sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Nova nota de cinco euros

Não é assunto com particular relevância, ainda assim vale a pena referir que a nova nota de cinco euros evoca a figura mitológica grega Europa. É paradoxal, irónico, revela despudor de uma Europa tecnocrata agarrada a uma ideologia nefasta, refém de egoísmos atrozes.
A nota, apresentada pelo tecnocrata e Presidente do Banco Central Europeu, Mário Draghi, faz referência à matriz cultural europeia indissociável da vasta herança helénica.
Pelo caminho, ignora-se o tratamento a que o país que nos legou essa cultura tem sido sujeito. Entre ameaças de saída da moeda única, depois de países afastarem-se da Grécia como se este fosse um Estado pária; depois de humilhações e de processos de culpabilização, traz-se à colação a herança que esse país nos deixou.
Não há limites para o despudor desta gente cega ideologicamente, afastada dos seus cidadãos e lacaia do sector financeiro. Não há intenções de se alterar estruturalmente o funcionamento da moeda única, nem tão-pouco se vislumbra qualquer laivo de união política.
A União Europeia, prémio Nobel da Paz, muda as suas notas, deixando morrer, vagarosamente, um dos seus membros, mas fazendo questão de evocar a vasta herança que esse mesmo membro deixou. É preciso ter lata.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Menu de medidas

Carlos Moedas, Secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, não descartou a possibilidade do Governo adoptar o menu de medidas "sugerido" pelo Fundo Monetário Internacional. Recorde-se que o FMI apresentou um relatório sugerindo medidas para conseguir um corte de 4000 milhões de euros na despesa pública Entre as propostas do menu podemos encontrar despedimento em massa de funcionários públicos, fragilização do Estado Social - despedimentos de professores, aumento das taxas moderadoras, redução de subsidio de desemprego, redução significativa das pensões. Medidas que contribuem para uma fragilização sem paralelo do Estado Social ao mesmo tempo que milhares de milhões de euros são consumidos pela banca, pelos negócios obscuros tantas vezes envolvendo responsáveis governativos, pela opacidade das consultadorias que o Estado solicita, pelas parcerias público-privadas e por outras rendas e juros.
Ora, o Sr. Moedas não afastou a possibilidade de se adoptarem as ditas sugestões, acrescentando ainda que o relatório do FMI está muito bem feito. Ou seja o menu do FMI é, aos olhos deste inefável responsável político, interessante.
Em resposta ao menu do FMI que o Governo considera interessante, nada como apresentar um outro menu composto de participação activa por parte dos cidadãos de modo a combater o menu tão do agrado do Sr. Moedas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O que FMI propõe

O Fundo Monetário Internacional, instituição responsável pelo soçobrar de muitas vidas, um pouco por todo o planeta, volta a carga em Portugal.
Fazendo parte integrante da Troika, mostrando, amiúde, ser o lado menos punitivo dessa mesma Troika, o FMI vem agora fazer novas propostas ao Governo de Passos Coelho - o mesmo Governo que passa uma boa parte do tempo a esconder a excitação perante doses cavalares de austeridade, perante a destruição da austeridade e a "abertura" dos vários sectores de actividade da economia portuguesa. Enfim, a mesma receita que o FMI tem preconizado há largas décadas.
É preciso cortar 4000 milhões de euros, dizem eles. Assim sendo, os cortes devem incidir sobre os funcionários públicos - recomenda-se uma redução de 20 por cento; corte nos salários dos funcionários públicos; cortes nas pensões - mais 20 por cento de corte para os pensionistas da Caixa Geral de Aposentações; críticas e subsequentes cortes no subsídio de desemprego ; cortes na educação; aumentos de propinas e aposta no privado e na dispensa de professores. A receita não é nova, é neoliberal e provoca elevada excitação no Governo.
Quanto aos resultados, estes são invariavelmente negativos e só não só piores devido às famigeradas receitas extraordinárias.
O objectivo não se prende com o combate da crise; mas antes com a desvalorização dos salários, com a destruição do Estado Social e com a abertura a oportunidades de negócios, invariavelmente ligadas à banca.
Já se sabe que este Governo (e o anterior) não se coíbe de socorrer ao sector financeiro. Já se sabe que este Governo não se coíbe de atacar os cidadãos. E também já se sabe o que é que é necessário ser feito. O que já não pode ser adiado.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

As greves e o atraso do país

Segundo Nuno Melo, Vice-Presidente do CDS, as greves são "trágicas" e constituem "factores que mais incertezas trazem". Embora as afirmações tenham sido proferidas há algumas semanas, a sua actualidade mantém-se.
É curioso este proeminente membro de um dos partidos da coligação falar em incerteza quando a receita que subscreve redunda num gritante clima de incerteza. Senão vejamos: a carga fiscal, os aumentos, o carácter intrincado e a sucessão de alterações à legislação fiscal constituem "factores que mais incertezas trazem"? E o que dizer da promiscuidade - tão cara a este Governo - entre poder político e poder económico, designadamente entre governos e empresas do regime? Já não falar da corrupção que anda invariavelmente de mãos dadas com essa mesma promiscuidade. Serão estes "factores que mais incertezas trazem"? Que investidores é que considerarão apostar neste país?
Aparentemente, e do ponto de vista de Nuno Melo", a tragédia é a greve. É claro que para Nuno Melo a legitimidade dos trabalhadores e os seus direitos são questões de somenos. Afinal de contas, por aqui tudo se atropela em nome de um estado de excepção, de emergência, ou do que lhe queiram chamar.
A greve é um direito, o que não pressupõe que não haja lugar a críticas que também fazem parte do Estado democrático. Porém, antes de Nuno Melo criticar a greve associando-a ao atraso do país, recomenda-se que o reputado dirigente do CDS olhe para o que o seu partido anda a fazer no Governo.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"Ciclo vicioso"

