sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O domínio do sistema financeiro

A importância da banca para o sistema capitalista não é de agora. Todavia, aquilo que agora é designado por sector financeiro, foi coadjuvado pelos rápidos desenvolvimentos tecnológicos, conferindo-lhe reforçada importância e transformando-o num elemento central do próprio processo de globalização.
O passo seguinte para o domínio financeiro passava pela subserviência do poder político. Esse é hoje um facto absolutamente consumado. A crise que, de financeira passou a ser das dívidas soberanas, é sintomática do completo domínio financeiro em consequência da subserviência do poder político.
De facto, os políticos, face ao sistema financeiro, comportam-se como aqueles pais que têm dificuldades com os filhos. Alguns políticos reconhecem o mal que os filhos fazem, mas não agem em consequência; outros agem como se os filhos fossem absolutamente perfeitos, não havendo sequer lugar a qualquer correcção. Tanto num caso como noutro, não existem consequências, sendo a permissividade um elemento transversal ao poder político.
Contudo, existem consequências dessa subserviência e permissividade. A democracia continuará a ser uma das maiores vítimas do domínio do sistema financeiro, desde logo porque os povos deixam de ser soberanos, na precisa medida em que os seus pretensos representantes acabam por trabalhar em prol do dito sistema financeiro tantas vezes contra o povo que o elegeu.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Ainda sobre a reforma do Estado


Pedro Passos Coelho nunca escondeu a vontade de encetar uma reforma no Estado, designadamente no Estado Social. Nas últimas semanas um relatório do FMI que incide sobre cortes na despesa e que solicita, em concreto, o corte de quatro mil milhões de euros veio, convenientemente, reforçar esse almejo de Passos Coelho e do seu Governo.
Ora, uma reforma do Estado não é forçosamente negativa. Sabemos que se a mesma incidir sobre o clientelismo que grassa pela Administração Pública e que se cruza com partidos políticos e interesses económicos mina o próprio Estado. Qualquer reforma teria de começar por debelar a promiscuidade que há muito tomou conta do Estado.
É evidente que um ataque ao clientelismo poria em causa interesses daquela espécie de casta que tomou conta do país.
Por outro lado, nada se faz para melhorar o desempenho da Administração Pública, toda a acção do Governo incide sobre cortes, preservando o já referido clientelismo.
Consequentemente, a reforma, refundação do Estado - chamem-lhe o que entenderem - acabará invariavelmente por incidir sobre o Estado Social, não de modo a torná-lo mais equitativo, mas antes destruindo-o. Importa não esquecer que o ataque ao Estado Social abrirá portas a negócios de índole privada e que esse ataque é intrínseco aos anseios dos arautos do neoliberalismo.
De resto, não poderia haver cenário mais perfeito do que aquele que atira para cima dos cidadãos uma crise cujas verdadeiras responsabilidades foram há muito esquecidas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A França está falida


A França está falida, ou melhor, a França está "totalmente falida" - palavras do ministro do Trabalho de François Hollande. O desconforto em volta das declarações do ministro do Trabalho foram imediatas.
Se este país está, de facto, falido, a Europa acabará por ter um novo problema de dimensões consideráveis, depois das dificuldades de países como Espanha ou Itália.
Ainda assim, França continua a financiar-se nos mercados a taxas de juro sustentáveis. Mas nada garante que essa situação não se inverta, aliás, as agências de notação financeira não se coibiram de retirar o triplo "A".
Claro está que países como França dificilmente se sujeitariam a planos de austeridade onerosos como tem sido o nosso caso, desde logo porque François Hollande, ao contrário de Passos Coelho, nunca o admitiria. Em rigor, e já aqui se referiu, Pedro Passos Coelho e o seu séquito chafurdam no mais acérrimo neoliberalismo

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Ainda o regresso aos mercados

