais do que mil palavras - http://www.publico.pt/mundo/noticia/o-desespero-por-comida-na-grecia-fixado-numa-fotografia-1583713#/0.
A fotografia foi tirada num país europeu, num Estado-membro da União Europeia cuja miséria já se confunde com aquele que tem marcado países fora da esfera europeia. A fome instalou-se na Grécia e começa a fazer o seu caminho noutros países europeus, subitamente assolados por uma crise que começou por ser financeira e passou rapidamente a ser designada por crise das dívidas soberanas. Nenhuma daquelas pessoas pode ser responsabilizada por esta crise.
Na verdade, as fotografias que espelham este desespero não podem deixar ninguém indiferente. Infelizmente, é a indiferença a marcar as instituições europeias e muitos Estados-membros.Paralelamente impõe-se a aplicação das políticas mais contraproducentes e draconianas que se possa imaginar.
A fotografia que expõe ao mundo este desespero será sempre escamoteada por tentativas de responsabilização dos Gregos por todo o mal que se abateu sobre o seu país. Há uma multiplicidade de argumentos e de factos já por aqui explanados que permitem refutar essa ideia tantas vezes explorada.
No cômputo geral, a questão que se impõe é a seguinte: o que é que aconteceu ao projecto europeu que visava, entre outras coisas, combater as assimetrias sociais entre os diferentes Estados-membros para que a paz fosse uma realidade? Como é que a Europa, no alto da sua altivez e ignorância, olha para a preponderância de partidos como a Aurora Dourada no cenário político grego? São estes partidos que fazem o seu caminho lado a lado com o desespero de um povo.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Transparência

Transparência. Alguns desconhecem o seu significado, outros desvalorizam-na. O certo é que a transparência não abunda por estas terras. O caso da nomeação de Franquelim Alves para o cargo de secretário de Estado, depois de uma passagem pouco recomendável pelo BPN é mais uma caso em que se verifica o menosprezo pela transparência, a começar desde logo pelo curriculum da pessoa em causa e das ocultações verificadas.
O ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, procurou defender a força da sua nomeação. Referiu a existência de uma carta - assinada pelo agora secretário de Estado - que dava conta das irregularidades verificadas no BPN. Ora, vários deputados da oposição acusaram o ministro precisamente de ocultar a verdade. No meio de tanta opacidade, esses mesmos deputados referem que a carta não está assinada pelo recém empossado secretário de Estado e que a mesma contradiz declarações de Franquelim Alves.
Não se trata de um caso único ensombrado pela opacidade. A história política do país, em particular nos últimos anos, tem sido marcada por casos atrás de casos em que se verifica, invariavelmente, um desprezo pela transparência. E no caso deste Governo verifica-se o tal desprezo pela transparência, indissociável da consolidação da própria democracia, a par de uma acentuada desconsideração pelos cidadãos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Não há lugar a desculpas

Fernando Ulrich proferiu afirmações polémicas, embora o próprio manifeste dificuldades em ver a razão dessa mesma polémica. Perante as questões de vários deputados, algumas acusações e a exigência de um pedido de desculpas, Fernando Ulrich mais não fez do que reforçar aquilo que já tinha afirmado, recusando receber lições "de sensibilidade social", até porque já as recebeu por parte da família, da escola e da Igreja Católica.
Assim, para além do Presidente Executivo do BPI recusar qualquer pedido de desculpas, ainda reforça as suas iluminadas ideias sobre os sem abrigo.
Ulrich não tem de pedir desculpas, de resto, nem se esperaria outra coisa. Ulrich não percebe a razão de tanta polémica. Ulrich personifica muito do que está errado com este país.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Duodécimos

Segundo o jornal Público, o pagamento dos subsídios em duodécimos está a provocar resistência nos privados. A razão é simples: a maior parte dos trabalhadores prefere manter os subsídios na totalidade - muitos não querem perder esse direito (o direito de receber, na totalidade, os subsídios de férias e de Natal).
O Governo encontrou desde modo um meio de atenuar o "enorme" aumento de impostos. É um logro que nada está relacionado com uma qualquer atenuação da carga fiscal, para bem dos cidadãos, mas trata-se antes de uma forma de escamotear a verdade, inviabilizando assim uma maior resistência por parte de trabalhadores, reformados e pensionistas.
Ainda assim, verifica-se que uma boa parte daqueles que podem escolher preferem o subsidio na totalidade, pese embora o decréscimo verificado no seu rendimento mensal.
Depois da aprovação do Orçamento de Estado que contempla este "enorme" aumento de impostos; depois da trapalhada em torno da aplicação da medida que previa o pagamento dos subsídios em duodécimos, verifica-se que há "resistência" à medida aprovada pela maioria com o beneplácito da UGT. Espera-se, num futuro próximo, o surgimento de novas formas de resistência.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Nomeação polémica

Nem o oráculo de domingo deixou passar a mais recente nomeação do Governo, indissociável do famigerado e oneroso caso BPN. Marcelo Rebelo de Sousa crítica a escolha de Passos Coelho, afirmando que o primeiro-ministro fez mal em escolher Franquelim Alves, antigo Administrador do Grupo SLN, e que devia ter escolhido alguém que "não levantasse o fantasma do BPN".
As vozes críticas são transversais a todos os partidos políticos. Até no CDS - parceiro de coligação - há dificuldades em esconder o desconforto desta nomeação.
Passos Coelho e o ministro da Economia mostram-se pouco interessados nas críticas, até porque o à-vontade destes senhores parece ilimitado.
O caso BPN, para além de ser um caso de justiça, onerou de forma inaudita o bolso dos Portugueses, contribuindo para o desequilíbrio das contas públicas. No caso BPN percebeu-se quais as prioridades de quem nos governa e as ramificações que o BPN tem a alguns partidos políticos, designadamente ao PSD.
Qualquer político procuraria distanciar-se de tudo o que está relacionado com o escândalo do BPN. Pedro Passos Coelho e os seus acólitos parece serem, desse ponto de vista, diferentes. Talvez seja o tal à-vontade a criar a percepção que Passos Coelho e os seu séquito tudo podem. Estão enganados e a realidade que ele tanto abominam encarregar-se-á de mostrar que estão, de facto, errados

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O domínio do sistema financeiro

A importância da banca para o sistema capitalista não é de agora. Todavia, aquilo que agora é designado por sector financeiro, foi coadjuvado pelos rápidos desenvolvimentos tecnológicos, conferindo-lhe reforçada importância e transformando-o num elemento central do próprio processo de globalização.
O passo seguinte para o domínio financeiro passava pela subserviência do poder político. Esse é hoje um facto absolutamente consumado. A crise que, de financeira passou a ser das dívidas soberanas, é sintomática do completo domínio financeiro em consequência da subserviência do poder político.
De facto, os políticos, face ao sistema financeiro, comportam-se como aqueles pais que têm dificuldades com os filhos. Alguns políticos reconhecem o mal que os filhos fazem, mas não agem em consequência; outros agem como se os filhos fossem absolutamente perfeitos, não havendo sequer lugar a qualquer correcção. Tanto num caso como noutro, não existem consequências, sendo a permissividade um elemento transversal ao poder político.
Contudo, existem consequências dessa subserviência e permissividade. A democracia continuará a ser uma das maiores vítimas do domínio do sistema financeiro, desde logo porque os povos deixam de ser soberanos, na precisa medida em que os seus pretensos representantes acabam por trabalhar em prol do dito sistema financeiro tantas vezes contra o povo que o elegeu.