Portugal não está num "ciclo vicioso", palavras de Passos Coelho. Entre muitas outras duvidas fica por esclarecer se o primeiro-ministro queria dizer mesmo "ciclo vicioso" ou "círculo vicioso".
De qualquer modo, Passos Coelho está convencido (?) ou pretende convencer que a sua receita assente em doses cavalares de austeridade vai produzir outros resultados para além do desastre que já estamos a viver.
Assim, o primeiro-ministro, por altura das janeiras, afirma que "vislumbra a saída de um período difícil" em contraste com a inexistência de um "ciclo vicioso" ou será círculo vicioso?
Contra todas as evidências, o primeiro-ministro procura passar a ideia de que todos estes incomensuráveis sacrifícios valerão a pena. E nem podia ser de outra forma, afinal de contas, o primeiro-ministro precisa de legitimar a sua acção política, numa altura em que apenas pode contar com a compreensão de poucos e de outros tantos iluminados que o coadjuvam.
E é deste singelo modo que se elimina a possibilidade de se estar a viver uma situação de "ciclo vicioso" ou será antes "círculo vicioso"?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Números

Nunca como agora vivemos obcecados com números. O défice, a dívida, o desemprego, a riqueza produzida num ano, a redução salarial, os escalões de IRS, a despesa pública, os ratings das agências de notação financeira, os rácios dos bancos e a injecção de milhões nesses mesmos bancos , o crescimento económico como a panaceia tão almejada - um crescimento tantas vezes longe de ser equitativamente redistribuído.
Este governo chafurda em números que escondem diferentes realidades amiúde distantes da história que nos é contada dia após dia. E mesmo assim não conseguem mostrar resultados que convençam quem quer que seja.
A obsessão pelos números é preocupante, sendo que é exponencialmente maior do que aquela que os representantes políticos demonstram ter pelas pessoas. De facto, as próprias pessoas são números, como se os governantes fossem pastores que contam cabeças de gado - mesmo esses pastores demonstram ter mais consideração pelo seu rebanho do que o Governo pelos cidadãos.
A obsessão pelos números é característica de quem, veladamente ou não, faz a apologia da ideologia dominante. O crescimento económico, por exemplo, é encarado como objectivo primordial de qualquer governo que se preze. Porém, esse crescimento económico acarreta invariavelmente custos elevados, designadamente no que diz respeito ao ambiente. Por outro lado, esse mesmo crescimento económico não se traduz numa redistribuição equitativa da riqueza.
Os números do desemprego - assentes em estatísticas oficiais dos desempregados inscritos nos centros de emprego - esconde outros tantos excluídos que abandonaram há muito qualquer réstia de esperança de fazer parte activa de um sistema que os despreza.
Este mês e no próximo, os números voltarão a ter um peso incomensurável em muitos de nós. Os salários e pensões ficarão mais magros e as contas complicar-se-ão. De igual forma, os famigerados indicadores económicos que regem as nossas vidas consubstanciados em mais números, em mais percentagens e em mais metas, voltarão a assombrar o país. Até lá, continuaremos a ouvir que nós não somos a Grécia, enquanto os Espanhóis afirmam não ser Portugal e por aí fora. Até lá, ficaremos com uma certeza - ninguém se revê numa Europa refém de uma ideologia que, à semelhança de outras no passado, instrumentaliza números, dando-lhes reforçada importância, para pintar uma realidade que na verdade é negra.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Palavras

Cavaco Silva deixou algumas mensagens na sua intervenção de novo ano. Referiu que os sacrifícios não serão iguais para todos; falou da necessidade do país crescer, deixando críticas veladas às doses cavalares de austeridade. Foram palavras, mensagens, num país cansado e pessimista.
O Presidente da República acrescentou ainda que enviou o Orçamento para o Tribunal Constitucional, em sede de fiscalização sucessiva, depois de o ter promulgado. Segundo Cavaco Silva a não promulgação do Orçamento de Estado abalaria a imagem externa, embora o mesmo suscite dúvidas no Presidente.
As palavras de Cavaco não são consequentes, em particular quando a imagem do Presidente não sai incólume desta trapalhada chamada governação, sobretudo porque todas as suas acções redundam numa conivência que legitima a acção do Governo.
Crescimento económico num contexto de aplicação de doses cavalares de austeridade é uma mera ilusão e Cavaco Silva teve várias oportunidades de intervir. Não o fez. Consequentemente, as críticas mais ou menos veladas ao rumo que o país tem levado são também críticas à sua própria actuação como Presidente da República.