Expiámos a nossa culpa, regressámos com sucesso aos mercados. Depois de anos de incúria, de esbanjamento cujas responsabilidades são só nossas, o grande líder Pedro Passos Coelho, coadjuvado pelo igualmente magnânimo mestre das Finanças Vítor Gaspar conseguiram a proeza de nos fazer regressar aos sacrossantos mercados.
Exageros de retórica à parte, o discurso oficial não anda longe do que acabámos de mencionar.
De resto, fica excluído o enquadramento europeu, decisivo para a compreensão deste assunto. Não se refere a crise da moeda única - que se agudizou com as doses cavalares de austeridade -. não se sublinha o facto dos mercados terem acalmado depois da mudança (ténue, mas ainda assim uma mudança) das políticas do BCE, excluindo-se da discussão o facto de toda a operação de regresso aos mercados ter decorrido debaixo do chapéu do BCE.
No discurso oficial não cabe a dimensão europeia do problema. Estamos como estamos por nossa responsabilidade e só sairemos deste problema recorrendo a políticas recessivas. E pelo caminho já todos esquecemos a origem desta crise.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A tibieza do PS

A liderança do PS tem sido caracterizada por uma acentuada fragilização do líder. Apesar das políticas do Governo e das subsequentes manifestações de desagrado oriundas de vários quadrantes da sociedade portuguesa, António José Seguro não tem conseguido assumir uma liderança consolidada do maior partido da oposição.
Assim sendo, e perante a fragilidade do líder, surgem vozes de contestação dentro do próprio partido. No PS há quem almeje uma outra liderança e reunidas determinadas condições essas mesmas vozes de contestação interna acabarão por contribuir para a queda da actual liderança.
A tibieza revelada pelo líder do partido confunde-se com a fragilização do próprio Partido Socialista. Seguro tem dificuldades manifestas em assumir posições. Comprometido com o memorando de entendimento e procurando afastar-se do PSD e do CDS, mas também dos partidos mais à esquerda, não raras vezes cai na armadilha da insegurança.
O actual contexto é intrincado. Eleições internas podem correr o risco de serem extemporâneas; a actual liderança não se desmarca da imagem de insegurança; a contestação interna contribui igualmente para uma imagem de fragilidade do maior partido da oposição. Por outro lado ainda, o fantasma de José Sócrates continua bem presente. Incrivelmente.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Luz ao fundo do túnel

É tarefa intrincada aduzir argumentos para a defesa das políticas do Executivo de Passos Coelho, ainda assim verifica-se que já há mais alguém a ver "uma luz ao fundo do túnel".
Primeiro foi o próprio primeiro-ministro a ver a tal luz ao fundo do túnel. Agora foi o ministro dos Negócios Estrangeiros Alemão a dizer o mesmo. De facto, estes senhores e seus respectivos lacaios têm capacidades que suplantam o comum dos mortais.
Quanto ao ministro Alemão, pouco haverá a dizer - a Europa, designadamente o Governo alemão, necessita de casos de sucesso que justifiquem a sua visão draconiana da economia e da vida. Portugal serve como caso de sucesso. Nem podia ser de outra forma, até porque outra Grécia poderia pôr em causa as políticas defendidas por Merkel e pelos seus arautos para os países periféricos.
Relativamente a Passos Coelho, o primeiro a ver a luz ao fundo do túnel, resta dizer que o primeiro-ministro não vê, ou não quer ver, ou, eventualmente, não tem a intenção de reconhecer a escuridão que tomou conta da vida de uma boa parte dos cidadãos do seu país.
Em rigor, a luz que Passos vê acaba por ser a mesma que tem de iluminar o caminho até às autárquicas. Também os partidos da coligação precisam de casos de sucesso. A ver vamos nas próximas eleições PSD e CDS não ficarão na penumbra.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Sucesso

Depois de quase dois anos de contestação (incluindo alguma contestação interna) e aproximando-se um período eleitoral de significativa importância, o Governo necessita da divulgação exaustiva de episódios de sucesso. A operação sindicada de ontem - o famigerado regresso bem-sucedido aos mercados - insere-se nessa lógica.
Pouco interessará esmiuçar os meandros dessa dita operação de regresso aos mercados. Muito menos interessará sublinhar que não há mérito do Governo na dita operação. Importa apenas associar a manobra bem-sucedida ao trabalho do Governo, enaltecendo o sucesso da mesma.
Paralelamente à contestação, os quase dois anos do Executivo de Passos Coelho têm-se pautado por falhanços atrás de falhanços. A insistência na receita da austeridade, consequência da cegueira ideológicas e da salvaguarda de interesses diametralmente opostos aos dos cidadãos, vão fazendo o seu caminho, desta vez sob os auspícios do sucesso. Do aparente sucesso.